Ivy Lynn e a desconstrução do estereótipo Marilyn Monroe em Smash

Resumo: análise de como a personagem Ivy Lynn se despe do estereótipo de Marylin Monroe ao longo da série e se mostra um personagem muito mais complexo do que parecia ser no início.

A série Smash (Theresa Rebeck, 2012–2013) nos apresenta os bastidores de um musical da Broadway inspirado em Marilyn Monroe e sua vida e carreira. Logo nas primeiras cenas somos apresentados a duas personagens, Karen Cartwright (Katharine McPhee) e Ivy Lynn (Megan Hilty). As duas são cotadas para o papel de Marilyn.

Desde o princípio é possível perceber, desde a forma como fala até a forma como se veste e se porta, que Ivy não apenas é perfeita para o papel como parece ser uma personificação contemporânea da própria Marilyn. Mas, apesar disso, o diretor do musical não parece achar que Ivy seja perfeita para o papel, uma vez que ele acha que ela estaria forçando demais a semelhança com a Marilyn.

A partir disso, começamos a ser apresentados a números musicais solos de Ivy, que nada têm a ver com o musical da Marilyn. Todos esses números são de músicas cujas letras se encaixam perfeitamente no que a personagem tem passado em sua vida pessoal. São números intimistas, bastante diferentes dos números que ela apresenta para o musical, que normalmente envolvem dançarinos e outros atores. São momentos de reflexão da personagem, e em todos ela aparece essencialmente sozinha.

Vejamos o primeiro número. Se trata do segundo episódio, “The Callback” (1.02), onde ela recebe a notícia de que ganhou o papel de Marilyn no musical. Ela está comemorando com os amigos quando um deles pede pra que ela cante uma música. Logo na escolha da música já podemos perceber o tom pessoal da apresentação. Se trata de “Crazy Dreams”, da cantora Carrie Underwood, que tem uma letra que fala sobre superação e realização. Ivy é uma garota que já está na Broadway há muito tempo, mas esse se trata de seu primeiro papel principal. Podemos perceber que ela está sozinha no palco, e apesar de todas as pessoas que a assistem, esse é um momento muito pessoal.

No segundo número musical, do episódio “Chemistry” (1.06), Ivy teve problemas na garganta e com isso corre o risco de perder seu papel para Karen. Ela toma remédios para melhorar e em algum momento testa sua voz, mesmo sendo contra esse tipo de medida.

https://youtu.be/KXwer_fsycs

Temos uma Ivy fragilizada, sozinha, cantando uma música que fala de como você deve se manter fiel a si mesma, enquanto faz de tudo para se recuperar. A música é “Who You Are”, da Jessie J.

No terceiro número, do episódio “Understudy” (1.10), ela acaba perdendo o papel para Karen. Além disso, ela começa a achar que o diretor (com quem está saindo) está interessado em Karen. No momento em que ela vê os dois entrando no prédio para ensaiar, abraçados, ela canta “Breakaway”, da Kelly Clarkson. É uma música que fala das dificuldades em se alcançar o que se deseja e no desejo de se libertar. Ela está sozinha na rua enquanto imagina como sua vida poderia ser se tudo estivesse dando certo.

No quarto número, do episódio “Tech” (1.13), Ivy descobre que está sendo traída pelo diretor com uma das atrizes. Ela vai para uma festa do elenco de comemoração e lá eles pedem que ela e Karen façam uma competição de vocais. Ivy então canta “I’m Going Down”, de Rose Royce, que é uma música que fala de corações partidos. Nesse momento, mesmo estando rodeada de colegas, Ivy aparece sozinha em seu sofrimento enquanto canta a música.

