Como se inscrever no mestrado de design?

Há mais ou menos três meses saiu o resultado da última etapa do processo seletivo 2017/2018 do mestrado em design da PUC-Rio. E há mais ou menos três meses eu me tornei mestranda, rumo ao título de Mestre. Yay!

De lá pra cá alguns amigos interessados em iniciar a vida acadêmica me abordaram com dúvidas sobre o processo seletivo, como é o mestrado, essas coisas todas. Durante o processo tive a valiosa ajuda de duas amigas queridas (Dea Camargo e Dayane Costa, suas lindas!), e acredito que devo contribuir para jogar este carma positivo de volta ao mundo c:

Muito do que falarei aqui tem como base o mestrado de design que sou aluna, na PUC-Rio. Cada mestrado tem seu próprio edital, seu processo seletivo, etc., mas acho que dá pra passar uma boa ideia geral aos mestrandos de primeira viagem. Vamos lá!

Qual o primeiríssimo passo para se inscrever num mestrado?

Numa resposta rápida: ter em mente qual área de atuação você gostaria de estudar por dois anos.

Pode começar bem abrangente, do tipo: quero estudar sobre livros. Daí você começa a especificar: quero estudar sobre livros infantis ilustrados. Daí você especifica ainda mais: quero estudar sobre livros infantis ilustrados no Brasil. E especifica mais e mais: quero estudar sobre o impacto da televisão nos livros infantis ilustrados no Brasil na década de 60. O importante é ter um recorte específico no final (o Umberto Eco tem uma explicação sensa disso no livro Como Se Faz Uma Tese). Isto é, se você precisar escrever um anteprojeto, como explico mais abaixo. Algumas faculdades têm “apenas” entrevistas ou provas, mas, mesmo assim, você deve ter pelo menos uma noção de qual área quer pesquisar.

Outra questão fundamental é escolher um orientador, que esteja alinhado com o que você quer estudar e que pode colaborar para sua pesquisa (e você, com sua dissertação, para o grupo de estudos e pra pesquisa dele). Entre em contato com o orientador antes do processo seletivo, frequente às aulas, conheça esse mentor antes da jornada do mestrado. (lá embaixo eu explico o porquê disso ser importante!)

Como você decidiu que “era hora” de fazer mestrado?

Difícil responder isso, principalmente porque uma coisa foi levando a outra.

Durante a graduação eu percebi que gostava muito de estudar, mas não tive experiência de escrita acadêmica propriamente dita. E isso me incomodava. Percebi que curtia muito as aulas de teoria, e comecei a procurar livros teóricos de design por fora da faculdade, indo além das bibliografias indicadas pelo professores. No intercâmbio eu tive mais aulas de teoria, aprendi Foucault, iconoclastia e outras “drogas” mais pesadas. Comecei o TCC logo depois de voltar da Holanda, e combinei com minha orientadora Julie Pires (linda, poderosíssima, mulher incrível) que faria uma monografia mais sisuda para me preparar para o mestrado. Tive um intensivão de escrita com a Julie e escrevi pra caramba, editei mil vezes, enfim. Apresentei o TCC em setembro de 2016, bem pertinho do resultado do processo seletivo de 2016 da PUC-Rio e da UFRJ para os mestrados que começaram em março 2017. Ou seja: na época não tive tempo hábil para fazer o anteprojeto do mestrado.

O TCC me fez perceber que eu comecei a explorar um tema que curtia muito, e que eu poderia me aprofundar ainda mais. O sentimento de “eu posso ir além” era muito forte, então resolvi em junho de 2017 que faria o processo seletivo para o mestrado de 2018. Na minha mente eu estava “decidindo em cima da hora”, mas já tinha 80% do trabalho pronto, um tema de pesquisa em mente e um orientador escolhido.

O que me levou a tentar o processo seletivo do mestrado naquele ano foi pura e simplesmente vontade de voltar a estudar e trocar conhecimentos num ambiente de sala de aula. Um ano apenas no mercado de trabalho me fez perceber como eu sentia falta de estudar e aprender teorias novas que explodem a cabeça. E, principalmente, que eu queria estudar sobre livros, tecnologia, narrativa.

