Intolerável empiria: cirismo e haddadismo no divã eleitoral

Mesmo tendo tentado me colocar à parte da campanha eleitoral de 2018, na última semana acabei mudando de ideia e entrando em campanha para eleger Ciro Gomes. Como expus em meu perfil pessoal do Facebook, considero Ciro Gomes uma personalidade que ocupa um campo político com o qual não tenho afinidade e que tem companhias políticas no mínimo questionáveis, a começar por Kátia Abreu, vice em sua chapa. Porém, considero que Ciro há 4 anos tem rodado o mundo debatendo os rumos que o Brasil deveria tomar para se reestruturar econômica e politicamente de uma forma que recoloca questões centrais para o país, e isso é digno de admiração. Ao contrário da campanha de Fernando Haddad, Ciro não entra no debate público como penetra na “festa da democracia”, nem mesmo se porta como emissário de um candidato impossível. Ciro Gomes, por mais que eu rechace suas posições a respeito de temas sensíveis como modelo previdenciário, ainda assim tem feito algo fundamental, que é recuperar a ideia de que a política institucional pode, novamente, ser algo possível.

Embora este texto não seja exatamente sobre os porquês que embasam minha decisão de votar em Ciro Gomes, ele expressa como ciristas e haddadistas vêm agindo na reta final do 1º turno das eleições de 2018. Em resumo, trata-se de avaliar a forma da performance de ambos os grupos num cenário complexo e com grande dose de imprevisibilidade.

Tenho me manifestado muito criticamente a argumentos dos eleitores de Haddad, mas ainda acho que cabe insistir no tema. Para estes, muitas vezes trata-se de afirmar que não faz sentido votar em Ciro Gomes pois é Haddad quem mais tem intenções de voto no primeiro turno. Quando confrontados, porém, com as projeções de votos para o segundo turno em que Haddad corre sérios riscos de perder o pleito, muitos limitam-se a dizer que segundo turno é uma nova eleição e que o campo está aberto a disputa. Ou seja, há aí um princípio de seleção operante no aproveitamento político das pesquisas eleitorais que determina, pragmaticamente, o que deve ser tomado como dado consolidado e o que deve ser enviado ao campo do possível.

Ao lado disso, haddadistas contam também com a crença na transferência de votos de Lula para Haddad — algo que de fato se concretizou, mas que parece ter atingido seu limite nos últimos dias. Mesmo assim, importa reter aqui a percepção de que o potencial de “transferência” ou puxada de votos por parte de Lula é uma carta com a qual Dilma Rousseff contou em 2010 e 2014, e com a qual o próprio Haddad parece ter contado em 2012 na eleição que o consagrou prefeito de São Paulo. A “transferência” ou angariamento de votos de Lula é, assim, um efeito esperado a partir de situações passadas em que tal efeito funcionou eficazmente a partir de uma causa conhecida.

Tanto a economia do dado e do possível quanto a mobilização dos efeitos do passado no presente estão também presentes nas performances políticas do cirismo. Ciro Gomes e seus apoiadores levam em conta a conjuntura política dos últimos anos para afirmar que o PT não tem forças suficientes para vencer no segundo turno. Isso não vem exatamente das pesquisas eleitorais — afinal, não é preciso ter muita imaginação para pensar que a dura campanha petista contra Marina Silva em 2014 ou o apoio franco do PSDB ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016 isolaram qualquer parca possibilidade de diálogo republicano entre este centro político e o Partido dos Trabalhadores. No entanto, esta percepção dos efeitos do passado no presente é usada para produzir uma leitura específica dos dados das pesquisas eleitorais. Ciro Gomes é descrito como o único que pode derrotar Bolsonaro por escapar do antipetismo e pertencer a um campo progressista. Assim, é lógico que tomemos os dados que apontam sua vitória no 2º turno como um fato. Porém, esta lógica é apontada pelo haddadismo como contraintuitiva, já que as pesquisas de opinião apontam que Haddad tem o dobro das intenções de voto de Ciro no 1º turno. A isto, “ciriguetes” respondem dizendo que não podemos tomar os dados como definitivos, que o campo da disputa eleitoral segue aberto e que é possível fazer Ciro chegar ao embate final com Bolsonaro.

