As lambretas de Tio Elizeu

Tio Elizeu era harleyro. Curtia rockão e bluesão das antigas, Zeppelin, Clapton, mas também o metal. Figurino: quando usava blusa, era de banda, de caveira. O abraço no Tio Elizeu arranhava, por conta do anel de águia no mindinho — que de quando em quando ficava mais pontiagudo, em formas de caveira, espinho, espalhando-se por outros dedos.
Apesar do aspecto urbano, Tio Elizeu era do litoral, da pescaria, da praia e, sobretudo, da cerveja. Foi ele que me ensinou o café da manhã dos fortes: pargo frito com uma stout gelada detrás do mercado de pescados de Mucuripe. Morava havia décadas na capital cearense, mas a postura era de paulistano, embora goiano. A estética do Tio Elizeu formou parte do adolescente metaleiro que havia em mim.
Na minha fase adulta, Tio Elizeu se tornava meu mentor culinário. Sobretudo no trato com frutos do mar, me fazia raspar escama e retirar entranha de peixe. Chegava de harley ao mercado de pescado. Pés descalços. A sola do velho era mais resistente que botina, aguentava todo tipo de calor, pedra e sei mais lá o que por onde andava, fosse areia ou asfalto. Balde na mão e vamos escolher as lambretas.
Vivos, esticando as extreminades gelatinosas para fora das conchas, a lamber a salmoura da água do mar, os mariscos devem ir pra panela ainda vivos, fresquíssimos. "Bora, seu merda, começa a picar esse coentro e esse manjericão. Depois a pimenta dedo-de-moça". Elizeu era debochado e desbocado até na hora de dar uma ordem. Eu só fazia rir.
Coentro e manjericão. Tio Elizeu misturava tudo, referências da cozinha nordestina com italiana. Meta uma folha de louro, alho pra dar com pau, e tomate amassado. Vinho branco. Levantou a fervura, era jogar tudo na panela, inclusive as lambretas. Ficaria pronto quando as conchas começacem a abrir.
Quase ninguém deu conta de comer. Tio Elizeu pesava a mão na pimenta. Ainda bem. Aprendi a usar o ardido com menos pudor com ele. Na sabedoria espontânea, ele invocava um dos aspectos mais importantes do paladar da cultura oriental: a picância. Sem moderação.
Como cozinhava bem Tio Elizeu. Estabanado que só ele. Agora, haja conversa e cerveja, porque o almoço só ficava pronto lá pras 15h e o jantar… sabe-se lá quando. Não me importava ficar na cozinha por horas com Tio Elizeu, o mundo perdia toda a caretice e a polidez.
Da última vez em que cozinhamos juntos, saiu um vinagrete de polvo, lula e vôngole indecente, espaguete com molho alla arrabiata com camarão e mais uma paella valenciana. Devolvi a ele minha receita de pulled pork. Clássico porco marinado e assado lentamente por horas a fio.
O objetivo era testar umas receitas em potencial para o food truck que ele queria botar pra rodar nas ruas de Fortaleza. O modelo de negócio, avisei, já não era o mais interessante para o momento. Mas Tio Elizeu era bruto, conseguiria tirar essa da cartola, claro.
Mas não houve tempo. Chegaram as netas, mudaram as prioridades. Há um mês veio o baque. Sintomas de uma doença que não se deixava diagnosticar direito. O homenzarrão de 1,9m, sombrancelhas fartas e riso fácil definhou. Acabou a graça, restam as lembranças.
