Trocando Livros

Como praticar a lei do menor esforço

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Lembro-me bem daqueles aflituosos dezesseis anos de idade. Como era a minha vida — amarga vida… Uma rejeição aqui, outra ali. No entanto, ouvia frequentemente:

— Mas Roberto, você é tão bonito...

E quem disse que a baixa estima permitiu que me convencesse? Ao contrário, ela escravizava, martirizava. Sentia a necessidade de ser aceito e escolhido pelas mulheres, mas nunca esboçavam um olhar sequer. A rejeição dói, se não tratada torna-se ira. Com a idade, adquiri um certo peso, que acabou deformando-me, dificultando ainda mais minhas investidas — quando ocorriam. Além de desajustado, estava acima do peso, indignado, desesperado. Em quem poderia pôr a culpa? Precisava rastrear o culpado. Inicialmente, fixei minha fúria nas mais belas, pois ao praticarem a lei do menor esforço, isto é, nada fazer para que as coisas acontecessem, evidenciavam a frouxidão que ali continha. O mundo naturalmente empurrava as oportunidades para que elas escolhessem como bem entendiam. Ai daquelas que, magras e bonitas, não adotassem essa regra: a punição erasevera. Conheci uma moça assim, a cada momento em que renegava sua beleza e refutasse a lei do menor esforço, um chicote psíquico açoitava o seu corpo. Talvez você, caro leitor, esteja se perguntando que diabos é essa tal lei do menor esforço. Não há complexidade alguma, viu? Vou seguir a lógica do menor esforço e explicar a ponto de entender sem quaisquer desdobramento. Exemplificando: Que dificuldade o indivíduo passou para receber louros e benefícios apenas por sua aparência física? Nenhuma. A não ser que sua progenitora tenha feit parto normal, aí encontra-se o esforço — mas ainda assim não é do sujeito em questão! Para que se esforçar? Você já veio pronto para receber elogios e para que batam palmas!

Bem, com o peso condenando minha imagem, só me restou me preparar para esta triagem… Não só a triagem que me aguardava, mas as palmas, os elogios e a sensação de superação. Ao contrário das circunstâncias deste código imposto, eu tinha que me esforçar, emagrecer, pois não era favorecido pela beleza nata. Com o tempo, emagreci e pior, enriqueci também. Cheguei no lado de lá, no lado que seleta. No entanto, a raiva tomava conta das minhas atitudes, desejava vingança. Aflito com a situação, lembrei que o que me acalmava era que, como homem, aprendi que devemos sempre esperar o não — era nossa função chegar, conquistar, convencer, suportar o não. Assim, contávamos com os 5o% do não antes de investir numa possibilidade. Já aqueles que possuem o respaldo da lei do menor esforço — rara no caso de homens como eu, sempre estão aptos a receber o sim. Para receber o sim do nosso lado, para que nao tenhamos trabalho algum, é importante que o seu sobrenome seja além do comum, sua conta bancária e sua assiduidade nas academias caras da cidade estejam em dia. Porém, quando elas e eles sentem o gosto da rejeição, quando a lei não funciona, entram em rebelião. Em outras palavras, aquele que está sempre à espera deste sim, quando em estado de falência, não sabe como lidar com a queda.

Não há tempo para o outro

O amor do jeito que concebe este vassalo do mandamento do menor esforço atua em um campo egoísta por excelência. Egóico, rasga aos ventos pedindo para que caia dos céus o sublime, com carruagens e louros. No entanto, em excelsa verdade, ele apenas aguarda o porvir, mas sem que quaisquer mudança interna seja feita. O motivo de não dar importância para essas mudanças? Lei do menor esforço! Pode parecer absurdo, mas descartar a vida humana é tão simples como remover e colocar outro livro da prateleira. Se bobear, até pior: Você tira, lê, não gosta do prefácio ou da capa e guarda de volta, podendo pegar de volta quando bem achar. Assim como o livro, a vida também tem um conteúdo, composta por capítulos, até mesmo com um prefácio, uma capa feia ou bonita. Porém, ao contrário do livro, a vida pode sofrer sequelas profundas em detrimento desse simples ato. Foi o que aconteceu comigo, estava entrando em um ritmo de “justiça”. Quando percebi a cilada de que estava tendo o poder de escolha através da lei do menor esforço, vi como é fácil um controlado tornar-se o controlador.

Quase caí em tentação. Fui e somos movidos pela constante busca do prazer. Nos prontificamos pelo prazer, pelo instantâneo, pelo menor esforço. Detectar que estava fazendo aquilo do que fui vítima foi uma forma de libertar-me das correntes que eu mesmo amarrei em volta do meu corpo. Recordar-me que, em condições favoráveis e privilegiado por essa tal lei, fiz coisas horríveis a outras garotas. Coisas que jamais faria hoje. O porque de eu ter feito? Não existia esforço da minha parte, eu estava acostumado com o sim, então tratei-as como bem quis. Senti uma sensação de poder, sabe? Por fim, em excelsa verdade, possamos enxergar onde há amor, mas sem amorismos: um mix de amor com egoísmo. É preciso, esforço não só no que nos empenhamos, mas também em compreender naqueles que se empenham em nós.

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