Na época eu trabalhava num lugar com horário flexível que me apoiou durante o processo, e tive ajuda das duas amigas (Dayane e Dea, obrigada mais uma vez ❤) para revisar meu anteprojeto, me dar dicas de apresentação, tudo! Também tive muita ajuda do Gamba, meu orientador, para lapidar tudo da proposta. Treinei a apresentação com meu noivo, meus amigos, todo mundo!

Mesmo com todo esse apoio e grande parte do anteprojeto encaminhado, eu não tinha certeza se era a hora ou não de começar um mestrado. Acho importante falar isso porque sempre vai ter um pouco de dúvida, vários “e se?”. É normal não ter certeza 100% mesmo, por mais preparado que tu esteja.

Meu conselho é ouvir seu coração, sua vontade de estudar, o quanto você quer começar uma nova fase na sua vida. Provavelmente muito do que você percorreu se encaminha para um mestrado — afinal, você está lendo um texto sobre “como se inscrever no mestrado” e isso não acontece à toa. Também considero importante ter um “guia” nessa fase, tanto no orientador quanto em amigos que são mestres ou doutores. O caminho fica mais leve assim :)

Como foi, pra você, o processo de encontrar um tema pro teu projeto?

Como disse acima, foi um processo natural, pois meu mestrado é a continuação do meu TCC. De certa forma, minha produção perpassa livros, história do design, narrativa e processo, então é algo que faz sentido dentro do meu caminho profissional também.

Acho que o processo de encontrar o seu próprio tema traz uma carga de autoanálise bem forte, já que é necessário perceber quais temas você sempre traz consigo. Se seu portfólio é cheio de trabalhos de interface, tem aí uma área que tu curte e tá sempre disposto a trabalhar e estudar, certo? A partir dessa descoberta, tu pode unir com outra questão, por exemplo, como o design de interface modificou as relações entre corpo e máquina? Enfim, um chute bem no escuro, mas serve para você entender como encontrar um tema não é exatamente um bicho de sete cabeças.

Lembre-se que um bom projeto encaixado numa linha de pesquisa sólida ajuda, mas projetos mudam, professores se aposentam, etc. Ou seja: o tema do seu projeto vai ser lapidado e modificado no decorrer de dois anos, então não precisa ser um tema perfeito, mas precisa sim ser um tema que te interesse bastante e faça sentido. Afinal, serão dois anos de estudo dedicados a isso.

Preciso ter um projeto de pesquisa em mente para entrar no mestrado?

Normalmente sim. Como falei acima, você é avaliado também por se enquadrar na linha de pesquisa do seu orientador. Se seu edital requer um anteprojeto, você precisa ter um projeto de pesquisa bem elaborado. Se seu edital pede apenas uma prova ou uma entrevista, você muito provavelmente decidirá seu projeto de pesquisa no decorrer do mestrado, junto com seu orientador.

Como você encaixou o projeto na linha de pesquisa (ou a linha de pesquisa no projeto, dependendo da ordem)?

Acho melhor dar uma pincelada inicial na estrutura do mestrado, entender qual a estrutura dos laboratórios, área de concentração e linha de pesquisa.

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A imagem ao lado é do Departamento de Artes & Design da pós da PUC-Rio, o PPG Design. No centro, tem a área de concentração, que é Design e sociedade. Tudo se refere a esta área.

Dentro dela estão contidas três linhas de pesquisa: 1) Comunicação, cultura e artes; 2) Tecnologia, Educação e Sociedade; e 3) Ergonomia, Usabilidade e Interação Humano-Computador. Cada linha de pesquisa tem um laboratório especializado, formado por um orientador. Às vezes os laboratórios têm parcerias, funcionam com mais de um orientador, enfim. Têm variações. No esquema, a gente vê que a linha de Comunicação, cultura e artes é formada por:

  • Laboratório de Design de Histórias (Dhis);
  • Laboratório Design, Memória e Emoção (LABMEMO);
  • Laboratório de Comunicação em Design (LabCom);
  • Laboratório de Comunicação Sensível em Design (LaRS).

Deu pra entender a estrutura? Então: como você pode perceber, as linhas de pesquisa costumam ser beeeeem abrangentes, e os laboratórios são mais específicos justamente por causa da linha de pesquisa de cada orientador.

Saindo do exemplo da PUC, a UFRJ tem duas linhas de pesquisa: Imagem, tecnologia e projeto e Design e Cultura. A ESDI tem duas linhas de pesquisa: Teoria, Informação, Sociedade e História e Tecnologia, Produto e Inovação. Enfim, só para ter mais exemplos mesmo.

