“Ai, se eu te pego” — motivos do sucesso

O que garante sucesso a uma canção? Eis boas pistas.

O que garante sucesso a uma canção? Para tentar responder a isso, Guilherme Schwenck e eu focamos no maior sucesso musical brasileiro dos últimos tempos: a versão de Michel Teló de Ai, se eu te pego, que ruma a atingir a marca do bilhão de visualizações no YouTube.

Nós também gostamos muito mais de outras músicas e concordamos que há muita coisa ruim no mercado. Seja qual for o veredito sobre a qualidade desta música, repassamos a pergunta que a nós da Presto intrigou: por que foi ela que logrou o que nenhuma ou quase nenhuma outra canção brasileira lograra?

Os motivos que explicam seu enorme sucesso, o desta versão em questão, extrapolam o âmbito musical, embora este tenha sua relevância. Identificamos aspectos que contribuíram para a música em questão ser sucesso, mas não podemos dizer que encontramos uma receita.

Não haver receita para o sucesso explicaria esta busca ser indagação perene na Estética e no business da Música. Parece haver algo que advoga por si nessa música. O quê? Je ne sais quoi, admitiria um esteta.

Estamos cientes de que atualmente há novos atalhos para a fama e que para a geração conhecida por Y e por Millennial importam mais vídeos de seis segundos que os tradicionais três minutos de canções ou 4:33 de “silêncio”. Mas ainda cremos na música. Então vamos aos motivos, alguns dos quais, claro, são méritos dos autores da canção.

MÚSICA

A canção gozava de boa fama prévia em mercados regionais.

Michel Teló não foi o primeiro a gravar esta música; na verdade, há ao menos três versões anteriores: Os Meninos de Seu Zeh gravaram-na e conseguiram alguma repercussão citadina; o grupo Cangaia de Jegue fez a primeira gravação comercial da música, tornando-a sucesso na Bahia; e o grupo Garota Safada regravou a canção e elevou o sucesso ao nordeste brasileiro.

“Ai, se eu te pego” é um reggae, estilo mundialmente consagrado.

O reggae é consolidado, internacionalmente reconhecido, e foi explorado por artistas originalmente de outros estilos: Led Zepelin gravou D’yer Mak’er; Guns & Roses, no show de homenagem a Freddy Mercury em Wembley, fez um interlúdio em Knock on the Heavens Door; até Skrillex se inspirou no reggae em First of The Year.

(Você pode ouvir os exemplos no SoundCloud.)

O arranjo é conhecido do Brasil; e a harmonia, do mundo.

O arranjo segue o estilo musical sertanejo universitário, um country-esque, digamos, vastamente difundido em festas, rodeios e casas noturnas do Brasil. Isto torna a música mais assimilável e aceitável ao resto do país e de muitas partes do mundo. A sequência de acordes já foi usada em muitas canções.

O ritmo dançante levou a música a mais festas e casas noturnas.

A levada da bateria da primeira e da segunda parte são baseadas no estilo chamado vanerão, de origem alemã, e que se assemelha bastante ao arrocha, bastante difundido no nordeste brasileiro, e é dançante e percussivo; esses ritmos, junto com a sanfona, conferem peculiaridade ao arranjo e mantém ligação com o forró, origem da canção.

(Exemplos: Vanerão e Arrocha)


COREOGRAFIA

Em cima, embaixo, puxa, e vai.

Se você não sabe dançar bem mas quer dançar, dance concentrando-se em uma parte do corpo por vez, como ensinou Kiesza. A coreografia da canção é do tipo com a qual qualquer um pode se aventurar.


LETRA

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai se eu te pego
Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai, se eu te pego
Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar

Ai, se eu te canto!

A letra descreve uma paquera. Quem a canta se direcionando a alguém, está “cantando” o interlocutor. A eficiência desse expediente explica por que esse tema é tão recorrente em músicas de grande sucesso.

Adaptação para as regiões que não conheciam a música.

A letra original foi adaptada para trocar sua peculiaridade regional em favor de um potencial alcance nacional: sábado no Kabana’s (casa noturna que há em Feira de Santana, Bahia), e posteriormente sábado no forró, foi substituído por sábado na balada, termo usado na região sudeste do país. E o sotaque paranaense de Teló trouxe familiaridade para as regiões sul e sudeste, onde ainda não era conhecida.

Nossa, nossa. Delícia, delícia.

O recurso de repetir e enfatizar vocábulos e fonemas é tradicional porque de sucesso: canções, lançamento de produtos, discursos políticos e de formatura, todo mundo usa, e, usando minimamente bem, bem funciona.


MARKETING

R$0,00 é muitíssimo menos que R$0,01.

A gratuidade de um produto não garante a sustentação do seu sucesso, mas ajuda e muito na divulgação inicial: a música foi liberada gratuitamente para download no site do cantor e lançada no YouTube simultaneamente, facilitando aos usuários que a ouvissem e divulgassem sem entrar na zona de questionamento que, como antecipara Chris Anderson, há até no micropreço.

Oh, if I catch thee!

A música teve uma versão em inglês, lançada pelo próprio Michel Teló, garantindo que o idioma mundial fosse aliado do sucesso internacional, fórmula consagrada com artistas latinos e asiáticos.


SORTE

CR7 is goal.

A música, já um sucesso nacional, era conhecida de muitos dos futebolistas brasileiros, como Neymar (F.C. Barcelona) e Marcelo (Real Madrid F.C.), que ouviam-na nos vestiários de seus times. O grande sucesso internacional veio quando Cristiano Ronaldo, o esportista de maior influência no mundo e nas redes sociais em 2015 segundo a revista Forbes, comemorou um gol com a coreografia de Ai, se eu te pego, atraindo atenção da imprensa internacional, que divulgou o vídeo da música intensamente.

Aquecimento global.

A empatia ao redor do mundo com a música foi tanta que ela ficou em primeiro lugar nas paradas musicais da Áustria, Bélgica, Alemanha, Colômbia, Honduras, Republica Tcheca, Bulgária, Itália, França, Israel, entre muitos outros, e ganhou muitas versões, dentre elas destacamos as polonesa, holandesa e espanhola.


Originally published at prestopartituras.wordpress.com on January 26, 2016.