O amor que eu recebi ao sair do armário (e o que fazer com isso)

“Amor… Você ainda gostaria de mim se eu fosse um cara?”

Essa foi a primeira vez que eu falei, com a minha voz, sobre os sentimentos confusos que eu estava tendo quanto a gênero.

Até tinham sido vários artigos sobre teoria queer e outras visões sobre gênero, dezenas de vídeos no youtube sobre a experiência de se descobrir como pessoa trans, mensagens trocadas na madrugada sobre todas as coisas que eu não entendia, textos escritos que só falavam sobre uma pontinha das coisas que eu sentia.

Mas a resposta que eu recebi tinha tanto amor que foi difícil até pra mim, que duvido até de quando eu tô sentindo fome se é de verdade ou eu estou inventando, não acreditar que era melhor eu fazer o que me fizesse sentir melhor comigo mesmo.

Da segunda vez que eu falei em voz alta, eu estava bêbado, com minhas irmãs e ouvi duas respostas. “Você acha que a gente não sabia já?” e “Não importa o que aconteça, a gente te ama por quem você é”.

A gente te ama por quem você é.

Essa frase continuou me acompanhando nas vezes seguintes que eu contei para as pessoas, fosse em um texto longo, confuso e angustiado, fosse numa mensagem de “A partir de agora é Theo, ok?”, fosse mudando o nome impresso no crachá num evento de trabalho.

Só que cada vez que eu precisava sair do armário para alguém, que eu precisava dizer “eu sou uma pessoa trans”, ainda doia um pouquinho. Ainda dói. Porque eu tenho muita dificuldade em falar as coisas.

Então eu me encontrei mudando de cidade, começando um novo emprego, assumindo a identidade de homem para a minha vida. Então surgiu a grande dúvida que me assolou por semanas.

Troco ou não o nome no Facebook?

E parece que é uma dúvida boba, afinal é só uma rede social, mas era decidir se eu queria que o mundo inteiro soubesse. Porque eu cresci e vivi muito tempo numa bolha de felicidade e aceitação que, eu nunca tive nenhuma dúvida real, não deixaria de me amar por quem eu sou. Mas eu tenho 2.886 pessoas conectadas na minha rede. Familiares, colegas de trabalho, amigos, conhecidos, gente que eu vi uma vez em um evento e nunca mais falei, pessoas que me adicionaram sem eu nem saber quem são. Gente de vários cantos do mundo.

E ai deu medo.

O que você acha pesquisando sobre população trans no Brasil

Por mais que eu ficasse nervoso toda vez que visse meu nome de registro. Por mais que eu me colocasse em dúvida toda vez que escrevia algo no feminino. Por mais que, na minha vida e na minha convivência próxima, aquela identidade já não fizesse tanto sentido. Eu estava morrendo de medo.

Mas eu não podia estar mais errado.

No post que eu fiz contando para o mundo que eu sou um cara trans, eu recebi 401 “amei” e 384 “gostei”. E 139 comentários cheios de amor.

É preciso muita coragem para ser quem se é. Feliz por ver o tamanho da sua coragem. ❤
Você tá na lista das pessoas que eu admiro infinitamente e tenho um carinho enorme! 😍❤️
Orgulhosa de vc, que esse estrada mesmo cheia de muitos obstáculo, seja cheia de inúmeros sorrisos ❤
Independente das nomenclaturas que existem, o importante é manter a essência do seu ser. Seja muito feliz Theo.
AHHHHHH Q ORGULHOOOOOOOO!!!!!!
Parabéns Theo, que sua vida seja sempre pra frente, que seus caminhos sejam cada vez mais iluminados é que a felicidade continue batendo na sua porta sempre!
Que belo nome! Sucesso nessa nova caminhada que se inicia e força para vencer os desafios que se interpõem. Esmorecer jamais! Acredite em você, Theo.

Foram só alguns, todos de pessoas que não são tão próximas ou que a vida acabou afastando. Recebi amor até de gente que eu já não lembrava bem quem era. De gente que me conhece muito pouco. Mas que fez questão de demonstrar o seu apoio. Eu recebi mensagens, ligações, declarações, gif cheios de empolgação.

A gente te ama por quem você é.

Eu tenho uma puta sorte.

E acho que eu preciso usar essa sorte para fazer alguma coisa. Porque não é preciso pesquisar muito para descobrir a dificuldade que é ser transgênero no Brasil.

Eu preciso falar que o Brasil é o país que mais matas travestis e pessoas transgênero no mundo.

Eu preciso falar que 90% das travestis e transgêneras brasileiras trabalham com prostituição e não conseguem se inserir no mercado de trabalho formal.

Eu preciso falar das taxas de abandono escolar das pessoas trans que afasta essas pessoas de oportunidades no mercado de trabalho, mas também de oportunidades sociais e aumenta e exclusão.

Eu preciso falar da dificuldade de conseguir tratamento médico, não só para os processos de transição, mas a própria medicina integral.

Eu seria muito egoísta se recebesse esse amor todo e guardasse ele todo pra mim.

Porque enquanto eu estou aqui, cercado de coisas boas e vivendo oportunidades incríveis, outras pessoas que são parecidas comigo estão sendo expulsas de casa, saindo das escolas e faculdades, sofrendo violência.

Então estendam esse amor. Compartilhem que vocês apoiam as pessoas trans. Levantem a voz quando aquele seu parente que vota no Bolsonaro falar que é um absurdo ter um personagem trans na novela. Apoiem quando vocês conhecerem uma pessoa trans lutando para ter seu nome social reconhecido na universidade.

A gente ainda tem muita coisa para fazer para tornar a nossa sociedade mais aberta às diferenças. Todo mundo pode começar dentro do seu círculo social.

Obrigado pelo amor e vamos continuar amando.