Então talvez a pergunta tenha que ser remodelada: como encaixar o projeto no laboratório do seu orientador?

Acho que este é um processo que deve rolar naturalmente, visto que seu orientador deve estar alinhado com seus interesses de pesquisa. Se você achar um orientador que tenha uma linha que tu curte, já é meio caminho andado. É normal que ele te dê dicas do quanto tu pode melhorar e adaptar seu projeto. Tenha em mente que projetos sofrem alterações. O importante é ter uma ideia geral clara do que tu quer pesquisar, e estar disposto a fazer alterações e melhorias na proposta do projeto. Um anteprojeto nunca chega pronto, e sempre pode ser melhorado, então escute atentamente conselhos do seu orientador.

O que deve conter no meu anteprojeto? Como devo estruturá-lo?

Normalmente você se inscreve no mestrado com um anteprojeto — um compilado de 12 a 20 páginas que reúne qual linha de pesquisa você escolheu, suas indicações de orientador, tema, hipótese, relevância da pesquisa, etc. Ou seja: você se aplica no mestrado já tendo em mente um projeto de pesquisa. Isso faz sentido porque, vamos lá, é o orientador que escolhe seus orientandos, certo? O orientador já tem todo um percurso de pesquisa, anos de estudo numa área específica e tal. O orientador escolhe orientandos que estão alinhados com sua pesquisa.

No edital da PUC-Rio do processo seletivo de 2017/2018, o anteprojeto precisou conter:

  1. Linha de Pesquisa e provável (eis) orientador (es). Na folha de rosto do anteprojeto o candidato deve indicar a linha de pesquisa de sua escolha, devendo apontar até 3 nomes de possíveis orientadores. É importante frisar que a adequação do projeto de trabalho aos interesses dos professores da linha de pesquisa escolhida será levada em conta na seleção dos candidatos;
  2. Tema de pesquisa;
  3. Problema de pesquisa;
  4. Hipótese ou questões norteadoras;
  5. Objetivos geral e específicos;
  6. Objeto da pesquisa;
  7. Relevância da pesquisa;
  8. Revisão preliminar da literatura pertinente à pesquisa;
  9. Métodos e Técnicas de Pesquisa;
  10. Sumário Preliminar;
  11. Bibliografia utilizada para a elaboração do projeto;
  12. Facilidades e oportunidades para a realização da pesquisa;
  13. Cronograma de desenvolvimento da pesquisa, considerando que a dissertação deverá ser estar finalizada até o 24º. mês.

Estes são termos bem técnicos de pesquisa, e precisei da ajuda do meu orientador para elaborar um anteprojeto conciso. O Gamba me indicou como referência o livro Fundamentos de Metodologia Científica da Marina de Andrade Marconi, que contém explicadinho o que é cada um desses itens, principalmente métodos e técnicas de pesquisa, que eu não fazia ideia mesmo do que é (long short story: pode ser análise, entrevista, questionário…). Também indico ler Como Se Faz Uma Tese do Umberto Eco (como já disse ali em cima) e A Arte de Pesquisar da Mirim Goldenberg. Estes dois últimos são livros fininhos que ensinam o básico sobre pesquisa acadêmica.

Como eu já tinha feito uma teoria de conclusão de curso robusta e sobre o mesmo tema do meu mestrado, aproveitei muito conteúdo, então não precisei criar um anteprojeto do zero. Ainda assim, demorei cerca de dois meses para lapidá-lo, e recomendo que vocês, sem um anteprojeto estruturado, tenham de 4 a 3 meses para elaborar uma boa proposta, tendo ajuda do orientador sempre que possível.

Como escolho a minha faculdade do mestrado?

Pergunta capciosa, pois engloba várias questões. Normalmente a nota de um curso pelo MEC reflete a produção acadêmica dos professores e alunos, sendo 5 uma boa média para faculdades com cursos estabelecidos.

De qualquer forma, é só uma nota, né? Daí recomendo pesquisar sobre a participação da faculdade dentro da sua própria área de atuação, e se o posicionamento dela está alinhado aos seus princípios e interesses na área. Em miúdos: é importante que a faculdade tenha um mestrado com uma linha de pesquisa (e um laboratório) que te interessa, pois você terá que fazer disciplinas do mestrado dentro (e fora) da sua linha de pesquisa.

