extremos pueris

No último dia 18 de agosto, o Scalene lançou magnetite (SLAP), seu terceiro álbum de estúdio. Ao ouvir pela terceira (ou quarta) vez, percebi um rompimento com as convenções do BRock e identifiquei uma série de referências novas, líricas ou musicais, e resolvi dissertar um pouco sobre as doze novas faixas da banda.
Para que a analise não fique longa e massacrante, resolvi dividi-las faixa a faixa. Hoje, escrevo sobre extremos pueris.

extremo (adjetivo): mais afastado; remoto, longínquo. Também significa muito intenso ou máximo.
pueril (adjetivo — de dois géneros): relativo ou pertencente a criança. Que tem ideias ou atitudes imaturas.

Musicalmente, a primeira faixa do álbum é como um triângulo.

Em uma das bases do triângulo, guitarras sujas, baixos distorcidos e sintetizador somam com uma bateria agressiva; Na outra base, baixo groovado, bateria com acentuações pouco convencionais e duas guitarras (rítmica e melódica) com timbres únicos. E no topo do polígono, ritmos percussivos e ritualistas, algo que a banda já havia explorado em menor escala.

Os vocais, que dispensam apresentação, mostram versatilidade e muita técnica ao passear com tranquilidade entre voz de peito, falsete e voz de cabeça.

o chão bifurcou/ e o vento levou/ corações a gritar.

Com tema pós-moderno, nos seus primeiros versos, a faixa se afasta do nosso tempo presente com a descrição cinematográfica perfeita de um cenário distópico.

sem causar pra ter/ cegos, nem quisemos ver/ contra quem se voltar.

Nos três versos seguintes, o eu-lírico se reaproxima da nossa realidade, faz referência ao ditado popular “o pior é cego é aquele que não quer ver”, e mostra que nós não sabemos contra o que e/ou quem devemos lutar.

servimos a função/ que o poder mais quer/ a guerra de ideias e de paixão.

Na parte que mais se assemelha melodicamente a um refrão, o eu-lírico se coloca primeiramente na posição de artista, o responsável pelo circo em “panem et circenses”; Em seguida, retoma a ideia de luta, onde a mesma ultrapassa o limite das ideias, da discussão pelo ideal, e se transforma em paixão, em discussão pela emoção.

como prosseguir?/ comum irá surgir/ e turvar a visão.

A parte b começa com uma questão recorrente quando enfrentamos o desconhecido, que nesse caso, é o comum. Acostumado ao ambiente antiutópico, a zona de conforto acaba turvando a visão e impedindo de prosseguir.

a chave não está/ nos extremos pueris e seus focos hostis.

Nos dois últimos versos da parte b, o eu-lírico defende que, apesar de não se sentir à vontade na zona de conforto, a solução não está na dicotomia dos extremos pueris ou em seus objetivos agressivos.

este é um momento/ pra se celebrar/ os louros do caos da evolução.

A música volta a parte melódica que mais se parece com um refrão, mas com outra letra. Dessa vez, o eu-lírico destaca e comemora a importância da desordem pra gerar a evolução. Nisso vemos uma conexão com o início distópico da letra.

tudo que vai, vem.

A parte c destoa completamente da ideia melódica que a música propunha. A levada de post-rock dá lugar aos tambores, instrumentos que remetem a ritual, repetição. Letra e música se alinham e, nesse momento, ambas tratam do conceito de Modelo Cíclico, de Einstein. A teoria prevê um Universo eterno, onde em cada ciclo, a energia se renova e o Universo evolui.

vai chegar/ vai cobrar/ vai chegar, vai/ vai cobrar, vai.

Ainda no campo da física teórica, chegada e cobrança fazem referência a lei “para toda ação existe uma reação de força equivalente em sentido contrário”, ou seja, o karma.

Por tudo isso, extremos pueris parece ser a faixa correta para abrir um álbum com temas tão atuais quanto a evolução do universo e o mundo digital.