Entrevistas de trabalho insólitas — Parte 1

Levanta-se de manhã, com aquela preguicite característica das manhãs de inverno, sorri, não porque está feliz, mas porque hoje, finalmente hoje, tem um evento promissor. Demora mais de dois minutos a vestir-se e quase dez a preparar-se. Hoje é o grande dia! Toma pequeno almoço e até se esquece do iogurte com muesli — deve realmente tratar-se de algo importante para ela se esquecer do iogurte com muesli.

Entra no carro com o habitual chá verde de jasmim dentro do termo, passando metade da viagem até ao destino pensando que talvez foi um erro decidir beber o mesmo de sempre… Talvez se tivesse mudado o ritual hoje, só hoje, as coisas corriam melhor do que aquilo que têm corrido ultimamente.

Conduz devagar o caminho todo, não por precaução, mas porque está tão adientada que tem tempo de sobra para apreciar a paisagem que tantas vezes lhe escapa pelo misto de desatenção e pressa que a assombram usualmente. Desta vez, não se perdendo nas ruelas que rodeiam o ponto de encontro, é uma excutiva confiante e determinada, cheia de ideias e sonhos, com o andar sensivelmente mais coordenado e o queixo ligeiramente mais erguido. Dá o aperto de mão tal e qual como aquele artigo da revista que leu há uns anos atrás a aconselhou a fazer: 0% de mão de manteiga, 100% de firmeza e um toque de energia positiva que será transmitida no momento que o aperto dá aquela pequena sacudidela.

Horas e horas passam e, mesmo sentada numa infeliz cadeira de plástico, mantém a postura perfeita e evita com todas as minhas forças bocejar. Contam-lhe a história da empresa, mostram-lhe projetos anteriores e até escuta com a devida atenção as projeções do futuro. Isto promete, pensa ela com o único botão que hoje a acompanha (metalizado, das calças da J.Crew).

De repente, compreende o porquê daquele instinto pessimista que sentia desde a marcação da entrevista. Fica perplexa, não pela afirmação, mas pela honestidade distorcida que se apresenta aos seus ouvidos:

“Sabes, as empresas rejeitam pessoas como tu, que não têm experiência, portanto para fazer currículo a única opção viável é trabalhares à borla por algum tempo para teres algo para colocar no currículo”.

Ouve isto e, quase que milagrosamente, de entre os lábios lhe sai a resposta mais peculiar que alguma vez deu a uma afirmação insólita: “Sim, compreendo”.

Pensa duas vezes, três, quatro, cinco… Bem, uma quantidade indeterminada de vezes. A derradeira questão fica no ar, mantendo-se um pouco demasiado firme a flutuar à volta da sua cabeça.

Qual cabeça manda contra a parede: a sua ou a dela?

Este texto trata-se de um evento verídico e foi originalmente publicado em 2015, aqui.