Para deixar um pouco mais claro: a PUC-Rio é uma das melhores faculdades de design no estado, além de formar bons mestrandos e doutores (grande parte dos meus professores da UFRJ são mestres e/ou doutores formados na PUC-Rio) há décadas. Além disso, possui a linha de pesquisa chamada Comunicação, Cultura e Artes. Dentro dessa linha, há o Laboratório de Design de Histórias (Dhis) com foco em narrativa dentro do design, que é basicamente o tema do meu projeto: publicações híbridas e explorações projetuais em design. Perfeito pra mim, né? c:

Há também outros parâmetros importantes, como proximidade de casa, infraestrutura, enfim. Aconselho a pensar nesses fatores com cuidado, pois faz toda a diferença no cotidiano e na nossa qualidade de vida.

Como escolho meu orientador?

O orientador faz de um mestrado céu ou inferno. Sério mesmo. Então muita calma na hora de escolher seu Yoda.

Primeiro de tudo: procure por um orientador que tenha a ver com seu tema. Se você não tem nenhuma noção de onde encontrar um orientador, procure em faculdades bem conceituadas da sua cidade, as linhas de pesquisa delas e os orientadores por laboratório. A partir daí, procure por teses, artigos e livros assinados pelo orientador. Não precisa ler tudo com afinco, mas tenha em mente: se você achou interessante o que ele fala/escreve/defende, já é um bom sinal.

A partir daí, procure o email do orientador no site da faculdade (ou dê aquela stalkeada de leve no Google e no Escavador) e entre em contato com ele falando sobre sua vontade de fazer mestrado, o que você pretende estudar, e se vocês podem marcar uma reunião para se conhecer. Pronto! Já é meio caminho andado :)

Lembram que comentei acima sobre conhecer o orientador antes do processo seletivo? Isso é uma mão na roda pois assim você percebe se o seu projeto é de interesse do orientador, se as reuniões do grupo de estudo têm a ver com o que tu quer estudar, e (mais importante) se você e seu orientador se dão bem. É uma questão de sintonia mesmo, e que considero super importante, pois o mestrado é uma época intensa de estudo, e o orientador deve não só ser seu mentor intelectual, mas também um ombro amigo.

Por questões práticas, aconselho escolher um orientador que seja solícito, prestativo e disposto. É super importante ser orientado por alguém que responda suas mensagens no whatsapp, email, chat do Facebook.

Lembrando ainda que: é o orientador que escolhe o orientando, e não o contrário. No anteprojeto tive que escolher três possíveis orientadores em ordem de preferência para meu projeto e, no final, o Gamba Jr. (primeiríssima opção) me escolheu :)

Como é o processo seletivo?

Isso depende muito de faculdade pra faculdade. Primeiro de tudo: procure o edital do curso para entender como será seu processo seletivo. Imprima, leia, grife com marca-texto (sério!). Lá tem todas (ou grande parte) das informações necessárias para as etapas do processo seletivo. Linhas de pesquisa, etapas, documentação, enfim. Tudo que confere ao processo seletivo está lá. Ainda sim, você sempre pode mandar e-mail para a coordenação do curso que escolheu para sanar eventuais dúvidas :)

Na PUC-Rio o processo seletivo teve três etapas:

  1. Inscrição online no site da PUC-Rio | etapa eliminatória
    Inscrição via formulário e envio de documentos digitalizados (tais como: diploma de graduação, histórico escolar de graduação, curriculum vitae sob a forma de Currículo Lattes do CNPq. A primeira fase inclui também o pagamento da taxa de inscrição de R$70.)
  2. Prova de redação em temática de Design + Prova de língua estrangeira (Inglês) | etapa eliminatória e classificatória
    Neste dia entreguei também um curriculum Vitae sob a forma de Currículo LATTES do CNPq, Anteprojeto de Dissertação, foto 3x4, duas cartas de referências assinadas por dois professores antigos seus e um memorial descritivo resumido (máximo de duas laudas) apresentando minha trajetória acadêmica, profissional e pessoal. Logo mais explico sobre esses documentos e sobre a prova. :)
  3. Entrevistas | etapa eliminatória e classificatória
    Apresentação de 10 minutos em formato PowerPoint ou PDF sobre a proposta de pesquisa, seguido de discussão da banca. É disponibilizado computador e datashow pra isso.

