As sutilezas de “A Bruxa” (e como Hollywood criou uma geração de preguiçosos)
Robinson Samulak Alves
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Um fenômeno semelhante parece acontecer com o filme Boa noite, Mamãe. Um filme com cinematografia mais do que linda e com uma abordagem muito diferente sobre o terror como algo próximo e interno a nós.

Fui ver A Bruxa com uma paciência já esgotada para ser capaz de lidar bem com as pessoas que também habitam o planeta. Sentaram dos meus dois lados pessoas que obviamente não estavam dispostas a assistir ao filme com a calma que ele precisava. Piadinhas e comentários durante a sessão me obrigaram a rapidamente cutucar cada uma dessas pessoas e dizer explicitamente que eles deveriam ficar quietos e que se não queriam assistir ao filme deveriam sair de lá, pois eu não deixaria elas em paz. Uma bronca desconforta muito as pessoas, ninguém imagina muito que será contestado assim num ambiente confortável como esse. Enfim, após as broncas a bobagem passou, mas se via pessoa olhando no telefone alguma mensagem com certeza pouco útil, ou então simplesmente recostando a cabeça e não aproveitando o que a tela passava. Considero completamente inaceitável uma pessoa não conseguir se concentrar em algo que pagou 24 reais pra ver, mas era óbvio que imaginavam que aquilo era um evento de amigos para se assustarem de forma barata — Tanto é que algumas pessoas pareciam forçar o susto só para sentirem que estão vendo o que esperavam, coisa que também ocorre quando um comediante atua em algum drama e a pessoa não esperava aquilo, e pra compensar riem do que não era pra rir.

É com certeza um filme exigente. Eu chegava a tremer com a temperatura bem amena. Tremia porque é um tipo de filme bem específico que é capaz de mexer com nosso tato, algo que é muito difícil colocar em palavras e que vem de um estudo delicado sobre como afetar emocionalmente as pessoas e transferir isso para nossa biologia. Com os jumpscarys é simples, pois é só apelar para nossos instintos comuns de chaveamento entre sistema nervoso para-simpático e simpático diante de algo inesperado. Mas aqui não. O filme se nega a ser apenas uma sensação momentânea de susto e prefere nos levar para um lugar onde devemos repensar aquilo que vemos e mexem com emoções mais sutis do que o susto. Algo que surge eventualmente em filme como O Exorcista, Repulsa ao Sexo ou o Bebê de Rosemary. É realmente muito bom ver que o cinema de terror (Difícil até chamar este filme de terror, é grande demais pra se encaixar) esteja se mostrando tão interessante apesar dos genéricos filmes com bonecos amaldiçoados.