“Será que eu estou te ajudando ou matando de vez?” — perguntava-se toda vez em que regava aquela muda. Mas não se demorava nesse pensamento. Logo voltava a se concentrar em alguma outra parte da sua vida, que estava cada dia mais difícil de controlar.

Presente de casa nova no dia da mudança. Foi assim que a planta parou na vida dela. Pelas mãos de um amigo, que sabia que ela se importava em ficar perto de coisas naturais e que, morando num apartamento no centro, isso ia se tornar cada vez mais difícil. Ah, como ela ficou feliz. Sempre quis ter uma suculenta, afinal são resistentes. Companheira perfeita para alguém tão avoado. Parecia uma rosa bem volumosa, só que esverdeada. A cor fazia lembrar de quando viajou de trem e tudo que se via pela janela era a mata. Só ela, o balanço do vagão e a natureza. Calmaria. Parecia uma boa sensação para se ter dentro da própria casa.

Com a plantinha do lado, foi procurar ajuda na internet para tentar entender tudo o que podia sobre aquela espécie. Descobriu que não precisava de muita água, mas sim de muita luz. Carinhosamente a apelidou de Su. Decidiu então colocá-la em seu lugar preferido da casa: a janela da cozinha. Assim poderia lembrar de regá-la todo começo de semana. Era dali também que via a cidade acordar todos os dias enquanto preparava seu café e se divertiu com a ideia de ter alguém para compartilhar suas divagações matinais. Relacionamentos românticos estavam longe de ser seu forte, portanto cuidar de um ser não senciente parecia se encaixar como uma luva em sua vida.

Foi assim a primeira semana. Passou rindo de si mesma por estar empolgada em trocar ideias com uma planta, mas ainda assim continuou fazendo. “Veja bem Su, depois de todo esse tempo, eu continuo andando de meia branca no chão. Mesmo sendo eu quem esfrego. Tem coisas que a gente não aprende mesmo, né?” e ria sozinha, como se estivesse compartilhando com uma amiga de longa data. Falavam — ou, ao menos, ela falava — sobre o tempo, a vizinha barulhenta, o sentido da vida. Trocava conselhos com o seu próprio eu, materializado ali naquela planta. Todo e qualquer assunto era sempre recebido com o mesmo otimismo verde. Aos poucos criaram intimidade, como aquela de um casal que está há anos junto e já nem fecha mais a porta do banheiro. O conforto com a planta cresceu junto com o conforto com a casa nova.

Mas é justamente nesse momento que a vulnerabilidade aflora.

O grande problema de falar as coisas em voz alta é que as tornavam reais demais. Pesadas demais. E foi esse peso que a puxou como âncora para o chão. Tudo do que tentava fugir a alcançava ali, justo naquele momento. A planta que antes parecia sua amiga, se tornou um olhar desconfiado que a julgava fútil, infantil, inconsequente. Inútil. E ela já não falava mais. Engolia a seco tudo que a afligia. Não se sentia confortável dentro de sua própria casa. Se sentia vigiada, traída por sua própria empolgação. Todos os dias ao preparar o café, evitava contato. Quando lembrava, rapidamente enchia um copo d’água, regava a planta e ia para o cômodo seguinte. Começou com a cozinha, mas o sentimento de não pertencer logo se espalhou pela casa. Todos os cômodos pareciam a expulsar. E a planta, em resposta, ficava cada dia mais roxa. Ela não fazia ideia do motivo, só não queria ter que lidar com aquilo. Apenas desviava o olhar e fingia que era natural.

Ela nunca veio a saber, mas o grande problema foi, ironicamente, o Sol. Todos os dias, por cerca de 5 horas, ele ardia em cima do solo, o deixando ressecado e quase morto. Sua regra de regar uma vez na semana não era nada para uma planta que vivia sedenta. E nesse casa, sedentas eram as duas. Dia após dia, seguiam sem o que necessitavam, cada vez mais secas, cada vez mais longe de salvação.

Assim como a plantinha apodrecia na janela, apodrecia ela, dentro de si.

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