VINGADORES: GUERRA INFINITA (2018): Destruição como criação

Rafael Gomes
Sep 3, 2018 · 3 min read

Na espera de uma resposta franca e no “treinamento” do olhar, permanece ainda as elucidações óbvias no exercício dessa criação específica. Pois, o crítico é uma resposta cosmológica que vai desde o seu aprendizado particular da teoria até o seu sentido mais amplo de sentar-se na poltrona do cinema. Embarca naquilo como um passageiro: ao sair do barco, reclama da água agitada e das náuseas. Mas esquece que a água não pode ser controlada. Deve-se, nesse modo, atenção ao seu movimento, atenção ao seu poder; antecipar ao seu poder, antecipar o movimento.

Quando escrevi a crítica de Guerra Infinita (bem na estreia), estava muito mais interessado no resultado da destruição do que na definição de ideias. Se assemelhava a um grito de medo: da falta de argumentos, de construções e de resoluções. Tinha medo de mostrar sua fragilidade e escondia na estrutura, na relação conceitual, na imagem crua de uma postura prepotente, um caminho restrito. Ademais, não digo que falar mal de um filme seja errado. Tudo com propriedade deve ser respeitado a seu devido trabalho de redefinir conceitos — mas eu fui o escritor fracasso.

Precisei sentir a desconfiança: onde estava o grandioso crítico? Aquele já não fazia mais questão de aparecer. Sabia que fora desonesto com a própria postura dentro de si e à frente do filme: riu, vibrou e até chorou. Mentiu tudo no testamento mais tarde. Prendeu os sentimentos e a fim de manter um olhar sangrento de definição. Mas, definitivamente, perdeu o tato pelo mais simples da reação. Não era um filme para ele (não sou um fã de quadrinhos), mas que filme que não pode ser? Agarrou aquela história e toda a encenação. Agrupou aquele sentido de sacrifício como resposta concreta para o contexto. Filmes de heróis desaparecendo com o estalar de dedos. Já não é mais preciso a terceira pessoa para isso, dentro de uma ética simplista que criei para eu mesmo.

A desmistificação se encontrava com gosto — Vingadores: Guerra Infinita não a merecia. Julgo com vigor a tal “coragem” que atribuem ao filme, afinal, ele só faz o trabalho com esperteza, só está a frente de uma revelação mediadora de filmes de heróis. Simplifica esse conceito nessa jornada rápida: Thanos cansou de perder e os heróis, até ali, nunca perderam. Chegou a hora de uma quebra e de finalmente apreciar aquele efeito especial no juízo canastrão que demonstra (Josh Brolin, careca a roxo). Matam metade dos heróis milionários que voltarão. Mas quem se importa? O gênero também vai assumir seu próspero fim — a indústria igualmente tem um pouco de Thanos no juízo final.

Porém, antes disso, me surpreende como não percebi que Guerra Infinita seja a conclusão de tanta coisa ao mesmo tempo que único. Estava na cara o drama bem informado de Homem-Formiga, o movimento de Guardiões da Galáxia e o coletivo de um Vingadores. É a jogada esclarecida e pronta. Por um lado, até parece um filme que visa o espetáculo ao mesmo tempo que contido naquela particularidade com o Thanos e nessa “criação” significativa de destruição: de uma relação performática com o gênero que se escapa para o singelo com poucos cortes (na morte da Gamora, por exemplo). Também na superação antiesquemática que estabelece na urgência de tudo (Tony Stark impedido de ligar para Steve Rogers). Terminado por uma função simplificada da fantasia que mistura tudo isso (Thor recebendo um raio de sol no peito). Características sólidas logo após encerrar a trilha bombástica, as explosões e o silêncio, por assim dizer, calando-os. (É o primeiro filme do gênero que consegue calar a boca dos personagens e do espectador ao mesmo tempo.)

Não esperava que logo esse filme alcançasse o patamar de reflexão tão alta. Numa relação bem mais íntima com a crítica, sem amarrações analíticas e desprendido de um conceito domesticado a ela. Até pode ter mais algumas coisas para discutir sobre se os diretores Russo Bro. a respeito se são ou não definitivamente autores dessa fantasia sintomática do gênero, mas nem interessa tanto. Me basta só declarar aqui o meu fracasso anterior e pronto.

Vamos para o próximo.

    Rafael Gomes

    Written by

    crítico de cinema marginalizado

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