Vê-se facilmente que os eixos que estruturam as performances de ambos os grupos se espelham. Ciristas e haddadistas contam com o passado para definir o presente e, sobretudo, estão travando uma disputa árdua para definir qual é o campo do sonho e qual é o ponto incontornável do real.

Ora, tal disputa está longe de ser tola e sem consequências. Mas ela é uma disputa em que há um alto grau de risco envolvido para ambas as partes. Ciro arrisca todas as suas fichas numa virada que parece quase impossível para consolidar a possibilidade de derrotar Bolsonaro. Haddadistas, por sua vez, mobilizam o quadro mais crível de sua ida ao 2º turno como cheque em branco a ser assinado pelo eleitor. Cada grupo tem, dessa forma, critérios distintos para arriscar e gerir tal risco. E isso mostra que preço cada um está disposto a pagar pelo risco que desejou correr ao traçar uma linha própria entre aquilo que foi, aquilo que é ou parece ser efetivamente, e aquilo que poderia vir a ser. (Não é preciso dizer que é a diferença do risco que haddadistas se dispõem a correr que me faz defender e lutar pelo sucesso de Ciro. Não há sentido, para mim, passar ao segundo turno para entregá-lo de bandeja a Bolsonaro.)

É importante, nesta reta final de campanha, honestidade dos dois grupos aqui referidos em reconhecerem que estão disputando o real e arriscando com base no desejo de que suas expectativas se concretizem. Não existe racionalidade estrita em jogo, e sim uma disposição política em arcar com o custo de um desejo. Mesmo assim, vale recuperar um capítulo da Investigação sobre o entendimento humano, de David Hume, para pensarmos até que ponto mobilizar o passado para disputar o campo do possível e do efetivo é um problema digno de uma reflexão que não deveria nunca ter sido adiada.

“Seção 6: Da probabilidade

1
 Embora não haja no mundo isso que se denomina acaso, nossa ignorância da causa real de um acontecimento qualquer tem a mesma influência que ele sobre o entendimento, e produz urna espécie semelhante de crença ou opinião.

2
 Há, com certeza, uma probabilidade decorrente de um número superior de casos favoráveis a uma das partes, e, à medida que cresce essa superioridade, ultrapassando o número de casos contrários, a probabilidade aumenta proporcionalmente, gerando um grau ainda mais elevado de crença ou assentimento em relação à parte em que observamos essa superioridade. Se marcássemos um dado com o mesmo algarismo ou número de pontos em quatro de suas faces, e com outro algarismo ou número de pontos nas duas faces restantes, seria mais provável que viesse a resultar o primeiro algarismo que o segundo; mas, se o dado tivesse mil faces marcadas do mesmo modo e apenas uma diferente, a probabilidade seria muito mais elevada, e nossa crença ou expectativa em relação a esse resultado, mais firme e segura. Talvez esse processo do pensamento ou raciocínio pareça óbvio e trivial, mas ele é capaz de oferecer, para os que o examinam mais a fundo, material
 para interessantes reflexões.

