1 like = 1 curiosidade sobre trabalhar com design e ilustração

Algumas threads tomam conta do Twitter de vez em quando. Não é sempre que participo, mas esta me pegou. Para cada like ganho, eu contaria uma curiosidade sobre design e ilustração. Mal sabia eu que o tweet renderia mais mil (!!!) likes.

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Pois bem. Estabeleci a meta de 100 tweets na thread. 100 fatos sobre design, ilustração e tudo que há de bom. E a meta foi devidamente cumpridam pois não brinco em serviço, né mesmo? A pedido da galera da rede social do passarinho azul (me sugeriram até mesmo escrever um livro a partir da thread!), coloco os 100 tweets aqui para registrá-los com mais carinho :) Vamos lá!

  1. Design é um ramo sem consenso em sua definição. As possibilidades do design são elásticas, pois a profissão está diretamente ligada a:
    1) usuário;
    2) objetos;
    3) técnicas de produção.
    Por isso, do mesmo curso que eu saiu gente que trabalha com animação, cinema, livros, web.
  2. Ser designer requer paciência porque ninguém sabe o que é design. Todo dia eu explico o que faço e sou didática ao máximo para poder tornar o design mais acessível como disciplina e carreira.
  3. Trabalhar com design é trabalhar em equipe. sempre. se você for temperamental ou babacão, não vai durar seis meses num estúdio/empresa/escritório.
  4. Desenhista ≠ Designer
  5. Uma vez fiz um postal debochado com uma arte de “trago a logomarca amada em três dias”. depois me perguntaram, na seriedade, se eu “entregava uma logomarca em três dias mesmo”. É mole?
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Meu projeto “Trago a logomarca (sic) amada”

6. Design tem um tempo diferente das outras profissões, porque é teórico e prático. tme o tempo de pesquisa e o tempo de execução. Por isso, design demora.

7. Ser designer é reparar em coisas que ninguém está reparando. Letras em placas, móveis bonitos, paletas de cores. Minha visão de mundo mudou e se expandiu na versão micro e macro depois que entrei na faculdade de design.

8. Assim como médicos e advogados, design tem uma língua técnica própria. Por exemplo, cada parte da letra de uma fonte tem um nome específico.

9. Nem todo designer é ilustrador, e nem todo ilustrador é designer.

10. Por causa de design já trabalhei com músicos, diretores, produtos de cinema, produtores de música, djs, funkeiros, dançarinos, quadrinistas, ilustradores, animadores.

11. Criar uma fonte com alfabeto latino completo, contendo caracteres maiúsculos, minúsculos, sinais e pontuação, leva, no mínimo, seis meses (!!!) de trabalho focado só nisso. É normal que uma fonte demore pelo menos um ano para ser feita.

12. Não há tradução para o termo “designer” em português. Como já disse, design não é desenho. Omais próximo de “designer” que temos em português é “projetista”.

13. Trabalhar com ilustração é ir à papelaria e gastar 150 pratas em duas canetas e uma folha de papel grande.

14. Designers/ilustradores não criam num SURTO DA INSPIRAÇÃO GENIAL. Projetos são concebidos através de pesquisa, cronograma, execução, tentativa e erro, reuniões`.

15. Saber desenhar é saber se comunicar através de um desenho. Desenhou um boneco de palito bebendo água e a pessoa entendeu? Então você sabe desenhar. Todo designer sabe desenhar, mas nem todos gostam de desenhar ou trabalham desenhando.

16. Desenhista ≠ Ilustrador.
O desenhista é alguém que faz desenhos, puramente isso. O ilustrador é quem desenha a partir de um texto são habilidades diferentes. Ilustrar é narrar por imagens.

17. Design em inglês surgiu do termo latim “designare”, que tem dois significados:
a) verbo: marcar, traçar, notar. sentido artesanal ou manual;
b) verbo: planejar, imaginar. ligado a uma ideia. sentido intelectual;
ou seja, design é uma profissão teórica e prática em sua essência.

18. Os ditos primeiros grandes ilustradores da história ocidental foram os monges copistas dos mosteiros medievais. “Ilustrador” vem do termo “iluminador”, pois os monges estavam iluminando o texto com imagens (e folhas de ouro).

