Luzes da Cidade

As Luzes da Cidade

Era uma festa de aniversário como qualquer outra, foi minha última festa de aniversário até pouco tempo atrás. Um hiato pela resistência em permanecer criança. Eram 10 anos e já era adulto suficiente pra não querer bexiga, brigadeiro e bolo de chocolate em formato de ursinho.

Nunca se é tão adulto quanto no tempo em que se tem 10 anos. Os presentes recebidos, minha roupa, pose e postura completamente incoerentes com aquela alma adulta que repousava em mim. Do alto dos meus 10 anos Papai Noel já não existia, isso era óbvio e já sabia disso desde os meus 7 anos. Só não contava pra não decepcionar minha irmã que era 3 anos mais nova.

Eu era um adulto. Eu já tinha 10 anos! Provavelmente todos sabiam disso, até por que não dizia a ninguém que morria de medo de trovão, filme de terror e de escuro. Escondidos no meu coração de menino os medos saltavam e me calavam, mas por fora eu acreditava ser um homem e por isso fiquei calado quando choveu como à muito tempo não chovia com tantos trovões quanto jamais tinha visto e a luz acabou. A festa acabou tão mais cedo, mas tudo bem, eu já era um homem e sabia lidar com as coisas. Sim, sabia lidar com a vida, e se os dentes de leite tivessem caído e o definitivo não nascido e eu não ria mais e pronto, resolvia o problema.

Não tinha barba e pensava: “Deve ser genético”. Eu não era nenhum bobo com 10 anos, assistia televisão e vi no Fantástico Mundo de Beakman que o tal do “genético” é responsável por esse tipo de coisa. Até o jornal assistia do lado dos meus pais sem nem reclamar mais.

Eu era adulto, eu era um homem e por isso achei estranho quando me levaram no cinema pra assistir um filme que na verdade era desenho sobre um Leão que era Rei. Poxa… Era desenho e eu era adulto, eu pensei. Mas logo entendi que cinema era coisa de adulto. Pois se fosse na televisão eu assistiria de má vontade e terminaria o filme pronto para tecer severas críticas ao diretor… Só ao diretor, por que do desenho eu gostei.

E por ser adulto que eu assisti indignado àquele filme que passou na TV no dia seguinte, daquele tonto de bigode. Ele tinha bigode, por que se portava que nem criança? Um papelão, ele deveria sim é seguir meu exemplo que aos 10 anos mesmo sem que o tal do genético tivesse me dado barba me portava de acordo com minha idade. E é por isso que assistia mais indignado ainda cada vez que fazia aquelas coisas bobas e sorria olhando de lado. E quando ele sorria de lado eu odiava. Me dava vontade de chorar e de sorrir ao mesmo tempo e até pra mim com todos os meus 10 anos que já quase não cabiam nas duas mãos, essa sensação estranha era difícil de entender. Nisso, eu engolia o choro e fechava a cara torcendo pra que ninguém chegar e perguntar o por quê dos olhos com água. Passou segundos e tão logo ele sorriu de novo eu não aguentei e chorei, logo eu, um homem feito que só faltava a barba. Que raiva do palhaço que me fazia chorar.

Tinha raiva do cara de bigode. Me mostrava sem compaixão alguma que a ternura iria me acompanhar pelo resto da vida adulta que eu ingressava já aos meus 10 anos, e que deveria ser grato por isso. Foi aí que ele me mostrou que a infância é curta e a maturidade é eterna e que na verdade deveria ser justo ao contrário. Entendi que emoções são complexas, tristes e felizes ao mesmo. Mas só muitos anos depois assistindo de novo ao mesmo filme do cara de bigodinho, andar desajeitado e sorriso de lado que percebi isso e lembrei das As Luzes da Cidade e sobre como podem ser lindas. E a até hoje, cada vez que o palhaço sorri as lágrimas escorrem enquanto eu sorrio junto.