O primeiro número musical solo de Ivy na segunda temporada, quinto na série, acontece logo no primeiro episódio, “On Broadway” (2.01). O espetáculo Bombshell não vai pra frente e Ivy começa a fazer novas audições. Em uma das audições ela canta “Don’t Dream It’s Over”, de Crowded House, onde ela claramente demonstra como não gostaria de que o musical tivesse acabado, enquanto somos transportados para o que os outros personagens estão fazendo.

https://youtu.be/r4Ap8YrlZmk

Nessa temporada temos mais um número musical de Ivy, no episódio “The Dramaturg”, onde ela canta “Dancing On my Own”, da Robyn, enquanto assiste o ensaio de Bomshell. Nesse momento ela não está mais vinculada ao espetáculo e só está lá a pedido do diretor. Enquanto canta, ela imagina como teria sido continuar no musical e pensa no diretor. Nesse momento, mesmo estando em uma sala cheia, é isolada pela iluminação de modo que pareça sozinha, o que acaba cabendo perfeitamente na música.

No último momento musical de Ivy na série, no episódio “The Nominations”, ela acabou de descobrir que está grávida. Ela também está no meio das apresentações de Bombshell na Broadway e não tem pra quem contar o que está acontecendo. Ela canta a música “Feeling Alright”, da banda Traffic, sozinha em seu quarto, na qual repete diversas vezes que não se sente bem.

Nos sete números apresentados podemos perceber os conceitos utópicos expostos por Richard Dyer em seu texto “Entertainment and Utopia”. Os dois conceitos são intensidade e transparência.

Durante toda a série vemos uma Ivy que se mostra forte e inabalável, e faz questão de que todos saibam que sua vida é perfeita. Com exceção dos momentos musicais citados acima, onde ela aparece frágil e em contato com todos seus sentimentos.

O conceito utópico da intensidade se aplica nesses momentos quando vemos que Ivy sente tudo muito profundamente, e apesar de não demonstrar isso para as outras pessoas, sofre muito com as coisas que lhe afetam. Tudo isso é demonstrado em cada um de seus números musicais. Segundo Dyer,

O que eu tenho em mente é a capacidade do entretenimento de apresentar ou sentimentos complexos ou desagradáveis (ex. envolvimento em momentos pessoais ou políticos, ciúme, perda de amor, derrota) de um jeito que faz com que eles pareçam descomplicadas, diretos e vívidas, não “quantificados” ou “ambíguos” como o dia-a-dia faz com que pareçam, e sem intimações de auto-depreciação e prevenção.

O conceito utópico de transparência se aplica nos mesmos momentos, visto que Ivy é sempre muito sincera consigo mesma sobre o que está sentindo, apesar de tentar mascarar tudo das outras pessoas para manter seu status de mulher forte e bem resolvida. Dyer, em seu texto,

Ambas intensidade e transparência podem ser relacionadas a temas mais abertos na cultura, como autenticidade e sinceridade, respectivamente.

Marilyn Monroe, durante toda a sua vida e carreira, sempre se mostrou como uma mulher forte e decidida e um símbolo sexual de sua época. Era exemplo de sensualidade e objeto de desejo. Para todos, Marilyn tinha a vida perfeita. E isso era retratado em seus filmes e nas manchetes que protagonizava. Não havia nada de errado com aquela mulher, ou era o que ela tentava transparecer. Até o momento em que foi encontrada morta após se suicidar em sua casa.

Na série Smash, temos a personagem Ivy Lynn como sendo a personificação contemporânea da própria Marilyn, tendo sua vida pública sendo retratada para as outras pessoas como a vida perfeita, e sua vida particular sendo tão conturbada quanto possível. A diferença é que seus problemas pessoais são resolvidos pelas soluções utópicas de transparência e intensidade, que fazem com que seja mais fácil para Ivy aguentar as pressões de sua vida.

Referencias:

DYER, Richard. Enterteinment and Utopia. In: COHAN, Steven. Hollywood Musicals: The Film Reader. Londres: Routledge, 2001. P. 19–30.

BANNER, Lois. Marilyn: The Passion and The Paradox. EUA: Bloomsbury, 2013.

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