Creio que os processos seletivos num geral englobem estas três etapas. Num geral, né? Sei de alguns mestrados (como em cursos de engenharia) com “apenas” uma etapa classificatória e eliminatória: uma prova ou uma entrevista. Nesses cursos você não precisa nem ter anteprojeto; você escolhe seu projeto de pesquisa no decorrer do curso. Enfim, cada faculdade tem seu jeito de selecionar os novos alunos, e para ter certeza você precisa ler o edital do seu ano.

O CR da graduação conta na hora de concorrer ao mestrado?

No processo seletivo da PUC-Rio, não. Isto não consta no edital, embora eu tenha que entregar o histórico da graduação como documento para inscrição preliminar. Talvez seja avaliado um possível perfil de aluno pelo histórico, mas esta sou eu supondo e criando teorias alternativas.

Creio que o CR é um fator de desempate apenas em editais que explicitem diretamente isso. Talvez em faculdades com um processo seletivo sem prova, apenas com entrevista, isto seja real.

Update (05/04) Lisieux Calandro me deu a dica de que um bom CR consegue bolsas de estudo em faculdades da Inglaterra. Então, se você está procurando um mestrado fora, melhor tirar esta dúvida o quanto antes via email de coordenação e leitura de requisitos para aplicação.

Meu curso não dá nota no TCC. Isso é um problema pra mestrado?

Não. Mesmo esquema do CR: este critério de avaliação não constava no edital da PUC-Rio, e por isso acredito que não tenha sido um fator decisivo para aprovação. Veja o edital da faculdade que você quer ser mestrando para ter certeza disso. Se não fala no edital, não precisa se preocupar. (pelo menos, é o que acredito)

Como foi a sua prova de design no processo da PUC-Rio? O que devo estudar?

Fiz uma redação de 3 laudas respondendo a pergunta “como o design pode beneficiar o Brasil levando-se em conta as mudanças no ramo na contemporaneidade?” (ou coisa do tipo). Esta redação deveria conter uma citação de um dos dois artigos de meia página redigidos logo após a pergunta da prova.

Parece algo bem geral — e é mesmo. Conforme o próprio edital de 2017/2018:

Na elaboração da prova de redação, o candidato deverá demonstrar:
• domínio dos mecanismos necessários à elaboração de um texto dissertativo-argumentativo;
• domínio da norma culta da língua escrita;
• conhecimento dos mecanismos articulatórios necessários à elaboração de um texto coeso;
• capacidade de desenvolver o tema de acordo com a questão proposta ;
• capacidade para selecionar, organizar, interpretar e estabelecer relações entre fatos e opiniões necessárias à construção de uma argumentação consistente, inteligível e adequada ao tema proposto.

Em suma, a prova da PUC-Rio avalia sua capacidade de argumentar e organizar ideias textualmente, o que é um preceito básico para escrever artigos e dissertações. Uma dica que meu orientador me deu na época foi: “se você puder exemplificar ou fazer referência ao seu projeto de pesquisa na prova, faça! vai ser um bônus”.

Uma dica pessoal minha é: na redação você tem que mostrar sua visão do poder do design; mostrar o que aprendeu em X anos de faculdade e o que defende enquanto designer. A redação conta muito pois mostra sua visão de mundo, então você tem que se destacar. Na minha prova falei de gambiólogos (tecnólogos da gambiarra hueeee), cultura maker, aprendizado da teoria pela prática e vice-versa, jeitinho brasileiro. Só de usar estes termos já mostra como eu enxergo a disciplina de design.

Como a prova não é exatamente como um vestibular da UERJ, a bibliografia que a PUC-Rio passou foi bem básica, ensinando retórica e argumentação. Ainda do edital do processo seletivo de 2017/2018:

ABREU, Antonio Suarez. A Arte de Argumentar — Gerenciando Razão e Emoção. Cotia: Atelie Editorial, 2005. 8 ed. 144 p.

INSTITUTO ANTONIO HOUAISS. Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. São Paulo: Editora Publifolha, 2009.

SODRÉ, Muniz; FERRARI, Maria Helena. Técnica de redação: os textos nos meios de informação. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

Novamente, estou falando sobre o edital da faculdade que estudo. Veja o edital da faculdade que te interessa o mestrado e fique de olho na bibliografia. Se o teor for parecido com o da lista da PUC-Rio, vai que não tem erro!