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Uma página ilustrada por um ilustrador — também conhecido como iluminador — medieval.

19. “Não julgue um livro pela capa” é um ditado popular injusto com designer pois, se o designer fez um bom trabalho, você deve sim julgar um livro pela capa.

20. O design é tão interdisciplinar que há várias áreas de conhecimento dentro do ramo. No vestibular, minhas matérias específicas foram: matemática, física, geografia, inglês, história, desenho.

21. Ser ilustrador é conviver todo dia com o duelo entre texto e imagem. Inclusive, há escritores que são terminantemente contra ilustrações em livros, falando que o ilustrador é um ditador da imagem. Na visão deles, a ilustração mata a imaginação do público. (!)

22. Não conheço 01 designer que nunca tenha recebido uma “proposta irrecusável de trabalhar de graça e ser pago com divulgação” e isso é muito triste :(

23. A primeira escola real oficial de design surgiu em 1919 na Alemanha. Chamava-se Bauhaus (“casa de construção” em alemão) e foi fechada 13 anos depois por nazistas. Foi uma escola estatal (!!) e socialista que mudou o mundo. Quer dizer: design como disciplina institucionalizada tem apenas 100 anos.

24. Uma das coisas mais lindas de se trabalhar como designer é dar forma aos sonhos dos outros. Já recebi retorno de cliente falando que chorou de emoção ao ver a identidade visual que eu fiz.

25. Trabalhar com design é 100% sobre enxergar e entender o outro. Outro retorno muito legal que já tive como freelancer foi: “você enxergou o que eu queria por trás das minhas palavras”. Snif.

26. Trabalhar com desenho industrial é ouvir com frequência coisas como “você desenha parafusos?”.

27. As vagas de emprego em design rolam muito por indicação e pouco por divulgação online. Ou seja, ser realmente legal com os outros é a melhor estratégia de self promotion.

28. Um dos projetos sonhos que já trabalhei foi participar de um projeto de ilustrações e letterings pro Google. Eles são super certinhos, cronograma fechado, organização dos deuses.

29. A máxima do design clássico é “a forma segue a função”. Esta frase me foi ensinada na faculdade numa aula de desenho: a cabeça das áreas de rapinas são quadradas para dar velocidade no vôo, aves domésticas têm cabeças arredondadas.

30. Jogar Imagem e Ação com meus amigos ilustradores é muito frustrante porque todo mundo acerta tudo.

31. A faculdade de design é muito cara. Mesmo em graduação pública. Gasta-se dinheiro com impressão, material, software. Já paguei 200 reais na impressão de um dos trabalhos da faculdade.

32. Por mais que role muita disputa de ego e competição, a comunidade de design num geral é muito unida e todo mundo se conhece. Todo dia eu luto pra ajudar outras pessoas e deixar circular esse carma positivo entre os colegas de trabalho.

33. Acredito que quem se forma em design não precisa ser necessariamente designer. É uma faculdade que forma, em suma, bons empreendedores e criadores visuais. Por isso, e também por ser multidisciplinar, é comum que os designers, depois de formados, abram seus negócios dentro ou fora da área.

34. Preço em design é algo extremamente volátil, mas a Associação Brasileira de Design (ADG) possui uma tabela com valores médios para cada tipo de projeto. Conforme está tabela, uma identidade visual de pequeno empreendedor deve custar R$ 3.000 (valor de 2018). É uma tabela atualizada a cada dois anos, e é uma ajuda eficaz para entender minimamente o preço de cada tarefa.

35. A tabela da ADG não é um consenso entre os profissionais do ramo. Numa regra geral, suspeite de um designer formado e aparentemente experiente que cobra 300 reais por um logo. Muito provavelmente ele não te entregará o trabalho completo ou será plágio.

36. “Paula, sou pequeno empreendedor e não tenho grana, mas preciso de um logo. E agora?” Procure um estudante, será o melhor custo-benefício para sua situação. Alguns designers trabalham com modelo probono, mas sinceramente não é e nem deve ser a regra.

37. Já fiz duas identidades visuais para pequenos empresários que antes de mim tomaram calote de designers baratos. Um deles disse que o designer anterior pegou uma imagem do Pinterest e falou que tinha direito autoral liberado porque…… era o Pinterest (????????).

