Porque não sou de esquerda.

O meu primeiro contato com a esquerda foi através de um tio que na época era muito querido, eu tinha doze ou treze anos. Ela caiu como uma luva, preenchendo meus anseios por Igualdade, Liberdade e até Fraternidade: Divisão de bens, justiça social, erradicação da pobreza, defesa das minorias. Como em um romance, fui acompanhando as mudanças com muito furor, defendia causas que nem fazia ideia, pelo simples fato de ser "do contra". Poucos sabem, mas a esquerda surgiu com o mesmo fator básico de ser "do contra", basta pesquisar sobre a Revolução Francesa, verás que não estou incorreto. Incorreto ou não, com o tempo, fui tomando minhas rédeas e, por incrível que pareça, lendo mais literatura do que sociologia, política ou filosofia, fiquei sob o feito antropológico da coisa. Tornei-me cada vez mais anti acadêmico e cheguei ao niil-ismo e nele encontrei várias respostas que desconstruiram velhas perguntas, assim surgindo um novo "perguntador". Em poucos anos, reformei meu pensamento umas trinta vezes, sempre cansando das velhas narrativas e, do pior, o ato de venerar. Considerei o gesto mais perverso de todos e, para agravar, descobri sua suavidade, como pode ser sucinto, mas quando descoberto não existe misericórdia, o bounce-back é direto e incisivo. Entendi que céticos veneravam algo que julgavam estar livres: o sufixo da cultuação e, pasmem, beirando à religiosidade. Quando reparei que cada um estava fazendo um palanque de idolatração para algo, alguém, de si ou até mesmo o nada, caí em desgraça. Pós estruturalistas e pós modernos caíram por terra, foi quando vi intelectuais pregando a ciência, o proselit-ismo, a intolerância, a religião, a justiça social sem educação moralmente reformadora. Foi o momento que me senti só, quando perdi a fé e a esperança.

Este é o problema da esquerda entre os países latinos. Em verdade não é a esquerda, mas o esquerd-ismo. E quando falo esquerd-ismo, não me refiro ao marx-ismo, lul-ismo, pet-ismo, ou qualquer sufixo que venha de encontro à cor vermelha. Este é o motivo pelo qual anseio por um novo diálogo, livre do culto, da idolatria, da canonização, do personal-ismo, de que todo intelectual deve ser de esquerda ou direita, do "Fla-Flu" político, Esaú e Jacó — Obrigado, Machado, Bem e Mal, Império versus República. Cansei, mas cansei sem niil-ismo passivo, não quero mais escolher o "menos pior" ou ser "contra tudo que está aí", quero reforma íntima e o cuidado com o semelhante também. Apenas cansei, mas ainda forte para aguentar o que vier e o que for preciso para mudar meu pensamento no quesito moral.

Eu tive medo de confessar até aqui, já que em um Brasil passional e conservador — e me refiro ao conservador-ismo de qualquer espécie! — dizer que não é algo ou de um lado, automaticamente o coloca no oposto. E agora? Agora, o que me incomoda não é o Jean Wyllys, o Lobão e nem você, caro leitor. Oque realmnte me importa é, permita-me pedir licença a Camus, a veneração sem o absurdo. Em verdade, o que sublimemente interessa é a reforma íntima e moral. E que assim possamos caminhar…

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