(III) Drugstore 9

16:00

O odor pungente da carcaça aos seus pés, grudada ao asfalto, perfurava seu olfato como uma agulha, era ocre, era nauseabundo, e ainda assim, nada forte o suficiente para afastá-lo do curioso monte de carne e ossos espalhado à sua frente, poucos centímetros de distância.

— O que é isso? — Mina perguntara, agachada à beira da estrada, alguns passos às suas costas. Havia prendido sua juba acobreada com um lenço vermelho, sua testa era enorme e seus traços, finos. Tão alta que parecia só pernas enfiadas naqueles shorts jeans desbotados. Era um dia quente de verão, de modo que não usava nada além daquilo e uma camisetinha listrada de branco e vermelho, quase não tinha seios, a verdade era que parecia mais um garoto vestido de menina do que uma garota da sua idade, andrógina que era. Infantil, voz melódica e delicada, às vezes sua presença o irritava, às vezes ele gostava de tê-la por perto. Ele olhou-a por cima do ombro esquerdo.

— Não faço ideia — respondeu.

— Parece um caranguejo.

Sebastian afastou uma mosca do rosto com um safanão e ajeitou o boné.

— Estamos muito longe do mar.

— Mas tem um rio aqui perto — ela insistiu.

— O rio fica quilômetros de distância daqui, depois da cidade.

— Ele poderia muito bem ter andado até aqui — ela erigiu-se nas duas pernas novamente, esteve acocorada feito uma rã aquele tempo todo, debaixo do sol a pino da tarde, observando, fazendo esforço para manter o fedor pútrido longe do seu nariz.

— É mais provável que seja um tatu — disse ele, cutucando a coisa com a ponta da bota.

— Isso tem patas, Sebastian — ela disse — olhe, como patas de aranha, veja — ela atirou uma pedra em direção à carcaça numa tentativa de mostrar o que ela estava vendo sem ter de chegar muito perto. A pedra passou raspando e quicou para longe no asfalto.

— Estas coisas são costelas, são ossos. Você costuma faltar muito às aulas de biologia?

— Me toma por burra.

— Não estou chamando você de burra, é só que — ele indicou a carcaça com as duas mãos — qualquer imbecil pode perceber que isto espetado pra fora são costelas.

— Pra mim são patas.

— É um tatu, já disse — ele colocou as mãos na cintura e fungou.

— É o maior tatuzinho de jardim que já vi, então! — exclamou a garota chutando a poeira pro ar.

— Não é um tatuzinho de jardim, é um tatu, um tatu mesmo, de verdade.

— Então onde está a cabeça dele? Cadê o rabo?

Foi a vez de Sebastian acocorar-se para olhar aquilo mais de perto.

— Que nojo, garoto! Sai de perto disso!

— Me dê um graveto. — ele esticou a mão esquerda para trás, abrindo e fechando os dedos longos e nodosos de pontas quadradas. Era um hábito nojento aquele de roer as unhas, estavam completamente estragadas, amareladas e riscadas.

— Não tem graveto!

Sebastian bufou e recolheu o braço para junto do corpo novamente.

— Algum bicho carniceiro deve ter levado a cabeça e o rabo pra longe, continua sendo um tatu.

— Dos grandes.

Ele pôs-se de pé e caminhou de volta para o acostamento lentamente, ladeando a garota e passando o braço por cima de seus ombros, os dois admiraram à paisagem árida em silêncio. Tudo em volta parecia ter sido tingido de amarelo e cinza desde que o pessoal da fábrica havia matado o solo com veneno, para que nenhuma erva daninha crescesse, para que nada viesse a competir futuramente pelo espaço contra seus preciosos e imponentes eucaliptos. Eles seriam plantados em um mês, tudo o que existia em volta havia sido morto para recebê-los, quilômetros de colinas verdes repletas de arbustos espinhentos e arvoredos baixos de galhos retorcidos, característicos do cerrado, haviam dado lugar a um deserto de terra revolvida e grama seca, eles ainda estavam preparando o solo, precisavam fertilizá-lo da maneira correta. Em breve, muito em breve.

— Eu tive o sonho mais estranho da minha vida noite passada — disse Mina, encarando com olhos vítreos a carcaça à sua frente.

— O quê?

— Eu sonhei com uma floresta de árvores muito altas, muito altas mesmo, e troncos finos. Era o ocaso e ventava muito forte, tudo ao redor estava envolto numa iluminação cálida, meio azulada, aquilo me dava calafrios. Eu estava vagando por entre as árvores em silêncio quando avistei ao longe sete homens de preto, sete homens de fraque e cartola perfeitamente enfileirados, um do lado do outro, todos muito elegantes, todos muito parecidos, e ventava muito e entretanto a ventania parecia não afetá-los de maneira alguma. Acordei pela manhã com um desconforto terrível, com a sensação de que estive sendo observada a noite toda, foi perturbador.

Sebastian apertou o ombro da garota de leve e a sacudiu.

— Acho que você está lendo muito Goering antes de dormir.

— Se fosse por isso você também deveria estar sonhando coisas estranhas a essa altura, você conhece o trabalho dele a bem mais tempo que eu.

Ele deu de ombros e, de olhos fechados, ergueu as sobrancelhas três vezes enquanto falava.

— Acontece que eu sou homem, você não, embora pareça um.

O movimento foi ligeiro e preciso, ela acertou-o nas bolas em cheio com um único golpe e saiu pisando firme em direção à loja às suas costas, levantando nuvens de poeira amarelada a cada passada. Mina desviou bruscamente da única bomba de gasolina desativada do que há muito fora um posto e, bufando, adentrou o recinto através da porta de vidro dupla empoeirada. Sebastian fora deixado para trás, contorcendo-se de dor à beira da estrada, consternado. Lá dentro, no ar-condicionado, o Velho Bill se refrescava sentado atrás do caixa, recostado à parede, de olhos fechados e barba por fazer, também usava o uniforme da loja, embora isso fizesse pouca diferença àquela altura, ninguém vinha ali. Absolutamente ninguém, com exceção dos perdidos, dos desavisados e dos peões da fábrica, que pilotavam máquinas e aravam o solo e envenenavam tudo em seu caminho.

O Velho Bill era um homem alto e magricela, dono de maxilar demarcado e bigode farto, além de Sebastian tinha também um gato persa cinzento chamado Pistache como companhia, este era a mascote da loja da qual o mesmo era proprietário há quase trinta anos. “Trinta e dois, mais precisamente” ele diria se questionado. A Drogaria Nove fora o Posto Nove a princípio, uma bomba de gasolina mequetrefe acoplada à uma loja de conveniências fajuta, nada muito grande, um pequeno galpão, comprido, mas estreito, de teto alto e com um anexo ao fundo, o que seria um depósito e que atualmente, além de ocupar a função para a qual originalmente fora designado também faz as vezes de aposentos do Velho Bill, a partir do momento em que o mesmo perdera a casa na cidade para o banco dois anos atrás.

Sebastian caíra naquele lugar de paraquedas, seu pai era amigo de infância do Velho Bill, e o Velho Bill andava precisando de uma ajuda, mão de obra barata, nada que um adolescente desocupado não resolvesse. Ele próprio não tinha mais saco para ficar sentado ali atrás do caixa o dia inteiro, estava perto dos setenta àquela altura, e desde que a bomba de gasolina havia encerrado as atividades por definitivo, a clientela que já era pouca diminuiu ainda mais. Foi quando o velho teve a brilhante ideia de transformar o lugar numa farmácia, por algum motivo, não me pergunte qual, afinal de contas, quem precisa de remédios no meio do nada? “Emergências existem”, ele respondera certa vez, “temos de nos agarrar às oportunidades”. Desde então, o Posto Nove se tornou a Drogaria Nove que na realidade não passava de uma loja de conveniências que também vendia remédios. Uma verdadeira bagunça.

— Boa tarde, Seu Bill — cantarolou Mina, abrindo a cara fechada.

O velho arregalou um enorme olho esverdeado em direção à ela.

— Você de novo, Wilhelmina?

— Eu de novo, Seu Bill.

O velhote pigarreou e empertigou-se.

— Você só pode tá querendo arruinar o meu negócio.

— Ora, e de que maneira eu faria isso, Seu Bill?

O velho afastou-se da parede e, rangendo feito uma antiga e grande árvore, esticou o braço magro em direção à caixinha quadrada que era o rádio portátil à pilha. Com um estalo, o ar monótono de dentro da loja encheu-se de música, Mina admirava-o em silêncio, com o cotovelo esquerdo apoiado sobre o balcão e os dedos tamborilando no ritmo da canção. Velho Bill parecia ter saído de um conto de fadas, um velho teixo tão antigo quanto o tempo, criara vida e tomara feições humanas para si, dando formato a um corpo alto e recurvado, consistência à uma pele amadeirada e enrugada, esticada sobre os músculos e os ossos ainda resistentes, muito resistentes, diga-se de passagem. Sua heterocromia se manifestava num olho castanho que ficava constantemente fechado e num famigerado olho esverdeado, salpicado de amarelo, enorme, o qual usava para escrutinar e julgar em silêncio aqueles que cruzavam o seu caminho, ambos coroados por sobrancelhas anormalmente grossas já cinzentas devido à idade. Sua imagem e postura lembravam a de um terrível feiticeiro, Mina quando criança fora sua vizinha, tremia nas bases sempre que o via, era uma figura que inspirava medo. Hoje, ela podia considerá-lo um bom amigo, embora Velho Bill pensasse o contrário.