A prova de línguas, na PUC-Rio, é um artigo em inglês que deve ser respondido em português. Sim, respondido em português. Você não escreve em inglês na prova de línguas da PUC. Você pode levar consigo um dicionário para te ajudar também. Sei que em outras faculdades essa prova muda um pouco, podendo ser até uma tradução direta de um artigo em inglês. O que você tem que mostrar na prova é que compreende textos acadêmicos em outra língua (inglês, francês, ou espanhol). Normalmente esta prova é eliminatória e, portanto, não tem nota.

Quanto custa a mensalidade um mestrado? Quanto é a bolsa de um mestrado?

A mensalidade de um mestrado custa: zero reais. Isso mesmo: é gratuito. Quando descobri isso fiquei de cara no chão, porque né? Se você passar no mestrado, você vai ganhar bolsa, e isto significa: você não vai pagar para estudar. Porém, receber para estudar é outra questão. As bolsas positivas, como chamam na PUC-Rio, são oferecidas por classificação no processo seletivo. Os alunos do mestrado são todos bolsistas, pois não pagam para estudar; mas nem todos têm bolsa positiva.

Um adendo importante: normalmente você não pode ter nenhum vínculo empregatício para receber grana para estudar. Nem emitir nota fiscal como MEI. Ou seja: também não rola ser freelancer e receber bolsa para estudar. A bolsa oferecida aos alunos é de R$1.100 (valor em 2018), então vale a pena pesar seus gastos de vida e qual a sua melhor opção.

Ainda assim, há casos e casos. Depende muito da bolsa e da universidade essa questão de trabalhar e receber bolsa. O CAPES pode permitir que você assine carteira se já estiver ganhando bolsa, mas pelo visto a faculdade estabelece suas próprias regras.

Pessoalmente, levo em conta a realidade brasileira e que a única opção de renda para algumas pessoas é justamente a bolsa positiva.

Posso ter carteira assinada e fazer o mestrado ao mesmo tempo? É possível trabalhar e fazer mestrado?

Dependendo da faculdade, você pode ter carteira assinada e mesmo assim ganhar bolsa de estudo, mas considero isso exceção. As bolsas positivas de estudo servem justamente para manter o foco do aluno nos estudos, então a maior parte das faculdades não libera trabalho e bolsa positiva ao mesmo tempo.

Porém, é possível trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Um esquema possível é fazer horas flexíveis e receber proporcionalmente a estas horas. Ou fazer um banco de horas e repor seu horário gasto no mestrado. Algumas empresas liberam os funcionários para as aulas do mestrado também. Varia de empresa pra empresa, e é melhor saber o posicionamento do lugar que você trabalha antes de se aplicar para o mestrado.

Uma questão importante: é possível fazer em um dia todas as matérias de um semestre? Sim, mas você vai ter que abrir mão de algumas matérias que sejam melhor para seu projeto por questão de horário. Não dá pra ganhar de todos os lados nem fazer tudo ao mesmo tempo :( Infelizmente os alunos que trabalham não conseguem fazer 100% as matérias que mais querem, e por vezes têm que escolher aquela disciplina no final da tarde de quinta só porque o horário é menos ingrato.

Na PUC-Rio a maior parte das aulas é à tarde, de 13:00 às 16:00 ou de 16:00 às 19:00, por uma questão de disponibilidade de salas na faculdade também. Entretanto, já me disseram que é normal o horário do mestrado ser pela tarde. Sugiro, se for possível, conferir horários da grade do mestrado antes do processo seletivo.

Por que você decidiu um mestrado no Brasil e não um mestrado no exterior? Como decidir isso?

Basicamente por já ter um orientador sensa numa faculdade massa daqui do Rio. O mestrado na PUC era algo que eu já visava antes de terminar minha graduação, então nem cogitei outras opções.

A questão de estudar num mestrado lá fora, pra mim, estava muito atrelada a experiência que tive durante o intercâmbio na Holanda durante a graduação — que foi muito legal, mas me fez ter uma noção dos custos de morar em outros país. Estudar fora sem bolsa de estudos não é uma opção pra mim, ainda mais sem cidadania europeia. Qualquer curso na Europa cobra 10 vezes mais (literalmente) para quem não é europeu. Então um mestrado de 2 anos que custa 2 mil euros pra um holandês vai me custar 20 mil euros. RISOS. Não sei como é o esquema nos Estados Unidos, mas, como o ensino superior de qualidade costuma ser pago, os valores também devem ser altos.

