Suicídio e transtornos mentais: Alguns motivos pelos quais você não deve falar sobre o seu sofrimento.

Se você não é um sobrevivente de algum transtorno mental, esse artigo não é para você.

Antes de qualquer coisa, vou revelar o principal motivo para que não compartilhe o seu sofrimento: Homo Sapiens, símio falante, primata que se considera hominídeo detido de uma cognição que se estremece ante a qualquer relação de poder. Se só com essa definição superficial somos capazes de imaginar — e com muito pavor — a capacidade do ser "humano" em se preocupar com o próximo, imagine aprofundando-se. E eu já tentei me "aprofundar", compreender e aceitar a situação, por exemplo. Escrevendo artigos que nunca serão lidos por aqui, dissequei — pela perspectiva de quem sofre — temas complexos do transtorno bipolar, suicídio, depressão e até citei influências que afirmam que o materialismo (generalizado) afeta a cognição e a convivência coletiva (causus Baudrillard), mas foda-se, me perdoem o termo, não vou mais insistir nessa ladainha já que a maioria só se importa quando tem um carimbo. Então, vamos lá, como já cheguei perto de acabar com a hora extra na terra por várias vezes, vou citar alguns dos prejuízos irreversíveis que me causaram / eu permiti que me causassem ou que eu procurei:

  • Falaram para você escrever sobre o assunto: Geralmente esse é o PIOR incentivo de todos. Vamos combinar, quantas pessoas são honestas sobre a vida de bosta que elas tentam dissimular nas redes sociais? Quantos daqueles você sabe que no fundo levam uma vida repleta de problemas familiares, brigas, desafetos e confusões devido a fatores meramente materiais ou de cunho vaidoso? Vários. Então porque você vai dar o gostinho para que eles façam piada da sua vida que sustenta um sofrimento cujo jamais irão compreender? Porque é exatamente isso que acontece. Essas pessoas jamais serão capazes de assumir que sofrem, quem dirá enfrentar o sofrimento! E para aqueles que dizem que eu não tento, até tentei seguir essa onda "positiva", achando que "poderia escrever" algo que fosse capaz de interligar e esclarecer ambas as partes… Escrevi uma cacetada de artigos e até uma bosta de "livro" inteiro para o que? NADA! Perdi o meu tempo, além da enorme culpa que carrego devido ao delírio de grandeza que sustentei durante período. Depois disso aprendi com muita rapidez que meu tempo aqui já estava estourado e que as pessoas não querem ouvir a minha voz a não ser que o meu carimbo as faça colher fruto$ — de qualquer espécie.
  • A sua história vai ajudar alguém: Outro mito. A sua história é peculiar, assim como a minha. Com o tempo fui entendendo que cada suicida, bipolar, esquizofrênico, etc que fui conhecendo tinha motivos distintos para tirar a própria vida. Alguns eram movidos por "nunca conseguirem ser alguém", outros por terem sido abandonados pelos pais, outros por terem sofrido abusos, outros que encontraram no suicídio uma forma de protesto. Enfim, cada caso é um caso. E meu amigo, não existe história com final feliz para nós, apenas a manutenção do caos.
  • A nova corrente do Setembro Amarelo: Essa é uma data maravilhosa, com uma promissora esperança para as pessoas que experimentaram a tentativa de suicídio ou estão a beira de um colapso, engendrando uma tentativa contra a própria vida. É época de salvar vidas, de solidariedade? Errado! É época de voltar no tempo e encarnar um cristão imundo e hipócrita como na alta idade média, período em que certas ações superficiais como dar esmola aos pobres ou ajudar um leproso livrariam a sua culpa — a sua, entende? Lembro-me muito bem do último Setembro Amarelo: tive uma crise fortíssima — e involuntária, escrevi sobre o assunto e algumas pessoas entraram em contato com a devida "boa vontade". Meses depois tive uma outra crise — involuntária — e a recepção foi… advinha? Totalmente oposta ao espírito do Setembro Amarelo.
  • Não existe nenhuma história sobre superação: Rodrigo Faro não está conosco nessa batalha. Nem compare essas historias de gente pobre que supera barreiras e alcança tais sonhos (materiais, geralmente) ou esportistas que "chegam lá", isso é show business e a nossa vida (doença?) não tem espaço para tais privilégios. Não existe história de superação, apenas uma batalha constante contra um inimigo cruel e muito, mas muito covarde. O nosso cenário é o de que a sociedade não nos compreende e a ciência desconhece a origem da sua bipolaridade, esquizofrenia, borderline e, inclusive, está muito satisfeita com a manutenção das mesmas: vendendo medicamentos absurdamente caros e lucrando com a a certeza da incerteza. Meu tratamento começou em 2015 e até então tenho tido bons resultados, porém, me pergunto: "vou ficar tomando essa merda até quando? levando essa vida robótica até quando? me arrastando para fazer qualquer coisa que me proponho a fazer, mesmo com a melhor das intenções até quando?". Eu não levo uma vida normal, eu sobrevivo à existência, e sem qualquer nenhum cunho emocional confesso que a minha meta, pelo que segue até então, é morrer "naturalmente", sem cometer suicídio. Eu vivo e respiro o suicídio, ele me subjuga e eu não pedi por isso.

Aí está.

Até.

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