Uma análise de um iPhone 6 sob a ótica de um usuário de Android

Ricardo Alvim
Sep 4, 2018 · 11 min read

Quando eu conversei com amigos que eu tinha tomado a decisão de comprar um iPhone, alguns deles ficaram espantados. Não por menos. Eu, um usuário de Android desde 2011 e defensor do modelo da plataforma do Google e bastante crítico sobre certos aspectos do iOS, comunicar uma mudança tão radical, deixou alguns impressionados com a notícia. E é justamente isso que irei falar neste post de inauguração do meu profile do Medium.


Unboxing: o início

iPhone repousando em sua caixa (feat Giulia ao fundo)

Está certo, porém eu comprei um telefone usado (com alguns anos de uso, mais especificamente 4) e o dono anterior teve o cuidado em preparar a caixa do dispositivo da maneira que ele tirou da caixa em 2014.

Essa parte, apesar de parecer boba, demonstra não só o cuidado da Apple em como entregar o dispositivo, mas também de seus usuários de passar adiante a sua experiência — talvez algo único entre usuários da maçã. E creio que seja por isso que, por mais que seja um telefone datado, ele ainda surpreende alguns.

Na caixa, o essencial, o telefone estrategicamente posicionado na parte superior da caixa, bem como fone de ouvido (ainda com fios) com seu clássico desenho intra auricular e o cabo para conexão lightning. Some isso aos manuais e a organização impecável da caixa. É o que se espera de um telefone que já foi um dia o topo de linha de uma marca.

Nas especificações, tendo eu, um usuário de Android como avaliador, não impressiona e nem irei tomar a liberdade de coloca-las aqui (você pode consultar as mesmas no GSM Arena, clicando aqui) e veremos adiante o motivo. Além disso, o iPhone 6 é menor que o meu Moto X Force e ligeiramente mais fino.

Ao tirar da caixa, liguei o dispositivo e para a minha surpresa, ao contrário de anos atrás onde era necessário conectar o iPhone/iPad/iPod em um computador com iTunes e configurar o mesmo, agora a experiência é similar a um… Android. Minha única crítica aqui é sobre o aplicativo de migração Android para iOS que apresentou diversos bugs e não consegui migrar. Simplesmente desisti e comecei do zero.

Aqui as coisas ficam um pouco complicadas, pois, a última vez que usei um dispositivo iOS eu possuía duas duas contas Apple com aplicativos. Todavia, além de não ter o que restaurar (não havia na época do iOS 6 um backup completo em cloud como hoje), muitas aplicações simplesmente sumiram da minha conta. Motivo? Não sabemos.

Mas agora, vamos para uma abordagem mais tradicional, avaliando ponto a ponto e apresentar minha opinião: vale um iPhone 6 em 2018 para um usuário Android? Para isso irei explorar alguns pontos que considero relevante.

Sistema Operacional

O iOS é um sistema bem dimensionado para a proposta da Apple de um smartphone focado em usabilidade e estabilidade em um universo totalmente controlado pela Apple. Contudo, não sei se é pela razão que o iOS incorporou muitos itens do Android, vejo que apesar disso, o sistema não é muito diferente que eu usei lá no iOS 6 no iPod Touch da minha irmã lá em 2012. Talvez a mais notável diferença foi a adoção de um sistema de notificações centralizado (falarei mais sobre ele adiante) e uma interface mais flat.

Tela inicial do iOS 12 — nada de novo aqui

Me surpreendeu sobre a redução de dependência do iTunes. Até agora não senti a menor necessidade em sincronizar o mesmo em meu computador. O serviço do iCloud é limitado em espaço na versão gratuita, mas funciona razoavelmente bem. As funcionalidades da Apple são bem integradas no sistema, mas percebi que a integração entre aplicações tem um certo aspecto de “adaptação técnica”, explico o motivo: o iOS no começo de sua vida, sequer tinha uma multitarefa de fato e isso é importante para a comunicação entre aplicações, as aplicações eram pausadas e ao chama-las novamente, dependendo da implementação, era retomado o uso da mesma.