— Você é uma distração pro rapaz — cuspiu ele, ríspido — eu devia contratá-la no lugar dele, Sebastian é um inútil de qualquer maneira, mas aí seria ele quem viria aqui encher a paciência todos os dias — ele gargalhou, roufenho, e tossiu duas vezes — só que ele eu posso colocar pra correr daqui com um chute ou dois, você não. Você é uma dama.

Mina agora olhava fixamente para além da vidraça frontal da loja, quase completamente coberta de cartazes, propagandas e adesivos, encarava sonhadora às costas do rapaz de uniforme apoiado na velha bomba de gasolina, batendo a poeira dos sapatos. A garota suspirou alto e rolou os olhos nas órbitas, balançando a cabeça em negação, numa tentativa vã e infeliz de disfarçar a melancolia evidente em seu olhar.

— Eu duvido muito que viria, Seu Bill — a garota soltou uma risadinha xoxa e empinou o queixo para o alto, seus olhos rolaram em direção a um Velho Bill silencioso e taciturno, de braços cruzados, ele captara a mensagem por trás daqueles olhos caídos e do sorriso amarelado, dentes ocultados por lábios repuxados à força sobre a face, esticando a pele de uma ponta a outra. Havia dor ali, e a pouca idade de Wilhelmina não havia a ensinado a disfarçá-la da maneira correta… ainda. Sua casca não era grossa o suficiente, era perceptível em seu semblante a crença pessoal de que ela estava apta a lidar com aquela situação de maneira madura, iludindo a si mesma, o sofrimento multiplicava como baratas numa caixa de gordura, se alimentando da sujeira.

Com um olho ainda fechado, o Velho Bill rosnou:

— Está alimentando sentimentos perigosos aí dentro, menina.

Apercebendo-se numa total ausência de quaisquer barreiras que a protegessem ante a perícia minuciosa do enorme olho de jade julgador voltado para ela, a cabeça de Mina virou-se rapidamente em escape, numa fuga momentânea para longe do farol verde que a expunha, para além da vidraça empoeirada coberta de propagandas de cerveja e adesivos desbotados. Seu consciente preferia encarar o rapaz ao longe, se aproximando em câmera lenta a passos largos, do que flanquear o inconsciente nesta batalha face a face contra o inegável, uma realidade que desta vez se manifestara sob a forma de uma velha árvore antropomorfa, endurecida e enrugada pelo tempo gasto atrás do alto balcão de madeira da loja, batendo seus dedos grossos e cascudos na monstruosidade de metal denominada como a grande e velha caixa registradora do ex-Posto Nove, atual Drogaria Nove.

— Não tem nada de anormal naquilo — disse Sebastian, empurrando a porta com o ombro enquanto esfregava as bolas doloridas — é só um tatu morto, eu te disse, você está lendo demais.

— Ainda esse assunto? — Mina rolou os olhos para o alto e cruzou os braços — que seja, é um tatu, tanto faz, mas pra mim ainda parece uma coisa muito estranha.

— Aquilo não é um tatu — a voz rouca do Velho Bill cortou o espaço entre os jovens, ele estava recostado à parede, de olhos fechados novamente, o abrir e fechar da sua boca repuxada e desdentada ecoava palavras sem produzir um único movimento no restante do corpo, era como um esqueleto falante — eu já vi muitos tatus esmagados na vida, aquilo não é um tatu — ele pigarreou.

Os garotos se entreolharam num misto de surpresa e confusão. Sebastian fez uma careta.

— O senhor viu aquilo no asfalto, seu Bill? — era a voz de Mina.

— Eu vi quando o carro passou por cima daquilo, foi por volta de meio dia, o Sebastian estava checando aquele refrigerador imprestável no final do corredor quatro, aquele das bebidas, você sabe, eu estava lá fora fumando quando o pneu do carro passou por cima daquilo, eu vi aquilo vindo de longe, eu estava fumando quando ele foi esmagado.

Os garotos se entreolharam novamente, o modo como o Velho Bill contava aquilo era bisonho, recostado à parede, de queixo pra cima e olhos fechados, a voz roufenha e a música soando baixo para longe do rádio, repentinamente agourenta, distorcida pela distância e pelo terreno acidentado entre a loja e a torre de transmissão mais próxima tornaram o ambiente lúgubre de súbito. Mina ergueu o queixo em direção ao fundo do corredor do balcão. Eram quatro os corredores no total, longos e escuros, separados por três fileiras de altas estantes de metal, tão antigas quanto a caixa registradora enferrujando sobre o balcão, apinhadas de produtos empoeirados perfeitamente dispostos por sessão, cor e preço. O Velho Bill não gostava de bagunça, tanto quanto detestava gastos desnecessários, de modo que durante o dia os tubos de luzes fluorescentes pendurados no teto em seus suportes retangulares passavam desligados, o que tornava o interior da loja sombrio conforme a tarde avançava e o sol traçava seu caminho nos céus rumo ao oeste. Àquela altura, os fundos da loja estavam completamente cobertos pela penumbra, girar o pescoço para encará-los fora um reflexo, era automático, a escuridão lhe causava desconfiança, era atávico. Em verdade, lugares como aquele lhe causavam calafrios, mas ela estava ali pela companhia, e em duas horas ela e Sebastian subiriam no ônibus e voltariam para casa juntos e o Velho Bill assumiria o caixa pelo resto da noite como de costume, o que ela particularmente achava um absurdo. Se não haviam clientes de dia, o que diabos alguém faria por aquelas bandas à noite?

A gargalhada explosiva do Velho Bill empurrou Mina para longe dos seus devaneios, Sebastian pego de sobressalto apoiou-se numa grade de salgadinhos às suas costas e por pouco não a derrubou.

— Vocês são muito engraçados, muito engraçados, — ele grasnou batendo palmas com as mãos enormes — precisavam ver as caras… as caras que vocês fizeram!

Mina engoliu em seco com dificuldade, as pontas de seus ombros ossudos quase tapando as orelhas, Sebastian, que havia recolhido o queixo para dentro, àquela altura tinha o rosto e o pomo de adão perfeitamente alinhados. O atrito das quatro pernas do banco onde Velho Bill estivera sentado a tarde inteira contra o piso de granito da loja ressoou longo e agudo conforme ele o arrastava para trás com os pés sem levantar dali seus oitenta quilos de pele e osso. O velho então pôs-se de pé, ajeitou o boné e limpou a garganta.

— Eu vou tirar uma soneca enquanto tenho tempo, me chamem quando estiverem de saída, — disse, rumando à escuridão no final do corredor, onde uma cortina verde desbotada tampava a estreita entrada do anexo onde estavam o estoque e o freezer — e nada de ficarem de conversa fiada na frente dos clientes. Você, Ferguson — seu dedo ossudo esticou-se na direção do rapaz magricela que piscava os olhos incessantemente — já sabe.

Sebastian bateu continência.

— Pode deixar, seu Bill.

O Velho Bill fechou os olhos e lhes deu as costas, saíra arrastando os pés feito uma assombração agourenta em direção à porta dos fundos. Mina e Sebastian se entreolharam mais uma vez, de olhos esbugalhados, o sol lá fora se despedia lentamente, o mundo estava banhado de laranja, o zumbido alto do ar-condicionado parecia sobrepor-se à música baixa que emanava do radinho de mesa. Algo mais calmo havia tomado o lugar das canções agitadas de alguns minutos atrás, uma sonoridade contemplativa e letárgica composta por notas longas e graves agora pairavam sobre o ambiente, transmitida através das ondas de alta frequência de uma difusora distante.

— Como está o O’Breen? — Sebastian quebrou o silêncio com um sussurro.

— Ele está bem — Mina encarava o chão. Porque estavam sussurrando? Ela perguntou-se.

— Soube que vocês terminaram de novo.

Mina preservou seu silêncio. Sebastian passou por ela lentamente e deu a volta no balcão, arrastou o banco e sentou-se de frente para a caixa registradora, apoiando os cotovelos na madeira. Ela girou sobre o próprio eixo para encará-lo de frente, colando a barriga contra o balcão, sua respiração interrompeu-se por alguns segundos devido à proximidade. Sebastian Ferguson não era bonito, de maneira alguma, não havia nada de atraente ali. Era pálido, magro, corcunda, tinha o nariz adunco, orelhas de abano e cabelos escuros, cheios e compridos, penteados para trás quando na loja e soltos sobre o rosto quando no colégio. Exageradamente alto, sempre usava os mesmos jeans desbotados e a camiseta branca curta demais, de mangas dobradas, manchada em vários lugares diferentes, a mãe do rapaz, desquitada, não era lá muito boa com os afazeres domésticos, não se importava muito com o que quer que fosse, passava o dia inteiro no serviço, e em seu tempo extra, dormia o quanto podia. Era uma rotina cansativa como caixa de supermercado, aparentemente fazer bico de caixa era uma aspiração familiar, não havia muito o que se fazer naquelas condições, a cidade era pequena e o desenvolvimento só estava chegando. A fábrica de papel mudaria o rumo das coisas, eles diziam, geraria capacitação e empregos de imediato, eles diziam. Não estavam, de todo, enganados, mas aquilo não duraria por tanto tempo quanto esperado. A fuga daquela realidade, para Sebastian, traduzia-se sob forma dos compilados de noveletas e contos perturbadores de um escritor pouco conhecido, de modo que fora uma surpresa e tanto descobrir que também a namorada do seu melhor amigo dividia consigo tal admiração pelo que era oculto e inexplicável.

— Eu terminei de ler o terceiro volume, vou te devolver hoje, na volta — ela disse, apoiando o queixo sobre as mãos.

— Não mude de assunto — ele lhe apontou o dedo e semicerrou os olhos.

— Ah, Sebastian, eu não quero falar sobre isso, tudo bem?