38. Os primeiros períodos da faculdade são muito frustrantes porque você quer fazer altos desenhos, projetos mirabolantes e... todas as tarefas são cortar papel branco e preto. Isso acontece porque é uma tradição metodológica de abstração e composição visual lá da Bauhaus.

39. Na minha turma de faculdade tinha uma menina perita em copiar o trabalho dos outros, inclusive o meu. Era tão descarado q fiz uma imagem comparativa entre um trabalho dela e o meu, o qual ela copiou até mesmo o título. Apelidamos essa pessoa carinhosamente de Copycat.

40. Na UFRJ há uma semana toda para apresentação dos TCCs, aberto ao público. Há uns 4 anos um menino mostrou um TCC todinho PLAGIADO e foi desmascarado em público porque meu namorado reconheceu o projeto do Behance (apenas a tipografia free mais curtida de 2015: Metropolis). Taí uma boa treta.

41. Muito do mundo do design é saber vender um projeto, fazer boas apresentações e ter retórica. Um designer pode ser tímido, recluso, mas na hora de mostrar o que fez, deve cativar, ser didático e ser um bom vendedor do próprio projeto.

42. Não existe apenas uma maneira de se trabalhar com ilustração. Num geral, é uma carreira freelancer, ou seja, você será seu próprio patrão. Porém, já trabalhei num estúdio de design como ilustradora, idem em editora. Alguns amigos ilustradores trabalham em estúdio de animação.

43. O legal de ter amigos ilustradores é que a gente sai pela cidade para desenhar junto. É comum crianças se juntarem perto da gente de tão impressionadas que ficam só de ver a gente desenhando. Já ouvi “olha, tá usando uma caneta de antigamente!!” quando uma criança viu um bico de pena.

44. Estudei modelo vivo (vulgo: desenhar gente pelada) durante anos e isso sempre foi um bom tema para puxar assunto com galera fora da área criativa. Todo mundo fica curioso. O engraçado é que de tanto focar no desenho da forma você esquece que tá desenhando uma pessoa nua.

45. Design tem várias vertentes, umas mais humanas, outras mais tecnológicas, e ainda há as mais artísticas. Minha faculdade da graduação, UFRJ, situa-se dentro do prédio de Belas Artes, então aprendi muito sobre história da arte e do design, gravura e desenho.

46. Estudar design me tornou a Pessoa Chata Que Sabe Nome E Sobrenome Das Cores. Por exemplo, nas imagens abaixo: Azul Klein, Azul da Prússia, Azul Ciano. Cada cor tem um nome, especialmente quando falamos de tintas, porque os nomes se referem ao componente do pigmento (pó) da tinta.

47. Um dos maiores desafios da vida do design gráfico é trabalhar com cor. A cor digital muda de tela pra tela. Em impressos a cor muda conforme a calibragem da impressora. Por isso, usamos a escala Pantone para ter maior controle de cor na reprodução.

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Escala de cores Pantone. Cada cor tem um código específico nessa tabela, o que facilita (e muito!) na hora de ter controle da cor na produção gráfica.

48. Muitos acreditam que desenho é um dom inato. O desenhista é aquele que nasceu sabendo desenhar. Acho isso extremamente ofensivo, porque perseverança é o talento essencial em desenho. Não há sorte. Após muito estudo, prática e treino você aprende desenho e se torna ilustrador.

49. Uma vez entreguei um trabalho de Chroma Key (fundo verde) feito com meu namorado. Basicamente, nos inserimos dentro de um jogo pokémon. Na época o professor viu o vídeo final, rolou de rir e respondeu “o importante é fazer o trabalho feliz”. 100% verdade.

50. Trabalhar com viés artístico é top, e acredito no papel do designer como autor do projeto. O designer imprime estilo e sua visão de mundo. Mesmo assim, faço projetos pessoais, sem briefing do cliente, porque acredito que o designer também deve criar apenas por farra às vezes.