Posteriormente, no iOS 4, houve a adição para os modelos 3GS e 4 (que vinha com esse sistema) a multitarefa do sistema com uma aplicação de troca de aplicações. Funcionou bem com aplicações que atualizaram para a novas API da época e funciona ainda melhor hoje. Nesse aspecto, diria que as aplicações e o próprio sistema evoluiu. Contudo, pelo que pude pesquisar, a comunicação entre aplicações é recente. E em um mundo onde aplicativos comunicam entre si, principalmente em serviços de autenticação, em certos momentos, o carregamento de páginas web para carregamento de páginas e outros acertos finos, demonstram que o sistema ainda pode evoluir.

Qualquer aplicação que eu testei, mesmo com os parcos 1 GB de RAM do meu iPhone 6, funcionaram com maestria na maioria dos aplicativos simples de comunicação de redes sociais, música (leia-se Deezer) e afins, mesmo com joguinhos simples (leia-se SimCity) percebi que o sistema segura bem a performance e telas de carregamento não são frequentes. Lags ocorrem, mas são ocasionais e só passei a ter os mesmos após semanas sem nenhum reboot, embora não precisei forçar desligamento e nem reiniciar o sistema por causa de problemas provenientes de aplicações travadas ou de outros problemas com o SO. A integração com o TouchID é muito boa, mesmo em situações adversas (chuva/umidade, graxa e etc) e é relativamente rápida. A Siri ainda precisa evoluir na interatividade para chegar no nível do Google Assistente, ao menos usando o Português como base. Ao meu ver, faltam recursos realmente relevantes para uso diário — ao menos para meu perfil de uso.

Quando comparo a performance do iPhone 6 (de 2014) com meu Moto X Force (de 2015), percebo que o conjunto da Apple funciona melhor pelas otimizações da maça e principalmente, pela arquitetura do sistema. No iOS temos um núcleo do tipo microkernel, com módulos isolados que compõem os demais recursos do sistema, derivado do macOS (de 2001), que por sua vez é derivado do XNU (de 1996) e o NextSTEP (de 1989), este último por sua vez tem origem no Mach (de 1985). Contudo, esses módulos e camadas de sistema são rodadas diretamente sob o hardware — não havendo uma virtualização de chamadas ou de uma maquina virtual como no Android.

Mas para quem acha que a tecnologia não evolui e não permite evolução de sistemas antigos, fica ai a prova: o macOS tem uma plataforma de quase 30 anos que funciona muito bem e apresenta recursos modernos — e pode ser considerado um sistema operacional moderno. Isso me lembra outro dia, que vi em um site automotivo um comentário dizendo que se assim como os sistemas operacionais — que supostamente não tem adesão ao consumidor sistemas de bases antigas, isso acontecesse com plataformas veiculares, o mercado seria melhor (e todo o clichê plataformista).

Aqui no iOS (e de certa forma, com o Android e o Windows) vemos uma plataforma “antiga”, mas modular ao ponto de não ficar defasada (devido em muito ao estilo arquitetural destes softwares), embora que cada uma delas possui suas próprias particularidades. Dependendo da construção de um software, podemos associar o tempo de evolução do mesmo com um nível de maturidade onde não é prudente mudanças bruscas, pois a mesma está em um estado “estável”.

Já no Android, temos um sistema que, poderia ser resumido como uma distribuição Linux (ou seja, assim como o iOS, é um sistema operacional UNIX-like), com uma API bem definida, sustentada por uma máquina virtual Java, que hoje é a Dalvik. Também funciona muito bem, contudo possui uma outra abordagem que não irei detalhar aqui (o farei em outro momento), mas, o fato das aplicações rodarem nativamente e serem forçadas pela Apple a manterem uma boa performance, tem impacto positivo para o usuário.

