Buzão das 08:00

por Thiago Almeida

Era mais uma segunda daquelas, em que você acorda cansado e se arrastando, pedindo para que o dia passe tão rápido quanto começou. A chuva está caindo, o trajeto é longo, e os pés já estão molhados. A própria entrada no ônibus já é um martírio. Você dá o sinal, o motorista atento vem reduzindo até o ponto. Você se afasta, afinal, não quer levar um banho de água suja logo cedo. Quando o ônibus para, vem a ação, fechar o guarda-chuva rápido o bastante para não se molhar, ou por sorte, se molhar o mínimo possível. Condução pública é assim, sempre tem uma surpresa diferente. Às vezes são os amantes de música com o celular no auto-falante fazendo todos ouvirem sua playlist fabulosa, ou às vezes pode ser algo mais peculiar.

Ele estava no banco de trás, e falava ao celular tão alto quanto podia, mais até do que suas cordas vocais pareciam aguentar. Cansado e com frio, eu só queria dormir e ter os meus últimos vinte e cinco minutos de descanso antes da labuta começar. Dentro de um ônibus de manhã, qualquer sussurro vira um grito. A conversa parecia ser com uma mulher, namorada, esposa ou até uma amante. Não sei. Os dois estavam empolgados, e ele se gabava do seu desempenho com ela.

“Eu estou com saudades”, dizia. “Não, não é só saudade daquilo. Tenho saudade de conversar com você também. Nossos papos, nossos beijos”, gritava.

Se isso é se dar bem e ter bom papo eu não sei. É a vibe, somos de tribos diferentes. Posso estar perdendo o tato para isso, ou talvez sejam apenas os tempos mudando. Tentei me virar e olhar para o indivíduo, na esperança que percebesse o incomodo e talvez respeitasse o espaço público. A verdade é que ninguém estava a fim de saber que o sexo entre eles não era o único motivo da ligação. Na verdade, ninguém queria saber da sua ligação.

Eu sabia que o infeliz iria continuar falando o tempo todo, então tentei abstrair mesmo assim. Impossível. Ele foi tagarelando até o final. Sim, até o ponto final, e foi descendo da condução com o maldito telefone no ouvido, sem ao menos se preocupar com assalto ou segurança. Assim foi o sujeito, subindo a rampa do metrô com sua maldita operadora, seu maldito programa de pontos e sua maldita promoção ilimitada.


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