Inimigos do Estado

No último domingo, dia 30 de maio, houve mais um ataque de fazendeiros e seguranças dos mesmos conta os índios Gamela, no Maranhão. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, índios deram entrada no plantão médico com ferimentos a bala em diversas partes do corpo e dois com membros decepados.

No dia 20 de Abril, Rafael Braga foi condenado a 11 anos e 3 meses de prisão. Em 2013, Rafael Braga foi detido durante as manifestações de junho. Ele foi o único e carregava um frasco de desinfetante. Algum tempo depois foi preso novamente, por porte de drogas, culminando na condenação do último dia 20.

Hoje foi divulgado o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito FUNAI-INCRA 2. O que chama a atenção, fora a forma como homens brancos definem quem é índio e quem não, é como a causa indígena foi criminalizada nas mais de 3.000 páginas do relatório.

“organizadores, estrategistas, coniventes e instigadores das ações ilícitas, altamente perniciosas, criminosas, voltadas para invasões de imóveis rurais por indígenas em Mato Grosso do Sul, bem como pela participação, cumplicidade e auxílio na elaboração de estudos antropológicos falsos, visando a consideração de áreas como tradicionalmente ocupadas” — Trecho retirado do relatório

O relatório, que deverá ser encaminhado ao Ministério da Justiça, pede o indiciamento de centenas de pessoas, incluindo lideranças indígenas, antropólogos, diversos servidores da Funai, Procuradores da República, missionários, entre outros.

Mas qual a relação disso tudo? Tanto no caso dos indígenas, como no de Rafael Braga, fica evidente a estratégia do Estado de criminalizar movimentos de grupos vulneráveis e excluídos historicamente para desqualificar o discurso e, com isso continuar a opressão sistêmica. Rafael Braga é apenas mais um negro que teve os direitos violados. Apenas mais um na longa lista de atrocidades cometidas pelo Estado Brasileiro. 20 mil jovens negros são mortos anualmente, temos cerca de 373 mil homens negros atrás das grades, nos últimos 10 anos houve um aumento de 500% de mulheres encarceradas, sendo que 66% são negras. Esses dados deixam bem claro quem são os “cidadãos de bem” e quem é são os inimigos, em nossa sociedade.

Outro dia, zapeando pelos canais de TV, acabei parando no Brasil Urgente por alguns instantes. Sim, eu assisto todo tipo de lixo que a TV produz, para saber com quem estamos lidando. A repórter narrava um assalto sofrido por uma mulher e dizia que o ladrão não tinha perfil de bandido por ser loiro, com olhos claros e bem vestido. A vítima, ao ser entrevistada, disse que jamais imaginaria que pudesse ser roubada por ele. A mensagem passada, nesta transmissão, foi de que o “perfil” de um bandido é ser negro e não branco. É isso que se ensina nas escolas primárias, secundárias e universidades. É isso que é transmitido nos canais de TV aberta, em novelas e em propagandas comerciais.

Rafael Braga é apenas mais um inimigo do Estado, como eu e você, que tem seus direitos violados todos os dias. Eles, do alto de seus escritórios, gabinetes políticos, universidades públicas ou escolas particulares, sabem exatamente quem são os inimigos e, principalmente, como se proteger. E a principal forma de se proteger, pasmem, não é através da violência de grupos de extermínio ou brutalidade policial, mas desqualificando todo e qualquer discurso desses grupos e impedir que consigam se organizar socialmente e politicamente. Há tempos, negras e negros, lutam por representatividade. A representatividade é necessária em diversos áreas de nossa sociedade, mas temos cobrado sistematicamente, através de redes sociais e afins, somente aquela que diz respeito à mídia, produtos, moda e semelhantes, quando a representatividade que mais deveria importar é a política. Deveríamos ter o mesmo empenho para cobrar reformas políticas, cotas, participação ou o que quer que servisse para que os nossos decidissem sobre os nossos. Romper com a política ou com as instituições foi uma péssima estratégia, aplaudida de pé por aqueles que nos negam direitos, nos matam e nos encarceram todos os dias. Neste momento, onde tantos direitos têm sido destruídos e onde a intolerância deixa de ser exclusividade das redes sociais e chega até uma garota de 13 anos, assassinada com 4 tiros dentro de uma escola, uma mulher preta é arrastada pela rua em um camburão da PM ou até um homem preto que é condenado a 11 anos de prisão por conta de sua cútis, é momento de refletir sobre os rumos e estratégias de luta do movimento negro e, igualmente, dos grupos historicamente oprimidos.

Assistir a filmes e seriados que contam a história negra ou que apresentem uma perspectiva diferente é bom, é encorajador e motiva, mas nada além disso. O que muda é a organização. O que muda é a definição de objetivos e estratégias. O que muda é o engajamento. E não do engajamento no Facebook. As conquistas vindouras não se darão através de uma tela de computador. E o engajamento não será medido através da quantidade de likes ou hashtags. Enquanto tentamos convencer “gente branca” a assistir “Dear White People”, como forma de sensibilização ou empoderamento, Rafael Braga permanece preso. #LibertemRafaelBraga não servirá como prova nos autos. Mas a luta por democracia racial nas instituições, pode impedir que tenhamos outro Rafael Braga e outro e outro.