51. Eu trabalho com meu hobbie e sou muito feliz por isso. “Trabalhe com o que gosta e aí você não vai gostar de mais nada” é de um cinismo horrível, pois existem hobbies que você faz durante duas horas, outros durante oito. São esforços diferentes. Encontre o seu ♥️

52. Um ilustrador passa 8 a 10h por dia com a bunda sentada na cadeira. Desenhando. Retocando. Fazendo detalhes. A maior parte das pessoas entra na faculdade de design porque gosta de desenhar, mas não passa pela “prova” das 8h de desenho diário e aí desiste de ilustração.

53. Desenho letras e palavras desde que tenho 13 anos. Ninguém nunca me falou que eu poderia ganhar dinheiro fazendo isso. Descobri na faculdade o nome disso: tipografia, lettering, caligrafia. Hoje desenho letras para capas de livros, ilustrações, videoclipes, logos.

54. Durante a faculdade rolou muito preconceito dos professores de Belas Artes com mangá. Reclamavam aula sim, aula não. Rolê totalmente errado, pois tudo é referência. Inclusive tiro vantagem do meu repertório cheio de Naruto, Vagabond, Samurai X e Sakura Cards Captor.

55. Escrever também é desenhar. Quando você escreve, você está desenhando as formas mais abstratas de representação: letras :)

56. Sou administradora do grupo de design da UFRJ no facebook e já ajudei vestibulandos aleatórios nesse processo. Antes de fazer ENEM, você precisa fazer o teste de habilidade específica de desenho. Já fui a pessoa q anuncia “não fez o THE? então vai ter que prestar vestibular de novo” umas 4 vezes :(

57. Já trabalhei em editora e ver um livro nascendo é um processo lindo, mas muito estressante. Já vi gráfica dar calote, editora gritando com autor, Biblioteca Nacional atrasando ISBN do livro. Um livro só nasce do esforço coletivo de muita gente louca e maravilhosa.

58. Ser designer é muito libertador porque você aprende a cadeia de produção de vários objetos. Por conta disso, sei publicar meus próprios livros independentes. Portanto, é normal que o designer tenha esse impulso inovador.

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Uma faca olfa. Essa é a marca oficial, e custa uma nota na papelaria.

59. Para montar os trabalhos da faculdade, aprendi a cortar papel com faca olfa e estilete. Cortar reto um papel grande com tesoura é muito cansativo e difícil. Não fica reto e você ainda fica com dor nas costas e nos braços. Por isso, usamos essas facas de corte.

60. Um desenho é feito de camadas. Você sabe que um desenhista é amador qn ele se preocupa mais com o detalhe do que com a forma como um todo. Desenhar é pensar no rascunho, fechar o rascunho, começar o acabamento e aí fazer mais rodadas de arte final. São camadas de trabalho.

61. O aprendizado em desenho não é gradual. É como se fosse uma escada, de degrau em degrau. De repente, depois de meses de estudo, você faz um desenho nitidamente melhor que os outros. É uma melhora que vem no susto, mas num susto muito bom.

62. Eu posso passar oito horas por dia desenhando a trabalho que depois dessas oito horas eu vou dar um jeito de desenhar só pra mim, só por farra. Como disse meu prof: “é preciso ser Apolo, mas sempre lembrar de ser Dionísio”.

63. Uma coisa super legal de trabalhar com editorial é ir à livraria e conhecer quem fez as capas, os livros. Sempre que vejo uma capa minha na livraria parece um sonho! isso é muito muito emocionante.

64. Trabalhar com design une tudo que eu gosto: escrita, pesquisa, desenho, comunicação. Aos 11 anos eu queria ser escritora pq amava livros. Hoje eu sou escritora além de designer, e fiz este percurso sem perceber. O legal em design é que tu pode universidade tudo que tu gosta.

65. Trabalhar com desenho de letras é estar atento às letras na rua. Nas placas de supermercado, placas de trânsito. Tudo é referência. Até mesmo os bueiros do Rio de Janeiro.

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66. O designer não deve pensar (apenas) em questões de gosto pessoal, o que é bonito, o que é feio. A principal questão no design é: “esta resposta atende ao briefing e às questões do projeto?”.

67. Design é retórica. A todo momento você tem que convencer e se comunicar com o outro. Ao mesmo tempo, é uma retórica invisível, pois ninguém percebe o design como um argumento em si. Por isso, design é tão poderoso, periogoso, incrível.

