O que ganha um voluntário? #Rio2016

Ao término da Rio 2016, me despedi não apenas dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul, mas também, de uma das maiores experiências que já vivi. Durante os últimos meses fui cercado de algumas perguntas com o mesmo questionamento: “você vai trabalhar de graça? Não vai receber nenhum dinheiro por isso?”, a resposta é sim. O que recebemos é apenas “experiência”, e é um pouco dessa história que eu gostaria de compartilhar com vocês, um pouco da minha experiência na Rio 2016! Boa leitura! :)

Tudo começou há mais ou menos uns dois anos, quando decidi inscrever-me para ser voluntário na Rio 2016. Não seria como um marinheiro de primeira viagem, ter sido voluntário na Copa das Confederações em 2013 foi uma experiência tão magnânima e inesquecível para mim, que me encheu de expectativas imaginar uma nova oportunidade em participar de mais um grande evento, dessa vez, as Olimpíadas aqui no quintal da nossa casa.

The Olympic symbols!

Ao preencher a ficha de inscrição, ofertaram-nos a possibilidade de escolher 3 modalidades de nossa preferência, e que sorte a minha, a primeira opção foi a selecionada para ser a minha área de atuação, daí minhas expectativas só viriam a aumentar: o que esperar do Tênis?

Primeiro contato com a Quadra Central.

Quando recebi a carta-convite foi uma grande felicidade, sem titubear aceitei de cara sem saber ao certo qual papel iria desempenhar no Tênis. Uma função com nome “Assistente do Local de Competição” pode ser algo não muito subjetivo, foi preciso esperar pelos treinamentos para ter a convicção de um tiro certeito: ballkeeper! O que eu imaginava ao escolher o Tênis como primeira opção, acabou se confirmando, a partir desse momento minhas expectativas e minha ansiedade para o início dos jogos só aumentavam!

Panorâmica da Quadra Central
The Court Central!

Nossa primeira imersão ocorreu ainda nas semanas que antecederam os jogos. Desde o primeiro contato com o Parque Olímpico, o início dos treinamentos, o reconhecimento das quadras, as primeiras amizades em formação, tudo isso era um grande aperitivo do que as Olimpíadas nos proporcionariam.

Eu, Pierre (FRA), Josh (ALE) e Fabrizio (ITA) — Del Potro (ARG) vs Novak Djokovic (SRB)

Durante as Olimpíadas pude conhecer pessoas sensacionais e fazer amigos de todas as partes do mundo: Alemanha, México, China, Inglaterra, Porto Rico, Colômbia, França, Itália, Paquistão, Portugal, Polônia… Por muitas vezes, a minha impressão é que a maioria dos voluntários não eram brasileiros! Poder dividir essas experiências, conhecer outras culturas com pessoas incríveis, foi sem dúvidas um dos pontos altos dessa experiência.

Eu, Adolfo (MEX), Saskia(ALE) e Josh (ALE) (Josh estava triste pela derrota da Kerber) — Final do torneio feminino simples: Monica Puig (PUR) vs Angelique Kerber (ALE)
Santiago (COL) e Eu! — Monumento da logomarca dos Jogos Rio 2016
O Totem dos Boleiros — Cada voluntário foi convidado a ir ao quadro escrever o nosso mantra em seu idioma nativo. O quadro virou um símbolo sagrado do grupo e representava a reunião de todas as culturas.

Voltando a minha função, ballkeeper (ou simplesmente boleiro para nós brasileiros) é uma das funções mais fantásticas do Tênis! Para nós amantes do esporte, a oportunidade de estar dentro de quadra e não só participar, como interagir diretamente com o jogo, é algo grandiosamente gratificante!

É a oportunidade de estar ao lado e dividir com os maiores tenistas do mundo, o melhor que o esporte pode proporcionar: suas jogadas geniais, suas manias, seus momentos de euforia, de decepção, a vibração por cada ponto! Os melhores tenistas estavam lá, e tive a oportunidade de “boleirar” para grande parte deles! Djokovic, Nadal, Murray, Nishikori, Del Potro, Tsonga, Monfils, Serena, Kerber… Entre muitos outros!