Experiência de Uso

Fala-se muito sobre sobre a facilidade de uso do iOS, porém eu acho a mesma relativa. Ele é um sistema simples se for a sua primeira experiência com um smartphone — um perfil de usuário cada vez mais raro hoje em dia. Contudo, eu diria que o iOS oferece uma experiência consistente para quem o usa por muitos anos a fio. Talvez seja o telefone ideal para pessoas de mais idade.

Se fosse estabelecer um ponto de crítica sobre o sistema, eu o farei em um ponto que já foi destaque no mesmo: o sistema de notificações. Talvez seja por experiência do Android, mas considero a solução do Google muito superior, como por exemplo, ao responder uma mensagem do Whatsapp/Telegram/Messenger. O teclado ocupa toda a tela e possui um efeito blur meio desnecessário, não há uma imagem do usuário associado. Outro ponto de crítica é a forma de apagar as mesmas, já que no Android, um swipe na mesma de um lado ou para o outro tem o mesmo efeito: limpar a mesma. No iOS, além do agrupamento por data, ainda tem funcionalidades diferentes o swipe, sendo conforme o contexto: pode servir para apagar a mesma ou então para realizar algum acionamento de alguma funcionalidade.

Sistema de notificação do iOS — poderia ser melhor

Ok, é um outro conceito, mas ainda assim é estranho. Eu poderia dizer o mesmo sobre o botão voltar, que fica em uma posição clássica no sistema (no canto superior), mas que é pouco ergonômico mesmo em uma tela pequena como do iPhone 6. Mas, felizmente, há a possibilidade de em algumas aplicações, de fazer um movimento de swipe para o lado correspondente ao botão de retorno, para voltar a tela imediatamente superior. Conceito diferente, mas funcional.

Além disso, a beta do iOS 12 funciona muito bem, mesmo com o bug de atualização na beta 9… Contudo aqui, não sei avaliar se os ganhos anunciados pela Apple são reais, pois, fiquei pouco tempo no iOS 11 e em nenhuma das versões notei lentidões ou problemas graves.

Conectividade

Para quem não conhece/não se lembra, um aspecto que levo em conta em meus telefones é o uso de música e comunicação com outros devices. Nada sério, é apenas meu simples fone bluetooh da Pioneer e o meu auto rádio Sony (um MEX-N5150BT) que equipa meu modesto Fiat Palio Mk1 (cujo ambos irei avaliar aqui no momento certo — principalmente o último, em fase de sucessão). Em ambos os casos, a boa conectividade da Apple funciona bem. O fone Pioneer funciona com conexão rápida, ligeiramente mais rápida que em meu Moto X, além do bom funcionamento dos botões, mas o que é bom mesmo é o processamento de áudio que apresenta um bom equilíbrio de qualidade de som.

Já a conexão com o som Sony, demonstrou ser superior ao Android (não sei se por refino da Sony ou algum problema com a custom ROM de meu Moto X): basta virar a chave do carro e temos uma conexão praticamente instantânea com o iPhone — no Moto X as vezes era necessário forçar a conexão. O atendimento de chamadas é bom e o funcionamento com a Siri é o que se espera: just works.

Me parece que, aqui a integração de APIs é melhor no sistema da maça. Contudo, essa impressão eu tinha anteriormente com o meu velho Alpine CDA-117 e o iPod 4th gen.

Infelizmente no iOS não pude testar o NFC e pelo manual do Sony, não há suporte ao mesmo no universo da Maça, apenas a integração com o SongPal.

