Almoços de Domingo

Capa do EP “Almoço de Domingo”

Acho que a memória mais vívida que tenho da minha avó foi o dia em que o Jamelão, lendário intérprete da Estação Primeira de Mangueira, faleceu. Minha avó era uma mangueirense ferrenha e lembro exatamente da reação dela quando eu contei: “antes ele do que eu”, ela disse com um riso leve. Sempre que me pergunto porque essa é a memória mais forte que tenho da minha vó me pego no meu labirinto mental, procurando por respostas que não existem. Minha avó me criou; eu vivo com meus pais, mas minha avó foi a responsável pela minha criação, como é em tantas casas do país, enquanto meus pais trabalhavam em mais de um emprego pra tentar me dar uma criação de classe média. Eu passei mais tempo com minha avó do que com minha mãe, pelo menos até o falecimento dela em 2014. Eu tenho centenas de memórias com ela, desde a imagem dela preparando almoço na cozinha, passando por ela sentada no quarto do meu irmão vendo novela, chegando na última memória que tenho dela, enfraquecida, calada, deitada numa cama de hospital. Pensando nessa última memória, talvez a ocasião do Jamelão faça sentido. Naquele dia ela estava feliz, assobiando, cantando, rindo, vivendo a vida leve que levava apesar de todas as dificuldades que enfrentou durante a vida. Acho que quando, no enterro dela, eu evitei me aproximar do caixão, quis gravar na memória a imagem do corpo sem vida dela dentro de uma caixa. Toda vez que escuto o EP “Almoço de Domingo”, do meu bróder Duvô sou confrontado com esses e outros pensamentos que permeiam não só minha vida familiar como muitas de minhas memórias de infância e principalmente minhas memórias de amadurecimentos ao redor do núcleo da minha família.

O EP consiste nessa pequena coleção de músicas que constroem um mosaico de sentido muito mais do que uma narrativa contínua, onde memórias se misturam com devaneios e versos e estrofes parecem existir tanto juntos quanto separados uns dos outros. Cada música me toca em particular de alguma maneira, cutucando memórias e sentimentos que geralmente estão enterradas dentro de mim. Se “Gota”, a track que abre o EP me lembra da minha vó (“o escorrer de forma lenta me fez pensar/no que a minha vó não tinha a me falar e escondeu de mim/durante anos), “Dominós” me fazem voltar à momentos do período de transição da minha adolescência pra vida adulta onde minha relação com meus pais se desgastava diariamente e em todo lugar eu via as pessoas postando suas felicidades em redes sociais enquanto eu me isolava mais e mais dentro de mim, meu quarto, minha depressão (o belo refrão da música canta “estou tão sozinho/sem tempo pra mim/vejo na timeline/dominós de marfim”). “Policromático” me lembra do dia em que a Kombi do Russo, que me levava pra escola todos os dias quando eu era novo demais pra ir sozinho, passou por dentro da comunidade das Três Pontes e eu vi pela primeira vez um corpo que não estivesse dentro de um caixão, maquiado e enfeitado para parecer vivo, perfurado de balas e a forma como isso moldou toda a minha visão de mundo desde então (“na porta de trás um cara morto/atravessando a rua/pelo o seu olhar eu via torto”). Os dois interlúdios, que são separadas por aquela que é minha música favorita do EP e um das minhas favoritas no ano, contam dois momentos distintos de uma mesma relação, de algo que você descobre e se encanta mas que rapidamente te consome e te domina (“ela me fez tão bem”, no primeiro, “ela me fez refém”, no segundo).

Mas é “Quintal” aquela que eu destaco. A música me carrega por todas as brigas que tenho e tive com meus pais, por todos os sentimentos, raiva, impotência, exaustão, tristeza, que praticamente duas décadas de convívio turbulento me trouxeram. Me recorda de todas as vezes que olhei pros dois com a certeza de que nunca nos entenderíamos, me recorda de todas as tentativas falhas de aproximação. Logo antes de terminar, me lembra dos almoços de domingo na casa da minha avó, que de alguma forma mágica suspendiam a realidade e me inseriam, por aquelas breves horas, no lugar mais feliz que eu já conheci. Meus olhos sempre se enchem de lágrimas, sempre; mesmo que elas não cheguem a cair. Mas são lágrimas que, mesmo que cheias de tristeza, me deixam bem, é algo que “me deixa bem… me deixa bem”, como ele mesmo canta no final da música.

Ouça o EP já disponível em todas as plataforma de stream: Spotify, TIDAL, Youtube, Bandcamp, Soundcloud, Deezer