O que aprendi observando famosos, perdendo cabelo

calvice e autoimagem

Como não escreveu Vinícius de Moraes: tristeza não tem fim; cabelo, sim.

Consta que o gene da calvice vem da mãe, do que só posso discordar: a minha mãe tem lindos, sadios e encantadores fios. Essa condição atinge mais de 65% dos homens com mais de 35 anos; animicamente, cada um desses tende a achar que é o único atingido. O objetivo desse texto é demonstrar que, ao mirarmos famosos perdendo cabelo, podemos nos inspirar mais se nos concentrarmos em atitudes que superam a relevância da perda.

Tem quem procure por algo que termina com cut e começa com happy, quem deixe a auréola Larry David, quem esvoace à Roger Scruton, quem experimente coberturas artificiais e tantos tentam cortes e penteados de famosos condicionados pelo mesmo tipo de perda. Há um Carlos Valderrama de alquimias do que se fazer com fios que se esvaem. Aliás, quiséramos que os fios só se esvaíssem; os sacanas caem mesmo, não voltam mais. Tem de tudo do pouco, o espectro é variado; a constante é haver algum grau evitável de frustração.

Ante esse desértico cenário folicular, é mister reconhecer que devemos mudar a estratégia e focar nossa toalete, esforços, ego, superego, id, login e senha para outras coisas. Implante… Ou desplante.

Quando começa

“I was out of bullets.”

Como apresentação musical que não seja (no estilo) do Grupo Fluxos e a discurso que não seja do irmão do Raùl Castro: quando começa, só termina quando acaba. Ralhar contra a genética não resolve. Também não resolvem: a marchinha de Carnaval; o eufemismo da vez; “novilíngua”; o acaso cromossômico; a variação geométrica; a Polishop; os Fedora, Panamá, Cartola, Pescador, Safari, Trilby, Boina, Pork Pie, Homburg, Cowboy ou Coco; ou se é aba reta ou curvada. Nem o Bruce Willis resolve.


Go fish or go home

Ou resolve-se de vez, como fez o Wayne Rooney, ou desiste de vez. Insistir por insistir, turronamente crendo-se ser o primeiro humano que terá uma sorte que não consta existir, é como se atirar no precipício esperando que seus braços virem asas. Darwinianos creem que braços virem asas (e, ou vice-versa?), mas isso demora milhões de anos, demora quase como esperar temporada nova do Sherlock.

Mas não somos um Rooney para investir em implante capilar milhares de euros como ele investiu. Aliás, se ganhássemos as 300 mil libras esterlinas que ele ganha por semana, cabelo seria um detalhe na nossa vida: estaríamos fazendo cosplay do filme Rome Adventure.

Sejamos francos, a maioria dos homens não teria cinco dígitos para dispensar nisso nem se a moeda fosse o cruzado novo. O mais profíquo goleador do maior time de ludopédio da Inglaterra é ele, Shrek; e, pior, sequer teríamos Shrek como apelido sem que isso diminuísse as nossas chances com aquela top model que você cogitou seguir em redes sociais mas desistiu por receio de que segui-la diminuísse as suas chances com a sua pretendida everyday normal model. Cabelo era detalhe.


Selfie, selfie meu, existe alguém com menos Like do que eu?

Se a Esperança é o que sobrou no jarro de Pandora, nós, que cada vez mais penamos nesses tempos de drones e suas fotografias e filmagens aéreas, haveríamos de ter direito à nossa. Tentar sem critérios direcionar nossa esperança para os famosos é um equívoco renitente. Basta algumas confrontações com cânones do desterro para que entendamos que o que devemos mirar neles é tudo menos cabelo, ou é mirar cabelo por último.

Pense em tatuagem. Sempre citam David Beckham como sinônimo de como tatuagens podem ser cool. Ele, que viria a se associar à cobiçada Posh Spice na produção em série de modelos infanto-juvenis, já era um dos atletas mais consagrados do mundo quando começou a ser colorido, e já era o bonito, elegante e ousado de sempre e de hoje. A referência adotada tem de ser compatível consigo.


Elementos do estilo cabelográfico

Uma tipografia capilar típica é aquela que transforma a grande letra O do topo da cabeça em U serifado. Também parece uma ferradura ou, do ponto de vista de quem possui tal formatação, parece um Oxford Salvatore Ferragamo. Chamam isso de entradas. Sinceramente acredito que quem cunhou o termo tentava dizer que o clarão que se anuncia é um portal que, finalmente aberto, teria uma musa do quilate da princesa de Mônaco nos esperando. Yes, we’re talking to you, Jude Law.

“Anyone in the mood for a little Alfie, straight-up?”

Distribui daqui, direciona acolá… Mas não tem jeito. Começamos dando uma Jude Law-zada, terminamos questionando por que não levamos mais a sério as chances de encenar Shakespeare que tivemos. No mínimo, especulamos que desafiamos probabilidades ao não termos nascido inteligentes, bonitos, talentosos, elegantes, charmosos e simpáticos.

O ponto não é o louro: o cabelo preto e liso do Tom Ford não revela o melhor a se aprender do rei da Frígia americano.