— Eu só quero saber se você está lidando bem com tudo isso.

Mina bufou.

— Eu estou bem, você sabe que eu estou bem, eu sempre estou bem.

Sebastian deu de ombros.

— Bem, o O’Breen não está nada bem.

Mina fechou os olhos e balançou a cabeça em negação.

— Eu realmente não me importo, eu sinto muito, não posso fazer nada por ele.

— Você é fria, Mina — disse, puxando uma surrada revistinha de palavras cruzadas da gaveta à sua frente — acho que Deus não deu coração às mulheres.

Sebastian procurava pela caneta preta do Velho Bill quando a garota o puxou pelo braço por cima do balcão, agarrada ao seu pulso direito ela o guiou, sua mão espalmou-se entre os seios dela. O garoto esbugalhou os olhos e deu um grito.

— Está sentindo? — ela perguntou — é o meu coração, seu otário.

— Você colocou minha mão nos seus peitos! Sua pervertida!

Mina o esbofeteou. Ele levou as mãos ao rosto, atônito, a encarava boquiaberto como se estivesse frente a frente uma completa louca.

— Não seja um maricas. — Mina abaixou-se em frente ao balcão de súbito e emergiu logo em seguida com algo entre os dedos — aqui está a caneta. — estava vermelha feito um pimentão.

Ele sequer percebera a alteração na cor do seu rosto e a mudança na frequência dos batimentos cardíacos da garota.

— Acontece que eu estou indo embora — ela se apoiou sobre o balcão de novo — no final do verão.

— É? E pra onde você vai? — disse, sem erguer os olhos da revista, procurava agora pela página marcada na última tarde, estava quase completando-a, faltavam apenas quatro palavras, Mina havia descoberto mais da metade delas, era uma garota realmente muito esperta.

— Estou indo para a Itália, vou ser modelo.

Sebastian ergueu os olhos da revista e piscou várias vezes antes de soltar uma gargalhada. Mina se colocara visivelmente constrangida ante aquela situação, olhara em volta várias vezes mesmo sabendo que estavam completamente sozinhos naquele lugar.

— Você tá de brincadeira, né?

— Estou falando sério. Meus pais assinaram um contrato, minha mãe está indo comigo, eu tenho parentes lá, eu vou ser modelo.

Sebastian suspirou e rolou os olhos em direção ao teto, com um sorriso enorme no rosto.

— Ai, ai, Mina, você é uma piada — ele estalou a língua e voltou sua atenção para a revista novamente. Acabara de encontrar a página que deixara por fazer no dia anterior — eu já disse que te adoro hoje?

Arritmia cardíaca, o coração de Mina acelerou e desacelerou rapidamente naquele instante diminuto.

— Não diga besteiras — ela gaguejou.

— Anda, me ajude com essa palavra aqui, depois dessa faltam só mais três — disse, fazendo sinal para que ela desse a volta no balcão e se juntasse a ele — “crustáceo minúsculo”, oito letras… o que isso quer dizer? Camarãozinho não tem oito letras, nem caranguejinho.

Mina respirou fundo e caminhou lentamente em direção ao garoto. Não precisou pensar muito, havia visto aquilo no semestre anterior.

— Copépodes, Sebastian, chamam-se copépodes.

17:00

O som dos cascalhos estalando lá fora sob a pressão e movimentação de algo pesado que se arrastava do asfalto em direção à loja atraiu a atenção de Sebastian. Ele foi o primeiro a erguer os olhos para além das vidraças, surpreso, cheio de suspeitas, tentando enxergar o que se movia por trás dos cartazes e adesivos desbotados. Mina havia tomado a caneta das mãos do rapaz pouco tempo atrás e assumido a responsabilidade de completar o último grande desafio da revista, que consistia num caça-palavras terrível como o labirinto de Creta, repleto de truques e armadilhas preparados especialmente por um editor maldito para olhos pouco treinados como os de Sebastian, havia até mesmo uma caricatura do próprio Minotauro no canto da página, emoldurado pelas linhas, escapando para fora do quadro onde as letras se misturavam em sílabas aleatórias sem padrão algum.

— Essa é nova — Mina arqueou as sobrancelhas e piscou várias vezes enquanto circulava a palavra “abissal” no papel manchado. Sebastian não soube dizer se ela se referia ao que havia encontrado no quebra-cabeças ou ao que se desenrolava ali, diante dos dois, naquele momento, levando em conta o longo tempo que ela levara, absorta que estava no desafio, para erguer o rosto e situar-se numa cena peculiar como nenhuma outra.

— Clientes. De carro. — ela sussurrou. Uma nuvem de poeira amarela havia se erguido do chão e coberto toda a visão do exterior da loja devido ao atrito dos pneus do automóvel contra o chão. O som do motor, entretanto, era claro. Mina e Sebastian se entreolharam, alguém estava falando em japonês, o rapaz franziu o cenho e semicerrou os olhos em direção à poeira novamente, que àquela altura baixava devido ao vento forte e seco que começara a soprar no final da tarde.

A mulher foi a primeira a entrar, acompanhada da nuvem densa de poeira amarela, era minúscula e, curiosamente, usava um uniforme de colegial. O comprimento da sua saia ia abaixo dos joelhos, as mangas da blusa três quartos de botão estavam dobradas, o laço vermelho amarrado frouxo à sua gola parecia puído no entanto. Seus cabelos escuros, cheios e escorridos brilhavam à luz dos últimos raios de sol, era tão magra quanto Mina, porém tão pequena comparada à ela que poderia ser confundida com uma criança ao seu lado, no entanto sua expressão facial carregava a esperteza de uma raposa, os anos estavam em seu olhar, a idade estava impressa na maneira como o brilho apagado das suas írises escuras perscrutavam o interior poeirento da loja, era muito mais velha do que aparentava.

— Boa tarde — ela disse, seu sotaque carregado — onde ficam os freezers? — as portas de empurrar fecharam-se às suas costas, encerrando o que sobrara da poeira do lado de fora. Mina havia prendido a respiração, estava ficando roxa.

Sebastian piscou várias vezes antes de respondê-la.

— Está procurando bebidas? — disse por fim.

— Refrigerante.

— Último corredor à sua direita — disse Mina rapidamente num fôlego só. Sebastian encarou-a rapidamente, impressionado, ainda piscando sem parar.

— Obrigada — a mulher deixou-os, saltitando, em direção ao caminho indicado por Mina, cujo braço continuava estendido naquela mesma direção. Sebastian tocou-o de leve e abaixou-o lentamente.

— Essa é nova — ela sussurrou outra vez.

— Clientes, cara — disse Sebastian, tão baixo e inaudível quanto um pensamento.

— Quando a gente pensa que já viu de tudo…

O que aconteceu em seguida surpreendeu a ambos ainda mais: a poeira do lado de fora finalmente havia baixado, revelando a silhueta reluzente de um Chrysler, modelo de 1966, preto, brilhando como novo sob o sol alaranjado, um homem, também oriental, trajando uma jaqueta preta de couro, jeans apertados e camiseta branca, estava dando a volta na dianteira do carro vindo em direção a eles, olhando diretamente pra eles. Sebastian segurou o fôlego e Mina arquejou ante a heterocromia evidente naquele par de olhos, uma das suas írises era escura como a noite e a outra verde como o jade, exatamente como no Velho Bill. O homem parou diante das portas, passou os dedos nos cabelos cortados de corte militar e fez então uma entrada espalhafatosa, quase teatral. Mina e Sebastian se entreolharam desconfiados, compartilhando em silêncio a mesma sensação desconfortável de que o homem, por algum motivo, havia encarnado um personagem ao pisar no interior da loja, assumindo um ar descontraído e coloquial em contraste marcante à figura rija e polida que descera do carro e caminhara em direção a eles.

— Ele não estava olhando para a gente — pelo canto da boca, Mina silvava feito uma serpente — estava olhando para o próprio reflexo no vidro!

Sebastian fechou os olhos, soltou o ar e relaxou a postura, subitamente aliviado. Mina alternava o olhar entre ele e o homem que rapidamente se aproximava, ansiosa pelo que viria a seguir, havia marcado na memória cada detalhe daquele rosto quadrado. A cicatriz em forma de raio abaixo do olho esquerdo, os lábios cheios, carnudos e rosados, com um furo sutil entre eles a separá-los, o maxilar definido e afiado como se estivesse constantemente pressionando os dentes de cima contra os debaixo, num bruxismo perpétuo. As sobrancelhas grossas, os olhos quase fechados e a pele escura, bronzeada. Ele não era japonês como a garota, estava como algo para chinês ou filipino, e ainda assim, não muito distante da realidade dela, tinha os ombros largos e os quadris finos, peito largo marcado contra a camisa, Mina teve de checar aquilo mais duas ou três vezes até dar-se por satisfeita. Mãos grandes, unhas quadradas, era um homem grande apesar de não muito alto, aquele era o corpo de um nadador, sem sombra de dúvidas.

Ele debruçou-se sobre o balcão e cumprimentou-os suavemente com um rápido movimento do queixo, acompanhado de uma voz grave, que deslizara sensualmente para fora dos seus lábios cheios feito uma serpente.

— Tudo bem?

Mina e Sebastian se entreolharam novamente. Estavam fazendo aquilo com frequência naquele dia.

Ming Huo! O que você vai querer tomar? — era a voz estridente da garota, vinda do fundo da loja, abafada por quilos infindáveis de produtos de limpeza e higiene dispostos em prateleiras apertadas e apinhadas.

O homem ergueu uma sobrancelha e girou a cabeça lentamente em direção ao som agudo.

Ming Huo! — a garota gritou novamente.

