Espelho Mágico

Eu abro minha boca e inspiro, Sinto o ar queimando minha goela.

Não, de novo não.

Minha garganta se contrai, todo o ar deixa meus pulmões, sinto todo o meu peito arder em brasa.

O mundo todo se torna sombras, perdidas na penumbra.

Observo a minha silhueta e o pulmão se esvazia mais uma vez. Vejo meus cabelos emaranhados desafiando a gravidade, a morbidez estapeia minha cara, observo os contornos mal definidos e agigantados e vejo cada banha pronunciar-se embaixo dos panos.

Instintivamente, procuro um espelho.

Minhas bochechas parecem maiores e as olheiras parecem ter tomado conta do meu rosto.

Não me reconheço ali.

Olho nos olhos daquilo que deveria ser meu reflexo.

Vejo o relacionamento gasto cujo fim é eminente. Vejo tudo que tem que ser concluído para alcançar o sucesso profissional. Vejo a dor de odiar sua própria representação, seu próprio corpo.

E acima de tudo, vejo todos os esforços vãos. Vejo os textos que ela começou a ler e não terminou, as matérias acumuladas, as tentativas desesperadas de salvar um amor, tentativas que acabam o desgastando mais e mais, vejo as caminhadas e as dietas que duraram uma semana.

Vejo incapacidade, fracasso, dor.

Essa não pode ser eu. O espelho não me reflete.

Ao virar as costas para o espelho, posso jurar que vi lágrimas no rosto daquela mulher.

Automaticamente levo as mãos ao rosto.

Rio.