Aos que sentem, não sentem ou ainda não sentiram.

Convenhamos, é difícil permanecer resistente na luta contra este nosso desconhecido inimigo invisível. Hoje, em súplica, escrevo para atenuar tamanha dor que, volta e meia , paraliza aquele que vos escreve, no combate contra mais um daqueles vários turbilhões que se instalam e incapacitam nossas atividades diárias. Sabemos que, assim como nas estações, entre invernos e verões, tudo tende a passar e ainda assim encontro-me aqui, compartilhando com as forças que ainda me restam, a fim de mostrar-lhes o quão notável é perseverar — apesar de ter asco da força que esse termo tem na destrutiva cultura motivacional/autojuda.

Aos que sentem

O significado torna-se necessário, quase uma obrigatoriedade. Obrigatório porque somos carentes por conclusões lógicas ou racionais que elucidem o que sentimos, porque sentimos e como lidar com o que sentimos, além do hábito moderno em aguardar pela segura — e duvidosa — resposta que a ciência ainda não pode oferecer. Além disso, somos movidos por emoções especiais, noções de espaço e tempo que estão para além do bem e do mal, suprimidas por uma culpa que curva-se diante tantas incompreensões. Temos objetivos pequenos, pois o que nos resta é sobreviver e, por conseqüencia, não podemos sonhar alto, pois uma queda pode custar nossas vidas. Apaixonar-se também tem um custo altíssimo, já que não viemos com a capacidade desejável para gerenciar fortes emoções. Mesmo limitados, vindo com a vontade anulada por uma patologia que, se associada ao acaso, não denota qualquer sentido de causa ou efeito na natureza, ainda assim, estamos fortes, estamos vivendo e o melhor: buscando. Apesar de que, infelizmente, apenas aqueles que são capazes de amar ao próximo como a simesmo são dotados da solidariedade para nos assistir a dor. Em detrimento desta, resolvi separar alguns protagonistas: Os que sentem, os que não sentem e os que — ainda — não sentem.

Aos que não sentem

Rogamos por paciência ao nos assistir. São pais, irmãos, esposas, esposos, amigos e amigas que apesar de não sentirem, vivem a parcialidade de estar ao lado e não poderem fazer muito, mas o que fazem já é suficiente para atenuar o que poderia ser ainda pior. Nós agradecemos, somos profundamente agradecidos, por mais que nossa gratidão não atinja as expectativas ideais.

Aos que — ainda — não sentiram

Pedimos caridosamente a tolerância. Entendemos o motivo pelo qual comportam-se com extrema retração, assim como qualquer ser humano reagiria diante do que jamais vivenciou, do desconhecido ou do novo. Todavia, jamais se esqueça das leis naturais e de que um dia pode ser você ou alguém muito querido que seja próximo de ti. E se, por ironia do destino, você se alistar involuntariamente à nossa causa, que sejamos unidos, mesmo que pela dor.

E por último, peço aos que choram. Peço de coração: ergam-se! Mas antes, desviem-se do dedo que acusa, oriundo daqueles alguns que — ainda — não sentiram. Aqueles que não sentem a sua dor, não a compreendem e resumem a imensa dificuldade que o crucia como se fosse parte de um espetáculo de “coitadismo generalizado”. Estamos assumindo nossa fraqueza, esta é a nossa única força, a nossa fraqueza; ela nos une, nos separa, nos especializa, nos distancia e nos aproxima. Não somos coitados, por mais que esta condição não nos forneça qualquer clamor por piedade. Em resistência agüentamos.

Esteja vivo, esteja junto e aproveite a oportunidade por mais impiedosa e confusa que aparente ser.

*Escrito em 15 de abril de 2015.

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