— Uma cerveja — a alteração súbita no seu tom de voz fez com que Mina desse um pulinho para trás. Sebastian recolheu o queixo como de costume. — Do fundo do refrigerador, de preferência.

Está tudo quente, Ming Huo! — berrou a menina.

O olhar díspar do homem recaiu sobre Sebastian, o único no recinto usando o uniforme da loja. Mina deu um passo para o lado, tinha os braços recolhidos junto ao corpo, hipnotizada pela heterocromia do rapaz à sua frente, ela então reparara naquele momento que, como num espelho, era sua íris esquerda a qual ostentava o verde do jade salpicado de amarelo, o homem parado diante dela era o oposto do Velho Bill. Ela engoliu em seco.

— Esse freezer está dando problema — Sebastian gaguejou — não estamos conseguindo dar um jeito nele.

— Desculpe — Mina piou. Os olhos do homem estavam sobre ela agora. Um sorriso desenhou-se em seus lábios, revelando dentes perfeitamente brancos e alinhados, sua presa esquerda havia sido substituída por um dente de ouro, eles nunca haviam visto nada parecido, os olhos de Sebastian se esbugalharam, e com um movimento lento, o homem afastou-se do balcão, esticou a coluna e estendeu o braço em direção ao rosto de Wilhelmina.

A garota piscava sem parar, resistindo ao impulso de recolher-se, observando atenta ao movimento do dedo indicador em riste cada vez mais próximo do seu queixo. O toque que se seguiu foi macio, delicado, o homem cheirava muito bem, o aroma que exalava da sua pele bronzeada era amadeirado, sofisticado, algo que arremetia aos alpes, à neve, a um mundo completamente distinto de toda aquela poeira e estagnação acumulada em volta. Ele o movera para cima, subitamente, a ponta daquele dedo contornava delicadamente a linha fina do lábio inferior da jovem, de um lado para o outro, traçando o caminho curvo que ele era. Sebastian observava àquilo consternado, seus olhos iam do homem à Mina cheios de indignação, mas não havia coragem o suficiente para reprimi-lo pelo ato, ele estava de mãos atadas.

— Bela, muito bela — ele disse — qual sua idade?

— Dezessete.

Ming Huo! — a mulher diminuta guinchara nos fundos da loja.

— Paciência, Tsukuyomi! — gritara o homem em resposta sem desviar o rosto, num tom de voz desnecessariamente alto, assustando ao casal atrás do caixa novamente. Ele olhou de relance para Sebastian — seu namorado?

Mina negou com a cabeça veementemente.

— Sorte a minha.

Sebastian limpou a garganta.

— Ela é comprometida — disse. Sua voz saíra esganada, distorcida, quase um grasno.

Mina fez uma careta.

— Eu não sou comprometida.

Sebastian arregalou os olhos para ela e em seguida, para o homem à sua frente, que arqueou as sobrancelhas em resposta. Um período constrangedor de silêncio estendeu-se pelo que pareceu tempo demais, Sebastian exasperou-se numa busca pela réplica.

— Aquela menina…

— Tsukuyomi é minha irmã — o homem o interrompeu.

Ming Huo! Cacete! — a mulherzinha estava muito brava.

— Pegue então um suco qualquer, pelo amor de Deus! — ele gritou.

Qual sabor?

— Uva!

Mina respirou fundo.

— Bem, garota, como você se chama? — ele havia se debruçado sobre o balcão novamente, seu rosto agora estava perigosamente próximo, seu hálito mentolado envolvera Mina e Sebastian numa atmosfera à parte.

— Wilhelmina.

O homem sorriu de orelha a orelha e estendeu-lhe a mão.

— Meu nome é muito complicado, então pode chamar do que quiser. Do que você quer me chamar?

Mina esticou a mão em direção à dele timidamente.

— Eu não…

O nome dele Ming Huo, esse cretino! — o berro agudo da mulher minúscula nos fundos da loja encheu o ambiente novamente.

— Calada, Tsukuyomi! — por cima do ombro ele gritara em resposta, perdigotos voaram de encontro ao couro da jaqueta preta. — E então? — disse, voltando-se para Mina novamente, passando a língua sobre os lábios, limpando a saliva.

A garota engoliu em seco.

— Max? — o nome soara abafado, meio que para dentro, um som quase que engolido.

O sorriso branco e dourado do homem manifestou-se radiante novamente.

— É um belo nome, garota. Você tem bom gosto — ele fechara os dedos da mão enorme em torno da dela, uma mão fria e macia como o seu toque, o coração de Mina estava à mil. O olhar dele estava agora sobre algo no balcão, algo que estivera ali próximo o tempo inteiro, mas que passara completamente despercebido até então, ele afastou-se e tomou o objeto nas mãos, virando-o de um lado para o outro, analisando-o intrigado.

— Gosta de J.J. Goering, então? — perguntou enquanto folheava o terceiro volume de Visões Noturnas & Outros Contos. Os olhos de Mina encheram-se de um brilho fugaz, Sebastian arquejou em resposta, ele simplesmente não acreditava no que estava acontecendo. O homem olhou para ela e sorriu com doçura — nem precisa responder, seu olhar já me disse tudo.

Mina sorrira, sua postura havia relaxado, toda a tensão havia deixado os seus ombros, seus braços estavam longe do corpo agora, ela também se debruçara sobre o balcão em resposta, queria sentir mais daquele perfume, queria ouvir do que aquele estranho sedutor tinha dizer.

— Eu particularmente acho o primeiro volume dessa coletânea muito mais sombrio que os dois últimos — disse, entregando o livro nas mãos da garota.

Mina voltou-se para Sebastian de peito inflado e queixo pro alto.

— Viu, eu te disse, não disse?! — exclamou triunfante.

Sebastian se resignara, seu cotovelo esquerdo estava apoiado sobre o balcão, seu punho fechado pressionado contra a bochecha sustentava a cabeça tombada de lado, havia desistido completamente, se limitara a rolar os olhos para o alto e chacoalhar a cabeça cheia de cabelos escuros.

— Eu penso da mesma forma — disse Mina — achei o último volume particularmente melancólico, triste, principalmente por conta do final daquele cara, o…

— Joe Chapman — o homem cruzou os braços.

— Sim! Ele mesmo!

— Aquilo foi bem triste — disse.

— Exatamente… é difícil saciar a fome da sua mulher quando ela é uma criatura de oito braços vivendo num sótão.

— Sabe o que eu acho? — Ming Huo escorou-se no balcão novamente — que a coisa no sótão nunca existiu. Não havia nenhuma Olívia, nunca houve nenhuma esposa, acho que o cara era maluco.

Mina puxo o ar e abriu a boca, impugnada.

— Como pode dizer isso? — disse — está sugerindo que ele se suicidou no final? Mas não acharam corpo algum na casa!

— Muito menos criatura — o homem deu de ombros.

Após um instante de duro raciocínio, Mina assentiu, meio que a contragosto, estava hipnotizada novamente pela heterocromia do rapaz, o que a impedia de contestar adequadamente aquela teoria num debate racional sem correr o risco de perder-se naquele olhar assimétrico.

— Eu conheço uma pessoa que também tem um olho de cada cor, acredita? — lançou à mesa de súbito.

O homem arqueou as sobrancelhas e sorriu. Nesse meio-tempo, Tsukuyomi havia surgido dos fundos carregando duas garrafas retornáveis nos braços, ela era realmente muito pequena, tão pequena que as garrafas pareciam grandes comparadas à ela, que se prostrara séria ao lado o irmão e passara então a encarar Sebastian incisivamente. Este, por sua vez, sacudiu a cabeça mais uma vez e limitou-se a ignorá-la.

— É mesmo? Que coincidência — disse, colocando um braço às costas. Tsukuyomi limpou a garganta e olhou para o alto, de braços cruzados, como se estivesse a esperar por algo dele. O Max de Mina olhou para a mulher minúscula ao seu lado e piscou lentamente antes de puxar, num átimo, o revólver que trouxera guardado na cintura, sob a jaqueta, por todo aquele tempo.

— Me desculpe, gracinha — ele disse, dando de ombros, enquanto engatilhava a arma e esticava o braço em direção à testa da garota — ossos do ofício.

18:00

Sebastian congelara no lugar, ereto feito uma tábua e pálido feito uma vela. Mina levara segundos que pareceram décadas absorta numa tentativa infrutífera de entender o rumo da conversa que havia levado a ambos àquela situação, no mínimo, atípica. O cano prateado à sua frente reluzia. Lá fora, os últimos raios de sol lambiam com avidez ao capô do Chrysler preto e a bomba de gasolina enferrujada, algo não estava certo, e isto não se tratava de quaisquer coisas relacionadas ao minúsculo oco escuro e redondo da abertura no cano da arma a poucos centímetros de distância do seu rosto. Apesar de encontrar-se sentada exatamente no olho do furacão, centrada no eixo de uma situação, no mínimo, frustrante, para não adjetivar um risco de morte da pior maneira possível, seu olhar simplesmente não conseguia desviar-se do exterior da loja.

Ela tremia, estava obviamente nervosa, seus lábios estavam repuxados e seus dentes estavam à mostra, todo o sangue havia fugido do seu rosto, o gelo subia pela sua espinha, naquele momento havia só ela e a arma apontada para a sua cabeça e ninguém mais. No entanto, a causa daquelas sensações adversas em seu corpo não se resumia ao revólver frio que agora tocava a pele suada da sua testa sem que ela sequer houvesse percebido movimento, mas também o fato de que a luz lá fora estava escapando muito rápido, a escuridão avançava na velocidade de um trem, o sol aparentemente estava sendo engolido pela maior boca que já existira, os velhos arbustos se transformaram em vultos e a bomba de gasolina, com todo o seu ferrugem e a sua tinta descascada se transformaram numa sombra muito rapidamente.

