Dona Áurea

Dona Áurea, moradora do 806, está morta, avisa o papel que convoca para a missa de sétimo dia, colado no elevador. Trata-se de uma xérox, o que me leva a crer que há outros espalhados em outros espaços do prédio.

Antes de qualquer outra digressão mais profunda sobre tudo que não sabia a respeito de Dona Áurea, minha vizinha de porta há oito anos, pareceu-me justo perguntar se haveria um aviso do condomínio no caso da minha morte. Em poucos segundos, catorze para ser mais exato, os que me levam do primeiro ao oitavo andar, pus minha existência neste prédio ao lado da de Dona Áurea. Nos últimos oito anos será que adquiri respeito suficiente para ter direito ao meu aviso de morte no elevador? Cheguei aqui ainda menino, do interior, sempre morei sozinho, nunca fiz amizades, embora sempre tenha tratado com educação e cordialidade os funcionários do prédio. Além disso, nas várias trocas de móveis que executei no meu pequeno apartamento, sempre doei aquilo que não usaria mais às minhas vizinhas — que alugam apartamentos para temporada no prédio e que não ligam para a estética da mobília que disponibilizam aos seus hóspedes, de modo que se elas não me achassem digno de um cartaz no condomínio, e minha alma ainda pudesse tecer juízos de valor, eu certamente as acharia muito mal agradecidas. Ainda não estou certo de que me seria dada tamanha relevância, devem morrer muitas pessoas por aqui e até hoje só vi dois cartazes anunciando as mortes, coincidentemente os dois cadáveres saíram do oitavo andar, o meu.

Dona Áurea era uma velha de Copacabana. Quando eu digo velha, quero dizer que ela já beirava ou ultrapassava os noventa anos, ainda que se esforçasse para esconder o óbvio com a coloração aloirada de seu parco cabelo. Ela sempre foi a vizinha de andar que mais detestei, a que ouvia barulhos no corredor e logo abria a porta para ver do que se tratava; a que uma vez em que precisei separar a briga de uma travesti com sua filha, me contou toda a história dos dois, apesar do meu flagrante desinteresse às 3h da manhã. É engraçado lembrar que Dona Áurea nunca esqueceu deste dia, sempre fazia questão de dizer que ‘aquelas duas, graças a Deus, tinham sumido’. Uma velha que não tinha roupas comuns, ou estava produzida como se fosse a um baile no Copacabana Palace, ou estava de pijama de seda, com um cigarro na mão que ela nunca batia em lugar nenhum. As cinzas do cigarro a ponto de cair no chão do corredor do prédio e ela não parava de falar, eu olhava diretamente para o cigarro a fim de alertá-la, mas ela seguia a me perguntar se conhecia alguém à procura de apartamento para temporada, a reclamar que os números da minha porta tinham caído e que batiam à porta dela para saber onde era o 808, a comentar os meus mais variados tipos de barba. Nunca cheguei a ver a cinza do cigarro tocar o chão.

A morte é a única forma de transformar o ordinário em extraordinário, e foi o que aconteceu com Dona Áurea. Parece que Dona Áurea só ganhou vida para mim depois que morreu. Ela existia ali do lado, às vezes dava em cima de mim como uma velha tarada, segurava meus braços, me alisava antes de entrar no elevador. Contava, é claro, com a minha carente complacência, mas era apenas isso: uma velha que morava ao meu lado. Do dia para a noite (ou da noite para o dia — não sei quando ela morreu), Dona Áurea se transformou em alguém muito próximo, na comprovação empírica do peso do tempo e das renúncias. Neste caso, a minha renúncia a conhecer uma vizinha, uma porra de uma vizinha sobre a qual eu não sei absolutamente nada, a não ser que morreu com a libido em dia.

Uma pena, Dona Áurea depois de morta me parece uma pessoa incrível.

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