Desde o Ciências Sem Fronteiras não sei outro programa de bolsa de estudos brasileiro que cubra tão bem os custos de morar lá fora. Os custos de bolsas Santander, Bradesco e Erasmus pagam parte dos gastos, e isso já é uma baita ajuda. Porém, pra mim, o ideal seria cobrir todos os custos de vida, contando aluguel, estudos e alimentação.

Ainda assim, meu irmão (que cursa engenharia, ou seja, outro rolê) conseguiu um mestrado lá fora com bolsa integral do governo francês simplesmente ao mandar email para a coordenação do curso (!). Então fica a dica: às vezes as oportunidades de bolsa vêm numa simples troca de email. Entre em contato com a faculdade estrangeira perguntando do sistema de bolsas, como eles aceitam estudantes estrangeiros, como é o esquema do visto, quais documentos enviar, enfim! Entrar em contato com consulados também é uma boa. Por exemplo, a Nuffic Neso Brazil sempre ajuda os estudantes sobre essa questão de bolsas para quem quer estudar na Holanda. (inclusive, eles são maravilhosos e super solícitos!)

Fora essa questão da grana, eu percebi que na Europa o mestrado tá muito conectado à graduação; e em muitas faculdades o último ano da graduação é considerado o começo do mestrado. A validação do diploma estrangeiro para um diploma aceito no Brasil é toda uma questão à parte que, apesar de não ser necessariamente difícil, é um processo que deve ser visto com cuidado.

Uma coisa que decidi para mim é: cogitar as chances e vantagens de um mestrado sanduíche, um ano feito no Brasil e outro ano feito no exterior. Esta também é uma opção válida para doutorado, onde as bolsas costumam ser maiores, pois né. Ainda não procurei a fundo, mas sei que existem opções viáveis, com bolsa de estudos, boas faculdades parceiras, enfim.

Meu conselho é: procure boas faculdades de pesquisa lá fora, veja as oportunidades de bolsa, e faça aquela stalkeada básica nos possíveis orientadores. Se o orientador parecer gente boa no Facebook e tiver um a linha de pesquisa legal, já é meio caminho andado. Faculdades estrangeiras costumam ser bem solícitas, então tire dúvidas sempre que puder! E o mais importante: ouça seu coração (breguíssimo dizer isso, mas é verdade). Se tu quiser estudar fora, não ignore essa vontade. Procure faculdades e orientadores alinhados à seu projeto de pesquisa e faça acontecer.

Update (05/04) A Lisieux Calandro, que fez Bournemouth University, Inglaterra, me deu a dica de que um bom CR na graduação pode garantir bolsas de estudo em mestrado na Inglaterra. Além disso, ela conseguiu um bom desconto também porque fez pagamento adiantado.

Qual a diferença de um mestrado profissional e um mestrado acadêmico?

Antes de entrar especificamente nestas diferenças, a gente precisa entender os tipos de pós graduação que têm por aí. São basicamente dois tipos de graduação:

  • Lato sensu: expressão em latim que significa “em sentido amplo”. Neste tipo de pós o aluno conquista um certificado de conclusão de curso que é muito valorizado pelo mercado, mas não é um título de mestre ou doutor. Este é um tipo de pós indicada para quem quer desenvolver habilidades específicas para aplicação prática na vida profissional. A especialização serve para atualizar conhecimentos. MBAs são lato sensu, por exemplo. A duração mínima é de 360 horas, e costumam durar 18 meses.
  • Stricto sensu: expressão para “sentido estrito”. Conforme o MEC, as pós-graduações stricto sensu compreendem programas de mestrado e doutorado com carga horária de 1200 horas. São pós direcionadas para construir carreiras de pesquisadores ou professores universitários — apesar disso, às vezes é possível lecionar em instituições de ensino superior com curso de especialização também. Além disso, o aluno não precisa necessariamente ter cursado um lato-sensu para iniciar um mestrado. No doutorado, devido à complexidade de escrever uma tese, normalmente é exigido que se tenha cursado anteriormente um mestrado. Ao final do curso o aluno obterá diploma.

Dito isso, vamos às diferenças entre mestrado acadêmico e mestrado profissional. Ok, o mestrado, qualquer um dos dois, exige que o aluno pesquise. Ok, ambos são stricto sensu conforme o Capes, mas e daí? Como decidir entre um ou outro?