Ela respirou fundo e colocou as mãos para o alto, seus olhos iam do exterior para o rosto sorridente de Ming Huo muito lentamente, Tsukuyomi, que agora ostentava um enorme sorriso, estava dando a volta no balcão em direção a um estático Sebastian que fitava a garota de uniforme naquele momento como à coisa mais horrível e minúscula que já se aproximara dele em toda a sua existência. Foi quando as luzes fluorescentes penduradas no teto da loja começaram a acender-se uma a uma, dos fundos para a fronte, soltando os estalos característicos dos tubos grossos e brancos dentro de suas caixas de metal dependuradas acima das suas cabeças, revelando da escuridão a silhueta dura e recurvada de um Velho Bill envergando a cara mais feia e deformada que Mina já o vira ostentar naquele rosto na vida. Seus dois olhos agora bem abertos, enormes como os de uma coruja, emoldurados pelas sobrancelhas cheias e cinzentas como as de um velho lobo, fulminavam ao rapaz, ele tinha o cocuruto da mulher minúscula à sua frente na mira de uma longa espingarda de cano duplo, o grande punho de madeira apoiado contra seu peito era tão carcomido quanto seus dedos nodosos, de unhas longas e amareladas.

— Eu vou te dar três segundos — sibilou o velho — pra colocar essa arma no balcão e dar o fora da minha loja… isso, é claro, se não quiser sair daqui coberto com os miolos desse pigmeu de peruca aqui.

Tsukuyomi, boquiaberta, arregalou os olhos para o velho e o fulminou, profundamente ofendida.

— Parece que temos um impasse aqui — disse Ming Huo, aparentando extrema tranquilidade.

Mina sussurrava algo inaudível ao fundo da conversa, no entanto a tensão entre os quatro corpos remanescentes no sistema era grande o suficiente para tornar impossível quaisquer transferências de foco momentâneas, por mais urgentes que fossem. O ar parecia carregado de eletricidade. Ming Huo estalou o gatilho, o Velho Bill cutucou a cabeça de uma emburrada Tsukuyomi bruscamente com o cano da espingarda.

— Você não é mais rápido com esse revólver que eu, moleque, pode apostar.

Os olhos de Sebastian, que iam da espingarda ao revólver muito rapidamente, coincidentemente, recaíram sobre o rosto liso e pálido de uma silenciosa Wilhelmina que clamava por atenção sem mover-se o suficiente para consegui-la, haviam dois fatores cruciais para isto, dois medos incutidos em seu olhar naquele momento, ela gesticulava com o queixo e os olhos e também as pontas dos dedos para fora da loja, mas ninguém ali presente estava interessado no que quer que estivesse acontecendo no breu repentino que havia acometido subitamente o além da vitrine. Sebastian exasperou-se no momento em que percebera para o que ela apontava em silêncio. A menos de um metro de distância, de pé atrás da vidraça, encarando à cena sórdida que se desenrolava no interior na loja, com seu olhar vítreo, prostrada imóvel no escuro como uma aparição, estava a figura agourenta de uma garota. Banhada pela fraca cortina de luz fluorescente azulada, que atravessava cálida por entre os cartazes e adesivos da fachada de vidro, sua silhueta imóvel, pouco mais baixa que Mina, lembrava um manequim esquecido no deserto. Sebastian só teve certeza de que ela estava viva quando seu olhar e o dela se encontraram.

Havia hesitação nele.

Um nó formou-se em sua garganta. Um sentimento muito mais antigo que ele tomou conta de si por completo. De onde ele a conhecia? Ela não existia. Não havia garota parecida com aquela em qualquer lugar que ele já houvesse visitado, a própria descrição daquela figura parecia saída de um sonho — ou pesadelo, em função dos pontos de vista — , fato é que ela era sobrenaturalmente branca, algo em sua pele fazia parecer que ela havia sido pintada dos pés à cabeça naquela cor. Seus cabelos prateados divididos no meio da cabeça caíam em cascatas como a luz do luar sobre seus ombros, e insatisfeitos, escorriam até a cintura. Tinha o rosto longo e muito fino, olhos muito grandes e claros, cinzentos, ela era dantesca e ainda assim, bela ao seu modo, coberta pelo tecido leve de um vestido branco de alças finas que lhe cobria o corpo até os joelhos. Estava descalça, seus pés estavam imundos, sujos de um lodo preto ainda fresco e brilhante, o que era estranho, tendo em vista que o rio estava a quilômetros dali. Aquele lodo deveria estar seco, suas sobrancelhas e seus cílios não deveriam ser prateados como os seus cabelos, ela não deveria estar ali, e ainda assim, ela estava quando a loja sacudiu de uma ponta à outra derrubando duas das estantes de alimentícios com um estrondo cataclísmico, espalhando cereal, biscoitos e enlatados em todas as direções.

Uma das lâmpadas no teto desprendeu-se e foi de encontro ao chão, explodindo e enchendo o ar em volta de fumaça branca espessa e faíscas vermelhas e alaranjadas. Wilhelmina levou a mão ao rosto de imediato, numa tentativa desesperada de evitar a inalação do vapor de mercúrio, o chão sob os seus pés subia e descia, ela agachou-se lentamente e escorregou para debaixo do balcão. No instante seguinte, Sebastian saltou sobre Tsukuyomi e levou-a ao chão, imobilizando-a em meio ao caos, o Velho Bill aproveitando a deixa, muito habilmente, sapecou-lhe o punho da espingarda com toda a força no cocuruto de Ming Huo, que houvera vacilado muito rapidamente ante o tremor de terra inesperado e desviado os olhos da refém. Os eventos não ocorreram necessariamente nesta ordem, entretanto, ao se darem conta, a roda da fortuna súbita a qual aqueles cinco indivíduos haviam sido submetidos havia girado pela primeira vez, o revólver de Ming Huo girou no ar duas vezes e então deslizou pelo chão rumo ao espaço vago entre os freezers horizontais e o piso. As luzes continuaram piscando durante um tempo, o Velho Bill viu o momento em que a garota prateada entrou pela porta da loja a passos largos, olhando para trás, por cima dos ombros, preocupada. “Eles estão vindo”, ela disse, “arrume álcool e fósforos”, ela disse após um curto intervalo.

Ming Huo jazia desacordado no chão. Sebastian estava sentado sobre a mulher minúscula que se debateu e urrou de ódio por pouco tempo; o gorgolejar de sons agudos e ululantes deslizando para fora da escuridão atrás da garota indigente parada diante dele, cada vez mais próximos, fez com que Tsukuyomi se calasse para ouvi-los melhor. Ela era o tipo de mulher que conhecia muito bem os sinais da iminência do perigo, e aqueles sons eram um alerta claro para que ela fizesse silêncio absoluto. Sebastian tremia feito vara verde, pingando suor da testa. O Velho Bill semicerrou os olhos em direção à garota prateada antes de alinhar lentamente o cano da espingarda com aquele olhar cinzento feito um dia de inverno.

— O que você quer? — ele foi direto.

— Você não me interessa — disse a garota, sua voz era grossa, rouca como a de alguém que gritara demais durante horas a fio — a vida das crianças deve ser preservada.

— Crianças? — gaguejou Sebastian. Ele ainda não havia girado para encará-la, estava muito ocupado, de costas para a rua, sentado sobre as costas de uma Tsukuyomi preocupantemente silenciosa.

— Não seja tolo, Sebastian Ferguson, nos encontramos outras vezes, eu falei daquelas que ainda estão por vir. Mais de uma vez.

Wilhelmina acompanhava atenta ao diálogo, as mãos ainda sobre o rosto, sem mover um músculo.

— Ah — arquejou Sebastian, repentinamente sem ar algum nos pulmões. A garota estivera lá o tempo inteiro, ele a havia visto a vida inteira pelo canto do olho, observando à distância, e em seus sonhos ela também estava presente, entre os caules brancos de árvores altas e frondosas, caules finos milimetricamente separados, aglomerados em quilômetros infinitos de colinas. Ele deveria ter lembrado dela no minuto em que a vira, como poderia tê-la esquecido? Ele sempre esquecia dela quando estava na presença de outras pessoas, sua figura albina passava a não-existência total no momento em que ele e seus iguais interagiam, qualquer contato humano varria sua memória para longe, fazia com que as lembranças dela e de suas palavras sem sentido evaporassem de seu cérebro feito água sobre o asfalto quente. A sensação que o acometera no momento em que seus olhos repousaram sobre ela, parada do outro lado das portas de vidro, era exatamente a que ele carregara consigo a vida toda, a de que estava se esquecendo, a todo momento, de algo extremamente importante que aprendera poucos segundos atrás, numa espécie de dejà vu inverso, a manifestação sufocante de um sentimento fantasma, de que algo importante estava faltando, algo que estivera ali e de repente já não estava. Seriam as chaves de casa? Seriam seus cigarros? Seu isqueiro estava em seu bolso. Era ela. Ela era a origem daquela sensação de vazio momentâneo que o perseguia após um breve período sozinho, distante da presença de outros seres humanos, era quando ela se manifestava.

— É você. — ele disse.

Ela respirou fundo.

— Traga álcool, William — ela disse, dando um passo em direção ao Velho Bill — eles estão vindo. — um grito rasgou a noite lá fora, todas as cabeças giraram em direção à porta. Wilhelmina encolheu-se em seu esconderijo — Há de ser uma longa noite.

