Anotações em tempos de crise

Rodrigo Levino
Aug 22, 2017 · 4 min read
  • A favela mental que é discutir se nazismo é de esquerda ou direita é autóctone; em nenhum outro lugar do mundo ela poderia ter florescido tão frondosa como no Brasil.
  • Que não seja o elemento totalitário em nossas convicções e no modo como as instrumentalizamos como expressão política, o ponto primordial de nenhuma discussão nesse país, é mais um sinal inequívoco do lodo intelectual em que afundamos todos os dias.
  • Em Diário de Um Ano Ruim, J. M. Coetzee, ao tecer um dos arrazoados mais pertinentes sobre os fundamentos e as fragilidades da democracia moderna, relembra a tese dos ‘gêmeos guerreiros’ de René Girard, de ‘quanto menos diferenças substantivas entre as duas partes, mais amargo é o ódio mútuo’.
  • Os antifas e os neonazis são feitos da mesma tara violenta e revolucionária. Suas franjas idem.
  • Theodore Dalrymple é muito feliz quando leva em conta o ressentimento como importante motor social, mas deixa escapar o preconceito de classe ao apontá-lo quase sempre nas camadas mais empobrecidas. Ele existe? Dá para cortar no ar, mas por todos os lados.
  • A esquerda brasileira jamais entenderá a reação que criou nos últimos 13 anos sem compreender que o escárnio é pai do ressentimento.
  • Tudo que menos se quer é pensar quando estamos ocupados em destruir nossos oponentes.
  • Os EUA já flertaram com o fascismo antes. Os arquivos de jornais guardam os rallies em Nova York nos anos 1930 vandalizando comércios de judeus e clubes de liberais. ‘…nos anos 1930 havia apoio alarmante a Hitler nos Estados Unidos, com uma proliferação de camisas-negras ao estilo americano’, conta Myra MacPherson.
  • Não havia política identitária nos anos 1930 que o argumento possa ser tão canalhamente levantado como causa para, chamemos de, essa virada fascista na política cotidiana dos EUA. O excepcionalismo independente de um oponente real. Ele se alimenta de conceitos estúpidos como micro-agressões tanto quanto de racismo reverso.
  • No Brasil, nos anos 1930, intelectuais como Câmara Cascudo não escondiam a militância integralista e invejavam abertamente a ‘ordem’ aparente que o totalitarismo [foi assim que Mussolini chamou o seu regime] levou à Rússia, Itália e Alemanha.
  • Eram por óbvio contendores respeitáveis, ao contrário da legião de olavetes que come com as mãos enquanto fala de guerra cultural e socialismo fabiano.
  • Simon Schama, em O Futuro da América, conta que ‘no sul, os pastores estavam determinados a santificar os heróis derrotados — Lee, Davis e, acima de todos, o general Thomas J. Stonewall Jackson, cuja vida era reverenciada como modelo de abnegada nobreza cristã. Sempre que morria mais um general confederado, a Igreja aproveitava o funeral para projetar uma imagem do Sul como uma cidadela de virtudes cristãs que resistia à maré montante (principalmente no Novo Sul) de comercialismo degradante, da sexualidade depravada e do torpor alcoólico: os pecados da metrópole que avançavam contra o acampamento dos justos’.
  • Como negar que esse veio de ressentimento, purismo, moralismo e hipocrisia encontrou no patriotismo racista um seiva da qual pode se alimentar nos últimos cem anos?
  • Que as opiniões da minha mãe evangélica se aproximem cada vez mais, e vice-versa, do codex das feministas radicais não deixa de surpreender.
  • A deturpação da fé demonstrada pela Klan podia ser extremada, mas era também uma reação característica à experiência de derrota e esbulho, apegando-se à nostalgia de uma forma de aristocracia cristã que só podia ter existido sobre as costas dos escravos’, de novo Schama, em O Futuro da América.
  • Quem entenderá que recuar não é fugir e, ao dar um passo atrás, talvez perceba que o oponente a quem deseja aniquilar é sangue do seu sangue?
  • Liberdade de expressão é liberdade de insulto. E ela é tratada pela esquerda como qualquer naco de direito humano o é pela direita: como a defesa do erro.
  • Preconceito, segundo Ambrose Bierce, é uma ‘opinião errante sem forma visível de sustentação’.
  • A mentalidade revolucionária é, segundo defende Vladimir Tismaneanu em Do Comunismo, ‘mnemofóbica e axiofóbica’, tem horror aos valores e à memória; esta por expor suas contradições, aqueles por serem o que de mais sólido por haver contra suas pretensões imediatas e totalitárias.
  • A Columbia Encyclopedia define o fascismo como uma ‘filosofia de governo que glorifica o Estado e a nação e atribui ao controle do Estado todos os aspectos da vida nacional’. É o sonho inconfesso dos bolsokids tanto quanto de Gleisi Hoffmann.
  • O anti-intelectualismo, ligar cultura/livro à trapaça é o abraço dos bolsonaristas e lulistas old school. O louvor ao tosco, a um saber rudimentar intocado pela lábia dos intelectuais — que também se prestam a um papel vergonhoso de apparatchiks enquanto isso. É só uma prova de que vulgaridade nesse país é mato.
  • Solapamento do regime parlamentar’, sucedido por ‘todo tipo de tirania, fascista e semifascista, de partido único e ditaduras militares’, até chegar a um ‘aparente sólido estabelecimento de governos autoritários baseados no apoio das massas’, é essa a sequência descrita por Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, citada por Naomi Wolff em O Fim da América.
  • Dê poder ao seu amigo progressista mais humanista ou ao conservador mais cristão [na verdade fariseu] e a chance de encontrar um deles enforcado no dia seguinte é enorme.
  • A santimônia e não o patriotismo é o último refúgio da nossa canalha.

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