The damn buzz noise

Avançando rumo aos banhos mais curtos e à rarefação das idas àquela barbearia que serve single malt Scotch e petiscos ditados pela dieta Paleolítica, chegamos ao ponto da compra que é o equivalente masculino do primeiro sutiã. Escrevi ‘equivalente’? Pois errei: essa primeira compra é o contrário psicológico do primeiro sutiã. Comprar a máquina de raspar cabelo para — de fato raspar o cabelo — que se esvai costuma ser sentido pela metade varona da humanidade como:

  • o prenúncio da diminuição dos hormônios ou dos anos de vida (o que vier primeiro);
  • o surgimento da necessidade de fazer treinos HIIT;
  • a impossibilidade de jogar bocha sem ser fauxtalgie;
  • o agradecimento por existir previdência privada;
  • e de tudo o menos (cabelo) e tudo o mais (pelos) que decorre do envelhecer do homem.
“He’s the one on the cell phone.”

Das tesouradas para o pente 3, o sujeito adiciona no What’s App o endocrinologista do pai. É nesse momento que Rosie Huntington-Whiteley passa a ser um mantra e a bússola para assuntos da cúpula cranial aponta Jason Staham. Mas, os pré-requisitos do Esquadrão da Pujança são ser bem-sucedido, lutar umas dezenas de artes marciais, mergulhar, e ser casado com uma diva de fábulas. Uma veleidade. Como quando consideramos Jude Law referência, vem a realidade: o cara se compara a um badass, finda se achando bad (e) ou ass.

A contagem regressiva de pentes abre a Era das Lâminas de Barbear.

The Mr. Gillette business associate

Pode piorar, pode-se chegar à fase em que palavras como escalpo escapam em conversas aleatórias enquanto você fantasia que faz um agônico golo que lhe honra campeão da Champions League. Por supuesto, íntimos lhe chamam de Zizou. É o momento de alongar braços, comprar um sistema de espelhos e caprichar nos banhos quentes. Mas não somos o Zinedine Zidane.

“I love Madrid.”

Talvez olhemos para ele e pensemos: “por que não fiquei assim antes?”. Porém, depois que ficamos, lembramos que a única coisa que compartilhamos do astro francês é aquilo que, para ser fiel à revista Nature totalmente dedicada a outros assuntos, podemos chamar de Cucurutum Luminosae.

Fatal: almejando se ver excelso, el hombre empenha lâminas de adamantium, mas se sente o Vin Diesel de quando Fast & Furious não era sequer título de uma crítica a O Cravo Bem Temperado de Glenn Gould.


Autoajuda ajuda quem se auto…

Ser a melhor versão de si. É mais do que “aceite o que você é”.

“I tried.”

Não seremos protagonistas do improvável remake de Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles. Debater-se contra isso é como tentar vencer o Usain Bolt em uma disputa na qual ele corre e você dança o passo Moon Walk.

Vilões e sidekicks são os calvos e carecas em mais ficções do que alguns de nós gostaríamos, sim. Hank Moody quem escreveu o livro; Charlie Runkle mal o vendia. Enquanto Clark Kent só galgava ser um fitness blogger, Lex Luthor atazanava com whey protein verde. Woodhouse serve; Archer deleita-se. Ainda assim, pare de se imaginar Josep Guardiola para no fim se ver Lord Voldemort.


“It’s my life, it’s now or never”

“Fucking centaurs!”

Quando seu cabelo começar a cair ou quando você quiser se ocupar do assunto sem ser com implante, em vez de sentir comiseração de si e pensar “oh, quão desafortunado sou” ou “oh, e agora, quem poderá me defender?”, considere o mundaréu de possibilidades nas quais pode se esmerar em para lograr a melhor versão de si.

Aliás, quer implantar e pode pagar por isso? Go ahead. Só não trate a perda em curso ou finita como uma bigorna atada à sua panturrilha mais fina.


Consideremos novamente famosos citados. Rara é a solteira que, mesmo hoje, diria ‘não’ para um jantar romântico com o Jude Law. Zidane foi eleito três vezes melhor futebolista do mundo. Jason Staham completará 50 anos com físico que poucos tiveram no auge de seus metabolismos. Bruce Willis foi casado com a Demi Moore sem conhecer “o outro lado da vida”.

Olhe para esse panteão de células mortas evanescentes para aprender, mais do que para medir em que ponto da distância entre Tristan Ludlow a John McClane você está. Aprenda mais mesmo, e não só do mesmo. A maioria das pessoas troca pontas duplas ou folículos a menos por bons diálogos, por exemplo. Não é questão de cabelo, amigo.

Sempre há mais o que estudar, ler, escutar, ver, fazer, vivenciar; aproveitemos sem perder tempo; só Keanu Reeves viverá para sempre. “I ain’t gonna live forever”.

Also, it’s morphing time

Você está na melhor forma física e de saúde que pode? Por mais que campanhas publicitárias de cerveja digam o contrário, isso também conta. A sua paquera não olha para o Tyrese Gibson e pensa “uau, que creme rinse será que ele usa?”.

Até rotundo o marido da Anna Faris já era bonito; contudo, foi lean & shredded que Chris Pratt virou um dos maiores astros de Hollywood. Cabelo não era questão e não foi resposta.


Sempre há jeito de ser alguém mais interessante. Pode-se ser mais agradável, simpático, bem-sucedido, inteligente, amistoso, amoroso, culto, forte, bonito, gostoso, dulcíssimo, canoro…

It’s not a big deal: Bach, que compôs mais de mil músicas e foi pai de vinte, usava peruca.

Bach: The Complete Works