20:30

O odor da fumaça perfurou o olfato de Ming Huo sutilmente, puxando-o para fora de um abismo escuro e letárgico, todo o seu corpo pesava, o som distante da madeira estralando ao sabor de chamas invisíveis servia de guincho para uma consciência que custosamente se arrastava até a realidade novamente. Estava agora desperto o suficiente para notar os pulsos amarrados fortemente às suas costas, e Tsukuyomi deitada em posição fetal, séria, no chão à esquerda, os pulsos também amarrados, espremidos junto ao peito, os pés presos por uma corda grossa da mesma maneira que os seus. Ambos haviam sido arrastados para os fundos da loja e sido postos de costas para os enormes freezers verticais, reservados às bebidas e aos alimentos instantâneos, Wilhelmina estava agachada ao lado dos dois, fitando-os em silêncio, havia sido posta de vigia, quase duas horas haviam se passado desde que Ming Huo fora ao chão e coisas estranhas começaram a acontecer.

A garota indigente de cabelos prateados que adentrara a loja após o tremor de terra súbito que revertera a posição do casal de assaltantes orientara ao Velho Bill e a Sebastian que construíssem uma barricada com caixotes de madeira no exterior da loja e ateassem fogo à ela com urgência. Segundo ela, “eles temiam ao fogo mais que qualquer outra coisa, pois vivem na escuridão do abismo onde não há luz”. O que eles eram? Wilhelmina não sabia, e também não fazia questão alguma de descobrir. Todos aqueles assobios e gorgolejos distantes, cantos melancólicos produzidos por gargantas misteriosas no escuro daquela noite anormal chegavam a ela acompanhados de calafrios constantes, sons agudos, outrora graves, arrastados, longos ou breves, gritos ou pios como os de grandes corujas, numa constante cacofonia ecoando breu adentro.

— É como o fundo do mar — sussurrou Tsukuyomi — você não acha?

A vista embaçada de Ming Huo tentou focá-la e em seguida, à Mina. Ambas se tornavam borrões com muita facilidade, era preciso que ele fechasse e abrisse os olhos novamente para conseguir mantê-las discernidas.

— Tem razão.

— É como nos documentários sobre baleias e golfinhos na TV, ouça.

Fez-se silêncio. Tudo estava muito quieto. Não se via ou ouvia Sebastian ou o Velho Bill em canto algum, nenhum vento soprava e ainda assim, o cheiro da madeira queimando lá fora era forte no interior da loja, as luzes agora enfraquecidas ainda piscavam vez ou outra, balançando do teto em seus suportes. Em meio à cacofonia distante, um uivo longo e melancólico cortou o ar, grave e arrastado, transformando-se progressivamente numa sequência de cliques e estalos guturais muito próximos, os pelos nos braços de Wilhelmina eriçaram-se.

— Lembra uma baleia jubarte — disse Tsukuyomi.

— É como um choro — Mina abraçou-se aos joelhos sacudindo a cabeça — de uma alma solitária.

— Acha que estamos no inferno? — Tsukuyomi sentou-se e arrastou-se em direção à ela, seus cabelos escuros completamente desgrenhados, os olhos apertados sempre muito atentos.

— Não diga bobagens. — Mina vociferou, deslizando seu corpo para longe com um impulso, apoiou as costas numa das estantes que ainda restavam de pé.

— Seja lá o que for — era a voz grave de Ming Huo — essa porra é grande pra caralho.

Tsukuyomi deitou-se sobre as costas e, usando os dois pés atados um ao outro, chutou o irmão nos joelhos.

— Boca suja!

Ming Huo estalou a língua e jogou o pescoço para trás.

— Aquele velho vai apanhar tanto quando eu conseguir sair daqui. Ele apertou muito bem os nós dessa corda. — ele forçou os pulsos para fora, esfregando-os e girando-os violentamente dentro do laço da corda — Sorte a dele. Vai ganhar tempo.

— Fui eu quem apertou os nós.

Sua cabeça virou rapidamente em direção à Mina. Ele ergueu as sobrancelhas e piscou várias vezes, ainda desnorteado pela pancada.

— Você?

Os olhos de Mina quase deram a volta completa nas órbitas, ela cruzou os braços.

— Estão com sede? Com fome? — ela encarava ao teto, impaciente, não queria estar ali, não saber o que estava acontecendo na fronte da loja a deixava aflita, todo aquele silêncio tornava a situação ainda mais difícil. Se alguém ali sabia o que estava acontecendo, era a garota prateada, a qual Sebastian estivera orbitando feito a Lua ao redor da Terra desde que ela entrara pela porta. Ela, no entanto, não se comunicava com outra pessoa que não fosse ele, o que dificultava ainda mais o quadro clínico geral da coisa, Wilhelmina estava a ponto de explodir, tudo o que mais queria naquele momento era que seus pais dessem por falta dela e chamassem a polícia, o exército ou a aeronáutica, aparecessem milagrosamente no interior de um helicóptero pilotado por um experiente soldado da força aérea e sua equipe, que os resgatariam e manteriam aquelas coisas barulhentas, o que quer que fossem, longe dela. Era possível que aquilo só estivesse acontecendo ali? E se o mundo inteiro houvesse sido acometido por aquela noite perpétua, embebido numa escuridão quase sólida habitada por sabe-se lá o quê? Quem iria salvá-los?

— Eu quero água — disse Ming Huo — minha boca está seca.

Mina pôs-se de pé num salto.

— Você gosta do magricela, não é? — a voz de Tsukuyomi atingiu-a como um raio, mais pela constatação tanto quanto óbvia sendo verbalizada por uma completa estranha do que pela súbita maneira pela qual viera à tona.

Nonsense — exclamou Mina, abrindo a porta do freezer mais próximo. O vapor de condensação envolveu-a num abraço lento enquanto ela buscava pela garrafa mais gelada, vasculhando seu interior, testando a temperatura das garrafas plásticas com os dedos.

— Desde que a guria estranha entrou por aquela porta ele esqueceu completamente da sua existência. E você ficou irritadiça. — fez Tsukuyomi arrastando-se em direção ao irmão — você gosta dele.

— Isso definitivamente não vem ao caso — disse, estendendo à ela uma garrafa. Os irmãos se entreolharam.

— A água é pra mim — disse Ming Huo.

— Estamos de mãos amarradas — Tsukuyomi completou.

— Você vai ter que me dar na boquinha — Ming Huo sorriu, ainda grogue, exibindo a presa dourada.

Wilhelmina disfarçou o sorriso com um bufar rápido, fechou a porta do freezer e sentou-se sobre os próprios joelhos diante dos dois.

— Vocês não são irmãos de verdade, são? — disse, girando a tampa da garrafa. Ela abriu-se com um estalido baixo.

— Não mude de assunto — fez Tsukuyomi.

— O que você quer eu diga definitivamente não vem ao caso — ela estendeu o braço em direção ao rosto de Ming Huo e verteu o gargalo da garrafa lentamente sobre os lábios grossos do rapaz, para que ele sorvesse o líquido sem que se afogasse.

— E como o fato de sermos ou não irmãos vem ao caso nesta situação?

— Vocês são malucos — ela disse, levando a garrafa agora em direção aos lábios da mulherzinha minúscula que a inquiria, sem importar-se se ela estava de fato com sede, numa tentativa de fazê-la calar-se ao menos por um segundo — se não fossem estúpidos de tentar assaltar uma loja no meio do nada, estariam a quilômetros de distância daqui a essa altura.

Ming Huo sacudiu a cabeça, encarando o chão, sua vista se reestabelecia muito devagar.

— Nós não somos irmãos — disse.

Mina puxou a garrafa para os próprios lábios então, os olhos bem abertos, sem deixar de fitá-los nem por um segundo, curiosa.

— Ele é meu ex namorado — disse Tsukuyomi, levando o olhar para longe, estava corando embaixo de todo aquele cabelo escuro e grosso feito a crina de um cavalo.

— E estão viajando juntos mesmo estando separados? — Mina estava surpresa.

— Nós não estamos “separados” — Ming Huo limpou a garganta.

— É complicado — disse a mulher, deitando a cabeça sobre as coxas do rapaz. — e também não convém — ela cruzou as mãos sobre o peito e fulminou-a com o olhar escuro — você devia dizer a ele como se sente.

— Sebastian é um imbecil.

— Não seja hipócrita.

Fez-se silêncio durante um tempo. Ming Huo encarava à Mina incisivamente, esta por sua vez fitava ao teto perdida em pensamentos, apertando e torcendo a garrafa de plástico muito lentamente, o líquido cristalino agitado em seu interior formando pequenas bolhas. Tsukuyomi havia fechado os olhos enquanto brincava com o laço puído em seu pescoço.

— Eu prefiro assim.

— O quê? — Tsukuyomi abriu os olhos

— Eu prefiro que as coisas continuem da forma que estão — disse Mina — hoje, quando Sebastian olha para mim, ele me enxerga como seu igual. Ele não me vê como mulher. Pra ele eu sou um dos caras com quem ele costuma sair pra beber e jogar conversa fora. Sempre foi assim. — ela suspirou, assumindo um ar sério e pragmático, seu próprio tom de voz tornou-se algo desnecessariamente formal — quando um homem passa a desejar uma mulher, seja sexual ou romanticamente, de alguma forma, ele passa a enxergá-la como inferior. Ela deixa de ser o seu igual, ela passa a ser uma “outra criatura”. Quase uma entidade. Ela passa a se tornar um mistério. As coisas ficam estranhas entre nós. É o que acontece quando crescemos e nos dividimos entre meninos e meninas. Passamos a ser estranhos uns aos outros. Eu não quero ser uma estranha para ele. Nunca. Não quero que ele me veja de outra forma.

