Qual é o problema real entre Uber x Taxi?

Manifestantes do Movimento Ludista, no ano de 1811

Como bom cidadão antenado, você já deve ter notado que a Uber (sim, no feminino) é um alento e tanto para resolvermos pendengas do dia-a-dia: irmos às festinhas e baladas, almoço de família, casa dos pais ou a trabalho, na padaria da esquina e outros. Enfim, você pode contar com a empresa de carona compartilhada para onde der na telha. Estima-se hoje 4 milhões de usuários ativos da plataforma, dispostos em mais de 30 cidades em que está ativa hoje no país. Em parte delas, é possível pagar em dinheiro, facilitando a vida de quem não possui cartão de crédito.

Aqui no RJ, você sabe que, durante boa parte da sua vida, em muitos casos (note bem, eu disse “muitos”, não TODOS) você ou algum conhecido seu viveu e/ou participou de um rolo com o amigo do carro amarelo. E isso sempre foi uma das grandes queixas que os cariocas e brasileiros, de forma gradual, sofreram durante anos. Um ar-condicionado eternamente quebrado, um aroma de menta com cigarro, uma bufada desaforada quando você disse o destino, um “pra lá não vou porque tô indo pro outro lado (!)” entre outros problemas. Geral boladão.

Bem, e o que aconteceu? Chegou a Uber. Aí, meus amigos, o jogo virou.

E você sabe bem o que aconteceu nesse meio tempo desde que a empresa americana chegou aqui. Se você estava nas Ilhas Maldivas e não viu nada desde 2014 pra cá, fiz um resumo de como os anfitriões taxistas recepcionaram, até o fim de Novembro, a empresa bilionária:

07/2015 — Taxistas fazem manifestação contra Uber na cidade do Rio de Janeiro e aplicativo cresce 20 vezes.

08/2015 — Casal é agredido ao usar Uber em BH

04/2016 — Novo protesto de taxistas faz a cidade do Rio travar, levando 125km de lentidão em vários pontos (tempo de travessia da Ponte Rio Niterói bate novo recorde: 1h38min), no que resultou num aumento de 700% nos downloads do app;

05/2016 — Motorista do Uber é cercado, agredido por taxista e tem carro destruído

11/2016 — Taxistas destroem lounge da Uber no aeroporto Santos Dummont;

11/2016 — SMT autoriza taxistas a cobrarem corridas em bandeira 2 durante dezembro no Rio.

O ponto desse texto não é criar uma guerra e dizer que a Uber é a melhor coisa do mundo e os taxistas são raça de víboras. Há bons e maus profissionais em todas as esferas. A questão não é essa. E mesmo se fosse, ninguém teria o direito de apedrejar, esfaquear ou destruir o patrimônio alheio.

A grande queixa dos taxistas hoje é de que os motoristas da plataforma concorrente trabalham de forma ilegal. Mas essa história já foi batida há muito tempo (você encontra a base jurídica federal para a lei clicando aqui). Há pouco dias, um projeto de lei que tenta restringir o transporte de passageiros para os taxistas foi arquivado na câmara.

Os que desejam hoje entrar no ramo do táxi dispõem de benefícios e revezes. No lado negativo, os taxistas precisam fazer vários cursos de reciclagem, pagar autonomia, dezenas de documentos dos órgãos do governos e consequentemente outras diversas taxas para exercer a profissão livremente. Do lado bom, tem-se o desconto no IPI e IOF para novos automóveis, que é de 30% em muitos casos.

Os da Uber somente precisam de um carro acima do ano de 2008, com ar condicionado, 4 portas, alguns documentos pessoais e voilà: agora você é um motorista habilitado para a plataforma.

E os taxistas acham isso um grande problema. Até que começaram a implicar de forma mais ríspida, como nos exemplos citados acima. Mas quando você mexe com a população, fazendo-a sentir na pele certos prejuízos, meu amigo, ela responde de forma categórica. Não há sentido algum em destruir meu oponente usando a força do braço. Isso é pré-histórico. Coisa arcaica. E aliás, no passado é que podemos encontrar uma possível resposta para o título desse texto.

O movimento Ludista, que ocorreu em 1811 e 1812, (período da Revolução Industrial) foi um presságio de que a tecnologia e a modernidade causariam turbulência. Os trabalhadores se revoltaram com a possibilidade de substituição da mão de obra humana pelas máquinas. Eles quebravam os equipamentos da indústria, realizavam greves e invadiam fábricas na tentativa de barrar o avanço tecnológico. A principal preocupação era de que as máquinas tomariam seus empregos e que não haveria outra solução a não ser descartada completamente das empresas a ideia de ferramentas que fariam o trabalho dos trabalhadores. Se livrar dos concorrentes maquinários e modernos.

E como você bem sabe, não deu muito certo. O resto é história.

E é isso que, em boa parte, os taxistas e outros profissionais que se vêem ameaçados em suas profissões tentam fazer em detrimento às novas perspectivas. Até pode causar um efeito momentâneo, um carro quebrado ali, outro cliente insatisfeito e temeroso acolá. Mas será que terá resultado a longo prazo? Será que atitudes como cercar o veículo de um trabalhador, mandar que os tripulantes saiam do carro e agredi-los farão realmente que essas pessoas se sintam confiantes em, numa próxima oportunidade, mudarem de opção de transporte?

Bom, eu ainda não tenho os números dos últimos acontecimentos, mas eu tenho a leve impressão que essas estratégias não estão dando muito certo, principalmente com aqueles que realmente pagam o salário e definem o futuro dos taxistas: a população.

Muitos taxistas não se deixaram conformar com o crescimento da Uber, é verdade, e se modernizaram, mudaram seus hábitos, colocaram um algo a mais e conseguiram reconquistar a clientela. Isso é positivo. Isso é mercado. A concorrência gera mudança. A não ficar parado. E ela é benéfica para todos.

Conversando com um turista romeno, perguntei o que ele achava da Uber e ele me surpreendeu dizendo que no seu país existem 14 empresas que fazem o mesmo tipo de serviço de transporte individual e todos vivem pacificamente: se um não satisfizer o cliente, ele terá 13 opções diferentes. E a vida segue.

E não precisa ser um Sherlock Holmes pra saber que, na nossa vida hoje, tudo o que for real time e descomplicado pega. Vivemos em tempos assim: quanto mais prática e eficaz for a solução para um determinado tipo de problema, terá melhor aceitação da sociedade.

Se a luta dos taxistas e sua revolta fosse mais direcionada aos nossos governantes e leis que exigem toneladas de burocracia para trabalharem, faria ainda mais sentido. Será que se a legislação para esses profissionais e a dificuldade para se tornar um taxista fosse mais branda, teríamos um problema com um concorrente a esse ponto? Por que é tão difícil se tornar um autônomo no nosso país? Será que a solução então é matar um “inimigo” enquanto o principal e mais forte prevalece sobre todos?

Quando os próprios entenderem isso e buscarem com o mesmo afinco com que se desdobram em protestar contra a Uber de que o malvado dessa história toda é outro, certamente a sociedade os apoiará. E o espírito do manifestante Ludista será deixado para trás.

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