68. Muitos pensam que desenho é apenas uma técnica. Na verdade, desenho é uma forma de pensamento. Enquanto você está desenhando, você está analisando e pesquisando. Às vezes você só entende a mecânica e a forma quando a mão faz o traço, e isso é assombroso e maravilhoso.

69. Já trabalhei com artistas plásticos que me pediam com todas as letras “eu quero que o designer apareça menos possível” (?). Nunca entendi o grande problema~ de deixar um designer brilhar. Disputa de ego no meio artístico é dose…

70. Por incrível que pareça, a malemolência do jeitinho brasileiro é uma grande vantagem no design e na ilustração. O brasileiro consegue se virar em qualquer situação. Isso foi algo que percebi durante o intercâmbio na Holanda — e era algo que chocava os gringos.

71. Um dos maiores designers do país nasceu em Pernambuco: Aloisio Magalhães (1927–1982). Era um cara extremamente culto; por pouco não foi ministro da cultura. Fez alguns dos maiores projetos de design do país: Petrobrás, Light, cédula da nova moeda brasileira.

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Tá pra nascer outro Aloísio Magalhães aqui no Brasilzão.

72. Todo alfabeto em caligrafia tem um ductus do desenho da letra, isto é, um passo a passo de como se deve desenhar a letra. Esse ductus remete ao tempo dos escribas, estudiosos do traço, que desenhavam letras sem rascunho, direto no bico de pena ou cálamo.

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Passo a passo da construção de cada letra neste singelo alfabeto. Para cada tipo de alfabeto há um ductus. Por exemplo, o ductus de um alfabeto gótico é completamente diferente deste acima.

73. Falar que designer não ganha dinheiro e não consegue se sustentar é um argumento típico de gente que menospreza trabalho com cultura e artes. As possibilidades de uma carreira em design são enormes, pois você pode trabalhar em diversos lugares e em diversos ramos.

74. Como designer é possível trabalhar de diversas maneiras. Escritórios de publicidade, estúdios de design, equipes internas de design em empresas multinacionais, freelancer, designer em editora, etc. O bom do mercado de design é a pluralidade da profissão.

75. Todo negócio precisa de design. Por mais micro que seja. Toda empresa precisa de design em algum nível, seja em tarefas internas ou externas. Por isso, design é um ramo com muita procura e demanda.

76. O design nasceu político, mesmo que seja uma profissão a serviço da burguesia. Este lugar capcioso do designer faz com que a profissão seja cercada de muito debate. Nos últimos anos os designers brasileiros se juntaram em diversos manifestos e protestos.

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Capa da Adbusters. Precisa falar mais?

77. artista ≠ designer

78. O designer soluciona problemas a partir de um briefing. Cria soluções p/ projetos. O artista ñ tem propósito algum de responder nada; ele levanta questões. Mostra o problema. Designers podem trabalhar como artistas e vice-versa? S, mas são lados diferentes da visão de projeto.

79. Faço mestrado em design e é surreal como os temas de pesquisa são amplos. Alguns que recordo de cabeça: design e aprendizado à distância, o papel do design em oficinas sobre prazer feminino, desenvolvimento de descartáveis de luxo, design para longevidade.

80. Sou muito estabanada, mas sou muito boa em acabamento de projetos manuais. Corto reto e rápido. Só me machuquei com estilete uma vez, que eu refilei de uma vez só um pedaço do meu dedo e da minha unha RISOS DE NERVOSO

81. Design não é uma questão de gosto pessoal, embora envolva repertório pessoal e questões estéticas culturais e individuais. Design é sobre solucionar um problema.

82. É muito difícil que o cliente entenda que design não é apenas sobre o que ele acha honito. Uma vez um cliente cismou que queria uma identidade visual ROSA, e depois de várias rodadas e 4 opções de identidade visual no decorrer de 2 meses, ele disse: “gostei da forma, mas… pode ser rosa?”

83. Já fiz reunião com todo tipo de gente. Numa delas, numa empresa badalada e gigante, um dos sócios falou “tenho q pensar nessa identidade visual… É que nem doce. De primeira você não gosta, mas depois entra no barato” E pior que na hora pensei que ele tava falando de, sei lá, brigadeiro.