— Garota… — Tsukuyomi a fitava boquiaberta — isso é profundo.

Fez-se mais silêncio, por um longo período dessa vez, e entre um gole e outro na garrafa de água, Mina disse, por fim:

— É a realidade.

Disparos explodiram nos ouvidos do trio aos fundos da loja, pegando a todos de sobressalto. Mina pôs-se de pé num pulo e atravessou a loja a passos largos rumo ao balcão, sob os protestos incessantes do falso casal de irmãos, saltando sobre as estantes caídas, escorregando sobre as bolinhas e rosquinhas de cereal, pulando sobre os extratos de tomate vencidos e esmagados por toda a parte, uma grande comoção provocava gritos e exclamações altas metros à sua frente, ela já conseguia ver os freezers horizontais quando algo tocou seu braço de leve e grudou-se a ele como uma fita adesiva. Ela berrou e lançou-se ao chão, puxando a coisa para fora e atirando-a longe, ela conseguira sentir sua textura asquerosa entre seus dedos durante os breves segundos em que ela o tocara. Era algo grosseiro como o couro de uma iguana, algo escamoso, sólido e gelado, a coisa estava se retorcendo a poucos centímetros de distância do seu rosto. E não se tratava da mesma, ela não levou sequer um átimo para notar que a fronte da loja inteira havia sido invadida por aqueles crustáceos grotescos, transparentes, achatados, do tamanho de chinelos, cheios de patas e antenas, brilhando coloridos feito minúsculos letreiros de neon, movendo-se tranquilamente através do ar feito plumas, subindo e descendo em espiral, descrevendo círculos e voltas em torno de si mesmos como se estivessem embaixo d’água.

Mina arrastou-se de barriga no chão para o mais longe que pode, houve mais disparos e então estilhaços de vidro voaram sobre ela, a garota prateada estava erguendo-a do chão e a puxando para longe das criaturas que entravam por um duto de ar aberto no teto, eles haviam arrebentado a grade, estavam entrando por cima, milhares deles. Alguns sequer carapaça tinham, não passavam de vermes desossados transparentes como fitas, dançando no ar morbidamente como seda. Do outro lado do balcão, atrás da caixa registradora, Sebastian lutava contra meia dúzia daquelas coisas grudadas em seu peito e braços. Os olhos de Mina deslizaram para cima, algo enorme estava entrando por ali, algo que lembrava vagamente um grande camarão alado, suas pseudo asas formadas por longos filamentos transparentes, leves como penas, brilhavam em vermelho e laranja. Um guincho muito próximo encheu a noite, o Velho Bill continuava mirando e acertando as coisas em cheio, explodindo-as em mil pedacinhos gelatinosos que voavam por toda a parte. Ele havia estourado a vidraça de uma das portas com um tiro, o fogo na barricada lá fora ardia forte, o que deixara Mina confusa em meio ao seu desespero.

— Você disse que eles tinham medo de luz! Você disse que eles tinham medo do fogo! — gritou ela à garota prateada agarrada ao seu braço.

— Esses são de outro tipo — disse a garota, aflita, os olhos enormes vasculhando o ambiente em busca de uma solução — vê como brilham? Eles produzem a própria luz, é assim que afastam os predadores menores.

— Menores, você disse?! — Sebastian havia se livrado dos seus algozes removendo a blusa de mangas compridas, saltando sobre o balcão em seguida para se juntar à elas no extremo posto da fronte da loja, atrás do último freezer horizontal.

— O brilho deles não intimida predadores maiores — ela completou, agourenta.

— Eles estão fugindo — Mina gemeu de pavor — estão fugindo de alguma coisa, por isso entraram aqui. Estão fugindo de alguma coisa.

O guincho distante tornou-se mais alto, mais próximo, a loja estava tremendo de novo.

— Precisamos ir para os fundos — disse a garota prateada, empurrando Mina e Sebastian em direção ao único corredor que não havia tombado durante o terremoto — Para os fundos, William! — berrou ela ao Velho Bill. Ele assentiu com o queixo, recarregou a arma uma última vez e desapareceu por entre os escombros das prateleiras. Mina foi a primeira a levantar-se para segui-lo, a garota prateada logo à frente.

— Um minuto! — Sebastian agachou-se, deitou sobre o próprio peito e enfiou o braço embaixo do freezer sob protestos violentos de Mina, que à força o içava para cima, apressando-o, puxando-o para longe dali pelos ombros. Uma série de estalos altos e ritmados fez-se ouvir, irrompendo alto e ominoso da escuridão por trás da barricada em chamas. As vidraças da fachada vibraram, algo havia derrubado a bomba de gasolina abandonada, eles estavam na metade do caminho em direção ao casal de reféns nos fundos quando o estrondo seguido do impacto os pegou de surpresa. Toda a frente da loja fora arrebentada por algo enorme, Mina fora lançada para cima da garota prateada com a força da explosão, ambas rolaram no chão uma sobre a outra entre caixas e embalagens plásticas espalhadas, Sebastian saltara a tempo de desviar-se do turbilhão que seguia o rumo, às suas costas, abrindo e fechando. Para o azar de Ming Huo, ele estava de pé, jamais deveria ter se desfeito do laço que o prendia pelos tornozelos e o mantinha no chão, abaixado, devidamente protegido do que estava por vir. A pinça colossal que destruíra a loja em busca de alimento encontrara nele sua presa. Tudo aconteceu muito rápido, seu grito se tornou cada vez mais distante conforme a garra de crustáceo recuava em direção ao corpo gigantesco que se retorcia do lado de fora da loja.

01:30

O armazém de estoque aos fundos da loja não passava de um cubículo. Separado do galpão da loja por uma pesada porta verde de ferro sempre aberta, naquela noite em específico, ela fora fechada. Selada por uma velha geladeira em desuso e uma pilha de caixas de latas de óleo pelo lado de dentro, o pequeno cômodo outrora ocupado exclusivamente pelo Velho Bill e suas quinquilharias agora contava com mais três outros corpos, ocupantes refugiados de uma noite de horrores intermináveis. Iluminada pela luz de uma única lâmpada amarelada, Tsukuyomi gemia baixinho, o rosto contra a parede, abraçada aos próprios joelhos, balançando-se para trás e para a frente, sua testa ia de encontro ao concreto ocasionalmente, produzindo um som abafado pela franja de cabelos grossos e escuros que a protegia.

— Ela começou com isso de novo, faça-a parar — resmungou o Velho Bill, de braços e pernas cruzados, sentado na borda de um colchão puído numa velha cama de solteiro, um móvel perdido, destoando completamente em meio às caixas do estoque da loja. Mina levantou-se de onde estava e, em dois passos, alcançou-a, curvando-se para frente, tocou levemente o ombro da mulher. Tsukuyomi gritou e arrastou-se para longe, derrubando uma pilha de caixas vazias no processo, de olhos vermelhos, ela tremia dos pés à cabeça.

Mina respirou fundo e virou-se em direção à garota prateada, parada imóvel ante à porta obstruída, como se fosse capaz de enxergar a loja destruída através dela.

— Quanto tempo mais você vai se manter em silêncio?

A garota permaneceu muda.

— Quem é você afinal? De onde você veio?

Mais silêncio. Mina olhou em volta, um pesado saco repleto de limões estava aberto aos seus pés, apoiado numa caixa de latas de sardinha. Ela alcançou-o, pegou um limão entre os dedos e fez menção de atirá-lo contra a garota, mas antes que ela pudesse lançá-lo, Sebastian segurou seu braço no ar, surgido de algum lugar próximo, ele estivera perdido por entre as caixas no escuro, ponderando em um isolamento repentino todo aquele tempo.

— Qual o seu problema? — Mina livrou-se do aperto em seu pulso muito habilmente e afastou-se — o que foi que ela te contou? Porque vocês não falam nada? Qual o problema de vocês?

— Mais seis horas e isso acaba — ele disse, seu rosto era uma máscara de apatia, seus olhos estavam mais fundos que o normal, bolsas cinzentas enormes haviam se formado abaixo das pálpebras inferiores. Surpresa e comovida pelo estado decadente do rapaz, Mina levou suas mãos ao rosto longo e magro de Sebastian num reflexo à sua súbita figura abatida.

— O que houve com você?

— São sete — era a voz cristalina da garota prateada — eles estão tentando pará-los a todo custo. Não podem. Nesse exato momento estão conspirando contra as crianças, elas precisam ser protegidas.

Mina sacudiu a cabeça, furiosa.

— Do que você está falando?! — esbravejou.

— Da sua criança, Wilhelmina, e da criança de Sebastian. Elas não podem ser impedidas. Eles estão construindo o lugar, eles têm tudo planejado, é para isso que a floresta existe, para protegê-los e isolá-los. Eles constroem palácios de concreto, lares falsos, habitações profanas, coisas horríveis acontecerão.

Mina voltou-se para Sebastian à sua frente, seus rostos muito próximos. Lentamente, o aroma doce do seu hálito úmido a embebedava, ela nunca o havia sentido tão próximo antes. O Velho Bill havia dormido sentado abraçado à espingarda, roncava alto, lutando para manter-se ereto, de guarda.

— Ela veio do futuro? — Mina perguntou à Sebastian, num sussurro quase inaudível.

— Não, ela veio de outro lugar — ele disse, sem emoção alguma — e depois que ela se for, não nos lembraremos de que ela esteve aqui, nem do que aconteceu.

Mina encarou o chão por um segundo.