Visão externa da Quadra Principal

Ao todo, eram 10 quadras: A quadra principal (Court Central), Quadra 1 e Quadra 2, possuiam transmissão ao vivo, e logicamente eram as maiores, com capacidade para 10 mil e 5 mil pessoas. Da Quadra 3 em diante, ocorriam os jogos que teoricamente possuiam menor expressão, o que não era uma regra, afinal, os maiores tenistas do mundo estavam disputando as medalhas para seus países (Simples masculino, feminino; duplas masculino, feminino; duplas mistas).

Visão aérea das quadras olímpicas
Quadra 1 ainda em preparação para os jogos

O desejo de grande parte dos boleiros era sempre estar entre as quadras principais, mas não era algo que poderíamos diretamente escolher, o envio das equipes para as quadras seguia de forma aleatória e conforme o desempenho da equipe em alguns momentos.

Treinamento do sérvio número 1 do mundo: Djokovic!

No meu primeiro dia como boleiro, eu desejava apenas fazer uma partida em alguma das quadras principais, e pois bem, a sorte novamente sorriu para mim, o primeiro jogo que fui escalado logicamente é uma lembrança que jamais esquecerei:

Madison Keys (USA) vs Andreea Mitu (ROM), Quadra 1!

Isso, minha primeira experiência foi numa quadra com transmissão ao vivo para o mundo inteiro. É inegável que eu estava nervoso, cometi alguns deslizes e em um momento até recebi uma sonora vaia das arquibancadas após uma confusão entre os boleiros! Hahaha, que grande momento. A americana número 9 do ranking, foi longe e terminou a competição com a 4ª colocação, perdendo a disputa do bronze para a tcheca Petra Kvitova (CZE). Detalhe, eu também estava na decisão do bronze do feminino! :D

Pega essa toalha, Madison Keys!
A medalhista de bronze: Petra Kvitova!

Após o término desse jogo, rapidamente outra partida começou e minha equipe se manteve em quadra, era um jogo entre Marin Cilić (CRO) vs Grigor Dimitrov (BUL), ambos top 25 do mundo, sendo o croata atual número 9 e vencedor de um Grand Slam.

Ao sair de quadra, eu só pensava em como era incrível ter participado desses dois jogos e já era grato por essa experiência. Após as duas partidas, minha equipe foi almoçar e quando voltamos, mais uma grande surpresa: “a equipe de vocês está pronta?” Sim! “Quadra Central agora!” E nesse momento eu já estava em êxtase de felicidade, no meu primeiro dia como boleiro, já teria a experiência de “trabalhar” nas duas maiores quadras das olimpíadas!

O jogo era entre Malek Jaziri (TUN) vs Jo-Wilfried Tsonga (FRA)! Tsonga é um dos meus tenistas preferidos, bem, apenas imaginem a minha felicidade em estar ali naquele momento. Cada palavra rápida que ele direcionava a mim, eu custava a acreditar: “eu estou mesmo na Quadra Principal do Tênis nas Olimpíadas participando do jogo de um dos tenistas que eu admiro, sendo transmitido ao vivo para o mundo inteiro! E o Tsonga está falando comigo!” Haha! Era simplesmente incrível (Tsonga ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas de Londres 2012 nas duplas).

Amigos de equipe: Ligia, Mario (POR) e Adolfo (MEX)

Bom, isso tudo foi apenas o primeiro dia! Ao longo das Olimpíadas eu participei de algo entre 15 a 20 jogos, são inúmeras as histórias, situações, equipes com pessoas de toda parte do mundo, partidas incríveis, jogadores brilhantes… Tudo isso foi efêmero e aproveitado ao máximo, estar dentro de quadra era uma sensação indescritível para mim.

O momento em que recebo a toalha das mãos do Nadal. Jogo da dupla campeã olímpica — Marc Lopez e Rafa Nadal

Dentre todos os jogos que pude ser boleiro, destaco dois que foram os mais importantes para mim:

Thomaz Bellucci (BRA) vs Pablo Cuevas (URU)!

Senhores, esse foi um dos momentos mais incríveis da minha vida. A Quadra Principal mais parecia um estádio de futebol, era uma atmosfera perfeita! A quadra estava lotada, a torcida para o número 1 do ranking brasileiro era gigantesca, a cada ponto, a vibração do Thomaz, a vibração da torcida, era algo que eu definitivamente não sou capaz de descrever.

Vai Bellucci!

Acredito que esse tenha sido o jogo em que mais apareci na trasmissão, o Bellucci se comunicava comigo o tempo inteiro! Precisei me virar para entender os seus sinais e lidar com suas emoções, foi um jogo espetacular.