84. De todos os tipos de profissionais que já trabalhei, os mais legais são editores e rappers.

85. Um designer gráfico que não manja de produção gráfica está lascado. Imprimir no papel certo, exportar arquivo na definição correta, perfil de cor de arte final: isso tudo tem que saber de letra. É melhor um designer mediano que manje disso do que um designer top que não sabe de produção gráfica.

86. Acredito que todos merecem bom design. Todos. Por isso, já trabalhei em lugar que a equipe realizava um projeto probono por mês pra cliente independente ou projetos sociais.

87. Não existe bonito ou feio. A teoria da estética tem várias vertentes, mas acredito na que fala que o gosto é cultural e construído. Em suma, pra mim, tudo é bonito. Só depende de como você olha :) Pensar nisso me fez uma designer mais generosa e mais respeitosa.

88. Sempre usei a força da raiva de forma produtiva. Por exemplo: fiz uma matéria sobre estética na faculdade e a professora ensinou NADA. Me revoltei e escrevi um artigo estética 101 pra Revista Clichê cujo singelo título é “Gosto é que nem cu?”.

89. Por causa de design e ilustração eu conheci meus ídolos de quadrinhos, desenho e literatura. Há 4 anos mostrei meu sketchbook pro Rafael Coutinho, um dos caras que sou mais fã, e eu caí pra trás qaundo ele elogiou e disse “foda ver a nova geração de desenhista nesse nível” !!!!!!!!!!!!

90. Acredito no poder do design em si como retórica. Uma vez, após zoarem injustamente a feiúra da Comic Sans pela enésima vez, fiz uma zine para defender a coitada e provar que não existe fonte feia, existe mal uso tipográfico.

91. Embora não seja o foco da maioria dos designers, há vagas para designers em concurso público, por exemplo, para Eletrobrás

92. Por ser neologismo, muita gente embola os termos “design” e “designer”. Acho normal, pois ninguém é obrigado a saber inglês. Quem zoa esse erro está sendo elitista. Design é a área de conhecimento, campo d atuação. Designer é o profissional. O designer estuda e faz design :)

93. Odeio a demonização do Cliente como um leigo soberbo e estúpido. Se o projeto não foi aprovado, é preciso rever o briefing, o que foi pedido. Se o cliente não gostou, a culpa não é do cliente. É do designer. É uma profissão que precisa de humildade e auto reflexão constante.

94. O designer precisa ter uma inteligência e perspicácia emocionais afiadas para entender o que não está dito. Às vezes o cliente não sabe o que quer; às vezes ele não sabe explicar o que quer. Por isso, a relação com o outro deve ser de muita troca e comunicação.

95. Ser designer e ilustradora me faz percorrer e conhecer lugares novos e inusitados da minha cidade natal. Já fiz walking tour tipográfico pelo centro da cidade, já desenhei na Casa do Rui Barbosa, visito museus e teatros em lugares que nunca fui. Vivo mais a minha cidade ❤

96. Só faço capa de livro depois de ler o livro — senão inteiro, grande parte dele. É muito importante saber o tom do autor (se ele é engraçado, sarcástico, sério, melancólico) para interpretar isso visualmente numa imagem, numa tipografia. Design é também interpretação.

97. Qual a diferença entre o design de um cartaz, uma capa de livro e uma ilustração? O cartaz é sintético, rápido, tapa na cara. O cartaz é como um raio. Você deve entendê-lo num instante. O bom cartaz é lido até mesmo quando o público passa correndo por ele.

98. A ilustração é contemplativa, uma atmosfera a ser entendida. Seu tempo de consumo é maior, porque convida o leitor a imaginar junto. A ilustração é a tempestade, as gotas da chuva molhando.

99. A capa de livro é um convite. Deve seduzir e te deixar intrigado. Uma boa capa de livro não entrega o texto, mas mostra a que ele veio. A capa de livro é a maresia.

100. Por mais que o design como disciplina tenha 1919 como data inicial, o pensamento projetual é milenar. Sempre existiu design porque design está conectado a qualidade de vida, cultura, comunicação. Design é um tema eterno. Enquanto houver humanidade, haverá design.

Written by

Designer witch e ilustradora porradeira ✨ www.paulacruz.com.br

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