— É um alívio — ela disse — eu jamais saberia explicar o que…

As vozes calaram-se: a porta de ferro havia estalado, algo a estava forçando pelo lado de fora, empenhado o suficiente para fazer com que as caixas sobre a geladeira em desuso balançassem e começassem a dar sinais de que viriam ao chão muito em breve. Sebastian correu para segurá-las, colocando todo o seu peso contra a obstrução improvisada. Uma sequência desesperada de batidas as estava sacudindo, seguidas pelo som grave de uma voz familiar.

— Me deixem entrar! Abram essa porcaria!

Tsukuyomi pôs-se de pé num salto, empurrando Mina bruscamente para o lado, alcançara a extremidade do cubículo num segundo, debruçando-se sobre a velha geladeira de braços abertos, iniciou um lamento alto e doloroso.

— Ming Huo! Ming Huo! — ela gemia feito uma carpideira — deixem ele entrar! Ele está vivo! Deixem ele entrar!

Chutando-a, Sebastian tentava fazê-la soltar o eletrodoméstico enferrujado, as caixas de papelão sobre ele vacilavam, balançando de um lado para o outro, desequilibradas, ameaçando lançarem-se sobre o trio. Mina juntou-se a ele em seus esforços numa tentativa de puxá-la para longe dali, mas ela estava completamente grudada, abraçada à geladeira, ela berrava fazendo força para movê-la de lugar, o que estava funcionando devido ao atrito constante de três corpos contra o enorme objeto. Foi quando as caixas despencaram uma a uma, atingindo primeiramente Sebastian e depois Mina, que urrou de dor ao ser atingida em cheio. Tsukuyomi saltara para trás pouco antes de ser esmagada pela maior de todas as caixas, havia latas de óleo rolando por todo o chão. A geladeira tombou logo em seguida, o Velho Bill conseguira salvar a vida de uma Mina desacordada antes que o pior acontecesse. Sebastian berrava, seu antebraço havia dado a volta completa, assumindo uma posição anatomicamente dolorosa. Ming Huo esmurrava a porta de ferro do outro lado enquanto gritava a plenos pulmões. O disparo alto da espingarda do Velho Bill reverberou entre as paredes apertadas ensurdecendo e desnorteando aqueles que permaneciam conscientes, seus projéteis haviam estourado parte do concreto do teto enchendo o ar de poeira, detritos despencavam de cima em flocos gordos, ele tinha Tsukuyomi na mira.

— Você não vai abrir essa porta nem fodendo, sua desgraçada. — disse, engatilhando a arma mais uma vez.

As dobradiças enferrujadas pelos anos de descuido, soltaram-se sonoramente, uma após a outra, atingindo o chão com um impacto metálico pesado, a porta estava por fim tombando sobre a geladeira, a sombra do outro lado estava escalando por cima dela.

— Atire! — ordenou a garota prateada.

O Velho Bill fechou as pálpebras sobre olho esverdeado e mirou.

— Não faça isso! Por favor eu imploro! — Tsukuyomi ajoelhou-se diante dele e abraçou-o pelos joelhos.

— Aquilo não mais é o seu namorado, sua imbecil, veja! — Sebastian usava o braço saudável para apontar o que estava empoleirado no topo da porta tombada, observando-os das sombras com os olhos saltados para fora das órbitas, completamente escuros e sem vida. O que fora seu rosto agora estava coberto de veias escuras saltadas sob o manto fino de uma pele pálida e úmida, quase transparente.

A coisa com a aparência de Ming Huo sorriu, e aquilo que à primeira vista pareceram suas veias moveram-se de maneira repugnante sob a pele como vermes escuros e gordos a serpentear na carne podre. Como numa serpente, sua mandíbula deslocou-se da maxila com um estalo, dividindo-se ao meio a partir do queixo, desabrochando feito uma flor grotesca. Sua língua inchada, onde minúsculas criaturinhas cheias de patas passeavam, dividiu-se em dois longos tentáculos, um gorgolejo baixo escapou do oco escuro que era a sua garganta. O rapto ocorreu muito depressa, no segundo seguinte as perninhas de Tsukuyomi estavam balançando no alto da fresta aberta com o tombo da porta, a criatura a havia arrebatado na velocidade em que um sapo captura uma mosca. O Velho Bill e a garota prateada sequer esperaram que ele a houvesse arrastado para fora por completo, começaram a erguer a porta no segundo seguinte, empilhando sobre ela absolutamente tudo o que havia de mais pesado naquele cômodo. A geladeira, uma estante de ferro, mais caixas e a própria cama figuraram numa pilha enorme de objetos que agora obstruíam a passagem por completo, sumindo com quaisquer resquícios de porta das suas vistas. Os gritos de Tsukuyomi se tornavam cada vez mais distantes.

06:00

— Você é estúpida — era a voz de Sebastian, uma corda lançada no âmago do fosso da inconsciência. Mina agarrou-se a ela e deixou-se içar. — você é burra. Quem te disse que eu te vejo como um cara? De onde você tirou isso?

— Você… me ouviu? — ela balbuciou, grogue, perdida num estágio entre o sono e o despertar.

— É claro que eu ouvi. Você não sabe falar baixo.

Mina sorriu para o escuro. A voz dele cada vez mais nítida.

— Você é a única garota que realmente vale a pena naquela cidade inteira.

— Você só está com medo de morrer, por isso está dizendo essas coisas absurdas. — ela abriu os olhos para um céu azulado, cálido, repleto de pequenas estrelas prateadas, distantes, piscando alegres no firmamento. O cheiro de queimado encheu suas narinas, a barricada de madeira esturricada estava próxima, mas não havia calor, as chamas já não mais ardiam. O dia estava raiando, enfim. Aliviada, ela respirou fundo, um peso deixara seu peito naquele momento.

— Já parou pra pensar que situações extremas forçam as pessoas a dizerem exatamente aquilo que elas pensam?

— Como quando se está bêbado. — ela disse, apoiando-se sobre os cotovelos para olhar em volta — como viemos parar aqui? — surpreendentemente, o mundo ao seu redor remanescia inalterado, nada havia mudado, tudo estava em seu devido lugar, exceto pela loja aos fundos da paisagem, esta se tornara o retrato perfeito da própria destruição. Quilômetros e quilômetros de colinas cinzentas e devastadas se estendiam até onde a vista alcançava. Mina apercebeu-se: estavam ambos à beira da estrada, sentados no chão poeirento, um Chrysler preto jazia capotado sobre o asfalto muito próximo, pura lataria velha, a sucata personificada, parecia ter sido mastigado violentamente por uma enorme boca.

— Eu te carreguei pra fora, algum carro deve passar a qualquer momento, aí vamos estar a salvo.

Ela olhou-o nos olhos. Estava vivo de novo, seu brilho havia voltado por completo, aquilo aqueceu-a por dentro. Com um par de panos de prato, ele havia improvisado uma tipoia para o braço quebrado, o que significava que ele literalmente a havia arrastado até ali com um braço só, isto explicava toda a terra e a sujeira grudada em seus cabelos e pele.

— E o Seu Bill?

— Ele não se mexe. Acho que morreu durante o sono.

Mina levou a mão à boca, horrorizada. Sebastian sorriu e soltou o ar com força pelo nariz.

— Está lá atrás, agarrado à espingarda, como se estivesse dormindo mesmo, você tinha que ver.

Mina sacudiu a cabeça.

— Eu passo, obrigada… — ela suspirou, chorosa — pobrezinho…

— Acho que ele está em paz agora… olhe. Veja. — Sebastian ergueu o braço saudável em direção ao horizonte. Os primeiros raios de sol pintavam de amarelo e laranja as poucas e esparsas nuvens por entre as quais uma sombra gigantesca flutuava preguiçosamente. Leve como o ar, a criatura tinha o corpo achatado, indiscerníveis extensões do disco que compunha o corpo, suas barbatanas largas batiam como asas ao sabor do vento, sua longa e fina cauda ondulava e espiralava tranquilamente, servindo de guia para um grupo de criaturas menores planando no seu rastro, longas como enguias, eram o seu cortejo. Àquela distância, o conjunto de animais lembrava um grande zepelim a arrastar uma dúzia de balões menores. Ouvido à luz do dia, seu canto sinistro já não soava tão ameaçador quanto noite passada. Longo e melancólico feito um uivo, ele ecoou, cheio de longos estalos e cliques, expandindo-se infinitamente no vazio do campo. Por um segundo, aquilo pareceu estar por toda a parte, tornou-se então o próprio ar, e envolvendo a Sebastian e Mina numa leve vibração, causou-lhes cócegas.

— Inacreditável — disse Mina — pra onde você acha que ela está indo?

— Ela? Como você sabe que é uma garota?

— Era bonita demais para ser macho.

Sebastian bufou.

— Deixa aquilo chegar perto pra você ver. Duvido que vai continuar achando bonito.

— Bonita — Mina protestou — era fêmea, tenho certeza.

— Não enche, Mina — com alguma dificuldade, Sebastian colocou-se de pé e, cambaleando, caminhou rumo ao asfalto, abanando pesadamente o braço no ar. Só então o som do motor alcançou-lhe os ouvidos, Mina girou a cabeça e olhou por sobre o ombro direito, um choque de dor percorreu-lhe o pescoço. A figura fantasmagórica de um par de faróis avançava sobre a rodovia em direção à eles, o carro se aproximava pelo oeste, vindo da cidade. Mina torceu em silêncio para que aqueles fossem seus pais, assumindo que haveria ali dentro mais de uma pessoa. Perguntou-se então, por um breve momento, qual seria o paradeiro da misteriosa garota de cabelos prateados, para no segundo seguinte, ser acometida pelo mais estranho dos lapsos de memória.

Night Visions & Haunting Fictions

Written by

yueh é uma escritora amapaense graduada em Jornalismo. yueh é também uma assombração.

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