Olha a desenvoltura do garoto.

Quando houve o revezamento da equipe de boleiros em quadra, o jogo estava no último set, e quando saímos de quadra eu só pensava em ir correndo para a arquibancada terminar de assistir aquele jogo!

A todos nós era permitido que assistíssemos a qualquer jogo de tênis na arquibancada, quando não estávamos na função de ballkeeper, logicamente. E isso também era perfeito! Pude assistir partidas incríveis também como espectador em todas as quadras!

Nadal (ESP) vs Del Potro (URU)
The Final: Del Potro (URU) vs Andy Murray (UK)

Entre esses “mimos”, também recebíamos lembranças das Olimpíadas em dias aleatórios e ingressos para outras modalidades, além de termos participado do ensaio para a abertura dos Jogos!

Ensaio de Abertura dos Jogos Olímpicos — Maracanã
Max, Matheus, Eu e o Parque Aquático!

O outro jogo que mais me marcou, foi exatamente no último dia de competições e também minha última partida:

Kei Nishikori (JAP) vs Rafael Nadal (ESP)!

Essa foi a decisão do bronze do simples masculino. Por um longo tempo, minha equipe ficou esperando no corredor que dá acesso a quadra e imaginamos que nem poderíamos entrar. A realização da rotação de equipes, só ocorre em momentos específicos da partida, e naquele momento o jogo não tinha esse momento! O japonês número 7 do mundo vencia todos os games possíveis, sem dar chance a um dos maiores tênistas da história do esporte.

Presta atenção, Nishikori!

Para que entrássemos em quadra, era preciso uma grande reação do Nadal, e meus amigos, o mito se revelou e mostrou por que é considerado um dos maiores de todos os tempos e vencedor de mais de 60 títulos na carreira e inúmeros Grand Slams! Nadal promoveu uma incrível recuperação ganhando e quebrando vários games, fechando o set e empatando a partida, numa reação que já parecia completamente improvável.

Digo com toda certeza que essa partida foi para fechar a minha participação nas Olimpíadas com chave de ouro. Aconteceu de tudo. Nadal eufórico, nervoso, gritando com árbitro, reclamando com o rival, com os torcedores e em um momento, até mesmo estressado comigo! (Quando não compreendi uma de suas solicitações, haha).

Para de reclamar, Nadal!

Esse foi a segunda partida do Nadal que eu tive a honra de fazer nas Olimpíadas, e foi simplesmente perfeito, interação com os jogadores e empatia total com aquela partida bravamente disputada, que no final das contas, acabou não coroando El Toro Miúra, mas sim a revelação japonesa, vencendo uma lenda. Bravíssimo, Nishikori!

Estava torcendo para o Nadal, não nego. :D

Uma partida sensacional onde ambos foram incríveis. Um momento inesquecível.

Estou aqui, Nishi!

Nessas Olimpíadas, ainda tivemos a oportunidade de ver a história sendo escrita! Da arquibancada, acompanhei a final do feminino, e a tenista porto-riquenha Monica Puig fez história perante milhares de pessoas! Vitória sobre a alemã número 2 do mundo Angelique Kerber, e a coroação com a primeira medalha de ouro da história de Porto Rico!

Cerimônia de entrega de medalhas — Torneio Simples Feminino

Foi tudo muito emocionante, e após a cerimônia de entrega de medalhas, Monica se reuniu com todos os voluntários para uma grande foto! Mais um daqueles momentos incríveis!

A medalhista de ouro
Monica Puig!

Definitivamente ter participado das Olimpíadas como voluntário foi uma experiência indescritível! Os jogos olímpicos terminaram e o que ficou são muitas histórias para contar, amigos incríveis do mundo inteiro e a sensação de ter feito parte dessa história é impagável. A emoção de ter acompanhado isso de perto, ter sentido o verdadeiro espírito olímpico, isso não tem preço. E digo com toda certeza, não tem dinheiro que pague essa experiência.

Grandes amigos!

Mas os jogos não terminam aqui! Que venham as Paralimpíadas Rio 2016 e posteriormente, Tokyo 2020! Nos vemos em breve!

Von FitzAlbert (UK), Saad (PAK), Eu, Adolfo (MEX) e Josh (ALE)
Team Ballkeepers! #Rio2016

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