3
 Parece claro que a mente, quando busca descobrir o evento que resultará do lançamento desse dado, considera como igualmente provável que se volte para cima qualquer uma das faces individuais; e essa é a própria natureza do acaso: tornar inteiramente iguais todos os acontecimentos particulares que abrange. Mas, ao encontrar um maior número de faces que contribuem para um certo acontecimento do que para outro, a mente é conduzida com mais freqüência para esse acontecimento e depara mais vezes com ele ao ponderar as diversas possibilidades ou acasos de que depende o resultado final. Essa confluência de diversas ponderações em um único acontecimento particular engendra de imediato, por um inexplicável dispositivo da natureza, o sentimento de crença e dá a esse acontecimento uma vantagem sobre seu antagonista, que está respaldado por um número menor de ponderações e retorna com menor freqüência à mente. Se admitirmos que a crença nada mais é que uma concepção de um objeto dotada de mais força e firmeza do que a que acompanha as meras ficções da imaginação, essa operação pode, talvez, ser em certa medida explicada. A confluência dessas diversas ponderações ou rápidas percepções grava com mais força a idéia na imaginação, dá-lhe força e vigor superiores, torna mais perceptível sua influência sobre as paixões e os afetos, e, em uma palavra, engendra aquela confiança ou certeza que constitui a própria natureza da crença e opinião.

4
 Quanto à probabilidade associada às causas, ocorre o mesmo que com a probabilidade que se associa ao acaso. Há algumas causas que produzem um certo efeito de maneira inteiramente uniforme e constante, sem que jamais se tenha encontrado nenhum exemplo de falha ou irregularidade em sua operação. O fogo sempre queimou e a água sempre afogou qualquer criatura humana; a produção de movimento pelo impulso e pela gravidade é uma lei universal que até agora não apresentou exceções. Mas há outras causas que se têm mostrado mais irregulares e incertas: o ruibarbo nem sempre funcionou como um purgante ou o ópio como um soporífero para todos os que ingeriram esses medicamentos. É verdade que, quando alguma causa deixa de produzir seu efeito costumeiro, os filósofos não atribuem essa ocorrência a alguma irregularidade da natureza, mas assumem por princípio que a operação foi frustrada por algumas causas ocultas naquela particular estrutura de partes. Nossos raciocínios, porém, e nossas conclusões relativas ao acontecimento procedem como se esse princípio não existisse. Como o hábito nos leva, em todas as nossas inferências, a transferir o passado para o futuro, todas as vezes em que o passado mostrou-se inteiramente regular e uniforme esperamos o acontecimento com a máxima segurança, e não deixamos lugar para qualquer suposição em contrário. Mas, quando se constata que efeitos diferentes seguem-se de causas que são aparentemente em tudo semelhantes, todos esses diversos efeitos devem apresentar-se à mente quando se transfere o passado para o futuro, e devem ser levados em conta ao determinarmos a probabilidade do acontecimento. Embora nossa preferência seja dada ao que se mostrou mais usual, e acreditemos que esse é o efeito que vai ocorrer, não podemos negligenciar os demais, mas temos de atribuir a cada um deles um particular peso e autoridade, conforme o tenhamos encontrado com maior ou menor freqüência. É mais provável, em quase todos os países da Europa, que haja algum dia de geada em janeiro do que permanecer o tempo bom ao longo de todo esse mês, embora essa probabilidade varie de acordo com os diferentes climas e aproxime-se de uma certeza nos reinos mais setentrionais. Assim, parece aqui evidente que, quando transferimos o passado para o futuro a fim de determinar o efeito que resultará de alguma causa, transferimos todos os diferentes acontecimentos na mesma proporção em que apareceram no passado, e concebemos um deles, por exemplo, como tendo ocorrido uma centena de vezes; outro, dez vezes; outro, uma só. Como há aqui um grande número de considerações confluindo para um determinado acontecimento, elas o fortalecem e o confirmam perante a imaginação, elas engendram o sentimento que denominamos crença e dão ao objeto dessa crença a preferência sobre o acontecimento contrário, que não se encontra respaldado por um igual número de experiências e não retorna tão freqüentemente ao pensamento quando se transfere o passado para o futuro. Que alguém experimente explicar essa operação da mente com base em qualquer um dos sistemas filosóficos herdados, e a dificuldade ficará patente. De minha parte, dar-me-ei por satisfeito se as presentes sugestões estimularem a curiosidade dos filósofos e tornarem-nos conscientes de quão defeituosas são todas as teorias usuais ao tratarem de assuntos tão surpreendentes e elevados.”