Câmera

Aqui temos um ponto que os iPhone sempre se destacaram, não por enormes sensores, mas por otimizações de software. Contudo, achei os resultados apenas normais e não muito melhores que o X Force (pelo contrário), sendo basicamente o mesmo o resultado: de dia bom e de noite com muita granulação. Segue alguns exemplos abaixo:

Minha vista noturna de Londrina (ou um pedaço dela)
Um pouco menos de ruído vemos por aqui…
Durante o dia, pouco ruído na imagem de uma tarde bucólica em Assis
Uma imagem interna com um pouco menos de iluminação, logo após a instalação do volante do Marea no Palio (não quebrou, ainda) e o iPhone conectado no Sony durante a foto. Detalhes poderiam serem melhores na foto que ficou com uma tonalidade branca muito forte. Veja a escrita do “airbag” pobre em detalhamento.
Um dia frio em Assis com vista para o MAPA — Museu de Arte Primitivista de Assis
Céu fechado e com neblina em Assis — as imagens continuam aceitáveis (e nesse caso, impressiona)

Como imagens valem por mil palavras, a legenda da foto fica por conta de vocês ;D

Considerando que estamos falando de um sensor antigo de apenas 8 MP (o que demonstra que números não significam muito), temos um resultado razoável e condizente com o que havia com os telefones de sua época.

NOTA: Todas as imagens acima são da câmera traseira, se vocês quiserem, pode sair algumas da dianteira, porém acho que ai ficamos limitados a… selfies.

Bateria

Aqui complica para o iPhone, em meu uso normal (apenas aplicativos de mensagens, 4G e música) e a duração é de apenas 6 horas da tomada. Está certo, é um telefone antigo, mas essa duração é pífia, de longe o pior telefone que tive nesse sentido (e tive vários, inclua nessa lista: o W375 da Motorola; o Nokia 1616; o Samsung Galaxy Mini; o Motorola Defy Plus; o Xperia U; o Motorola RAZR D1; o Motorola Moto G 2013, o Motorola Moto G 2015 e claro, o Moto X Force). A Apple bem que poderia melhorar a bateria dos iPhones, já que não há razão para torna-los mais finos — já considero o 6 fino o bastante.

Mas, quando lembramos que é um uso básico de um usuário moderno, é bastante decepcionante pensar que estamos falando de um telefone que não consegue chegar a um dia fora da tomada. Então, se você considera um iPhone 6, prepare-se para ficar com o carregador por perto.

Considerações finais

Se você não se preocupa com um dispositivo sem pretensões performáticas (afinal, é um projeto antigo), não se importa com um sistema fechado (como o iOS sempre foi) e com um aparelho datado (talvez essa seja a última atualização do iPhone 6) mas quer um telefone estável, confiável (do ponto de vista do conjunto) e com boa performance (considerando a idade do mesmo) mesmo pagando valores entre 950–1400 reais dependendo do modelo/estado/configuração (desconsidero aqui um novo, pelo custo elevado), talvez seja a opção mais viável de começar no iOS gastando “pouco”. Se você procura por um pouco mais de performance (e recursos), talvez seja melhor pensar em um iPhone SE (que embora tenha uma tela pequena, tem hardware superior) e se quiser algo menor que o 6, mas gastando ainda menos, talvez compense ver o 5S (que usa o mesmo hardware — mas é ainda mais antigo) usado, mas ai, só compensa se for gastar bem menos. Já se quiser algo mais moderno, talvez possa valer a pena ver o iPhone 8 que possui o mesmo tamanho de tela, mas mais performance, contudo custando entre 3,3 mil e 3,8 nos modelos de 64 GB (novos). Dependendo do seu perfil de uso, talvez possa valer a pena ter um custo inicial elevado, mas que acaba se pagando com o passar dos anos pelo longo ciclo de vida dos iPhones.

Agora, se você prefere um mundo mais livre e com mais equilíbrio de qualidades de sistema, é melhor conferir um… Android.

Notas:

Desempenho: 4 de 5 estrelas

Câmera: 3 de 5 estrelas

Armazenamento (versão de 64 GB): 5 de 5 estrelas

Preço (pago aqui R$ 1000) vs benefício: 4 de 5 estrelas

Experiência do sistema: 4 de 5 estrelas

Bateria: 2 de 5 estrelas

Conectividade: 4 de 5 estrelas

Nota final (3,71): por ser um decimal, arrendondarei aqui a nota final para 4 de 5 estrelas

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