A Tartaruga Vermelha

Certa manhã, o animador e diretor Michael Dudok de Wit recebe um email do produtor Toshio Suzuki, do Studio Ghibli. Eles tem interesse em produzir o seu próximo filme. Alguns anos atrás, o exigente Hayao Miyazaki (não envolvido em A Tartaruga Vermelha) impressionou-se com o curta Father and Daughter e demonstrou interesse numa futura colaboração, utilizando como intermédio a produtora Wild Bunch. Esses são os eventos que precedem a produção francesa/japonesa A Tartaruga Vermelha. O diretor e co-fundador do Studio Ghibli, Isao Takahata, foi o responsável por ser o braço direito no filme de estreia de Michael, assumindo a produção artística. Sensível, Takahata certamente deixa sua marca, mesmo com a total liberdade estilística e criativa oferecida a Michael pelo renomado estúdio japonês.

O filme acompanha a vida de um náufrago numa ilha deserta que tenta alcançar a civilização construindo barcos improvisados, entretanto suas tentativas são impedidas por uma criatura desconhecida que destrói seu barco no mar a cada tentativa. Para evitar spoilers, devo apenas frisar que eventualmente o homem encontra uma mulher e o filme então caminha para as diversas fases de suas vidas na ilha, juntamente a seu filho.

A Tartaruga Vermelha visa fugir de uma narrativa comum e explora a linguagem visual, prova disso é sua ausência completa de diálogos. Visualmente estonteante, funciona como uma poesia visual marcando em lentos versos a singela mensagem do cineasta:

Em algum lugar da história o ser humano perdeu sua conexão com a natureza, e precisamos nos reconectar o quanto antes.

Natureza essa que não se limita as literais paisagens que vemos constantemente em cena, mas também a própria natureza humana, abordando questões sobre a solidão, vida e morte. Nesse contexto, o diretor aproveita para moldar delicadamente a obra num conto de fadas, onde a fantasia explora os limites de narrativa de forma que apenas uma animação consegue realizar no cinema.

O cineasta opta por não explorar profundamente questões de sobrevivência na ilha deserta, narrativa comum em muitas obras do gênero. Pelo contrário, o protagonista tem limitadas habilidades e não demonstra sucesso em suas aventuras, mas ao menos é hábil o suficiente para não morrer de fome. O foco está nos dilemas introspectivos de cada fase da vida, o ciclo de ápices e desmoronamentos.

E é isolando seus personagem da civilização que o autor obtêm consistência: ali, os humanos vivem em sua essência primitiva onde tudo é mais claro e questões como autoconhecimento, empatia, amor ao próximo e perdão são expostas de forma natural, como algo que já existe dentro da simplicidade dos personagens, que não precisam de mínimo esforço para colocar em prática.

Toda a história é contada por meio de cor, luz e sombra. Suas composições dizem tudo, como na sequência em que ocorrem as primeiras e graduais aproximações românticas do casal mostradas em planos abertos (frequentes em todo o filme), enfatizando a união do casal à natureza da ilha tropical. De dia as cores são leves e passam a sensação de conforto, enquanto a noite os tons de cinza glorificam a melancolia inquietante de seu personagem principal. Até mesmo a cor exótica da criatura que dá nome ao título do filme tem seus motivos específicos. Tecnicamente a animação apresenta uma fluidez e naturalidade fantástica, e unindo-se a trilha sonora e design de som, complementam todo o visual e conceito de natureza propostos pela narrativa.

O conceito é aberto a diferentes interpretações e a história exige algum pensamento profundo a respeito de seu simbolismo, mas quando o mesmo se esforça para ser sentido visualmente o espectador deve ceder e deixar a lógica um pouco de lado, buscando respostas em sua essência: as imagens que vê em tela e o que elas causam.