O mestrado acadêmico prepara um pesquisador e professor, que muito provavelmente continuará sua carreira no doutorado e pós doutorado.

O mestrado profissional enfatiza estudos e técnicas diretamente voltados ao mercado, e à um desempenho de alto nível para qualificação profissional.

E é isso. O mestrado acadêmico e o mestrado profissional têm graus idênticos, inclusive nos dois você recebe um diploma que permite exercício da docência em ensino superior público e privado. Você pode também continuar no doutorado após o mestrado acadêmico ou mestrado profissional.

“Ok, mas então como decidir qual eu faço?” Li pela internet que o mestrado profissional é mais indicado para pessoas com alguma vivência de mercado, pois assim poderão dialogar melhor no mestrado com o que aprenderam no mercado de trabalho. Ou seja: se você se formou há pouco tempo, talvez seja melhor esperar mais um pouco para entender exatamente o que, na sua área profissional, vale a pena a ser estudado no mestrado.

Você considerou fazer mestrado profissional?

Não, porque uma das minhas metas de vida é ser professora de universidade e pesquisadora, e o caminho “mais certo”, por assim dizer, para isso é através do doutorado acadêmico, que costuma vir depois do mestrado acadêmico. Embora meu tema de pesquisa esteja ligado ao mercado editorial brasileiro, o viés teórico é o que pretendo focar nestes próximos dois anos.

Como é a estrutura de aulas de um mestrado? É muito diferente do ritmo de graduação?

Assim como a graduação, eu tenho que fazer um número mínimo de créditos (24) durante esses dois anos, contendo disciplinas obrigatórias e eletivas. Os alunos que possuem bolsa positiva devem ter necessariamente um estágio de docência no terceiro semestre, sendo esta disciplina opcional ao resto dos alunos.

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O primeiro ano contém disciplinas obrigatórias para entender 100% como se faz uma pesquisa em design. Nesta aula estamos apresentando nossos projetos para todos, e vamos aprender como lapidar cada proposta. No segundo semestre teremos aula sobre escrita acadêmica.

Daí, após o 1º ano, temos uma avaliação de anteprojeto para ter certeza de que estamos bem encaminhados para o último ano de mestrado. O 2º ano é voltadíssimo para escrita e desenvolvimento da dissertação, por isto tem esta preparação pesada de metodologia de pesquisa no 1º ano.

Além das aulas, eu tenho que me inscrever numa disciplina de orientação com horário livre. Basicamente, é quando: 1) eu encontro meu orientador para falar do meu projeto, e 2) temos encontro do grupo de estudos, com todos os orientandos de mestrado e doutorado e graduação do grupo do Laboratório de Design de Histórias (Dhis). Tudo isso totaliza mais ou menos 10 a 12 horas na minha semana (pelo menos neste semestre).

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Disciplinas disponibilizadas neste primeiro semestre de 2018.1 na PUC

Não são tantas aulas se comparado à graduação, mas são aulas cabeçudas, com muita leitura de artigos semanalmente. Semana passada tive que ler umas 80 páginas, e estamos ainda no começo do semestre. Ou seja.

O esquema das aulas eletivas é mais intimista, são menos de 10 alunos por professor. O professor apresenta um conteúdo novo a cada aula e comentamos das leituras que tivemos, tiramos dúvidas, etc.

Como sou nova no mestrado, não posso dizer exatamente se é o mesmo ritmo de uma graduação, mas até então tenho sido tranquilo. Talvez seja um ritmo mais introspectivo, por assim dizer. Sei que estou gostando bastante, e muito feliz de voltar a estudar e aprender tanta coisa nova c:

Sei que este ficou loooooooooongo. Tentei ser o mais cuidadosa e detalhista possível, pois sei que, nessa fase de grandes decisões, quanto mais informação, melhor. De qualquer forma, sei que não tirei todas as dúvidas e com certeza posso fazer adendos ao texto com ajuda de quem tem mais vida na área acadêmica. Se você, pós doutorando, chegou aqui por mero acaso do destino, peço que me ajude com sugestões de como melhorar mais e mais este texto. Juntos somos melhores, né? c: E os futuros mestrandos (e mestres!) agradecerão ❤

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Designer witch e ilustradora porradeira ✨ www.paulacruz.com.br

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