Fenomenologia do sorvete

meditações sobre o mais delicioso e comestível troféu do hedonismo

Virginia Evans

Enquanto coisinhas vivas dotadas de mobilidade e ambição, nós humanos fomos abençoados pela agonia de inventar. Das invenções humanas, podemos dizer que algumas expressam o nosso fracasso e outras o nosso sucesso. O fracasso e o sucesso observáveis nas coisas que inventamos dizem muito sobre nossos traços mais infantiloides e audaciosos, na medida em que escancaram nossas asneiras tanto quanto nossas superações. Esse jogo de acertos e erros resulta em coisas belas, coisas horríveis, coisas inúteis e, às vezes, coisas gostosas.

Das invenções-fracassos, podemos mencionar como exemplos a vuvuzela, o salto alto, o esperanto e a peruca masculina. Das invenções-sucesso, podemos citar a Ilha de Caras, panelas, roupas, TV em cores, sinfonias e canções, a fotografia e, por fim, o sorvete.

Importa dizer que o fracasso e o sucesso de uma criação não dependem da sua popularidade, e sim do grau de disposição para o avanço da experiência humana que nos provoca. Por isso, um fracasso pode resultar num sucesso. Dessa maneira, algumas coisas são fracasso-fracasso enquanto outras são fracasso-sucesso, e o contrário também. A Ilha de Caras, por exemplo, é um sucesso-sucesso porque, além de deslumbrante e cheia de pessoas aparentemente bonitas e felizes, nos instiga a muitas reflexões em busca da noção de nós mesmos e do que somos capazes a partir dessa suposta tomada de consciência. A Ilha de Caras nos faz pensar: estamos desfrutando de nossas vidas?, a natureza bruta pode mesmo ser vivida como um evento high society?, estamos a um passo para um lugar melhor ou pior ou tanto faz?

Cada um desses acontecimentos não seria possível sem a presença humana. Tudo que não brota espontaneamente em florestas, mares, ares e galáxias depende forçosamente da interferência do homem, esta espécie dúbia, ancorada entre o mistério fantasioso do que não existe e a superfície burocrática das coisas nomeadas. O homem está no mundo e não se contenta em só estar, ele quer fazer — e faz. Às vezes isso é legal-divertido-emocionante, outras vezes é somente vergonhoso, sem-noção e deprimente.

Pelo menos neste planeta, é a humanidade que investiga, forja, cria. Imitação: grande poder. Olhamos, ambicionamos e imitamos a natureza. Foi a humanidade que observou as calotas polares e os icebergs distribuídos nos oceanos congelantes e resolveu imitá-los de um jeito mais divertido, dando sabor e doçura ao gelo: criou-se assim o que viria a ser o sorvete, outro exemplo de sucesso-sucesso.

É possível elaborar uma investigação do sorvete, assim como vários outros exemplares da espécie humana detentores da coceira do conhecimento já se debruçaram sobre o que faz de uma coisa X uma coisa X e não uma coisa Y ou apenas coisa-nenhuma.

Dito isto, pergunto: por que existe o sorvete?, de onde vem?, o que é?, quem criou e o que pensou ao criar?, será que foi tudo um acidente?, o que é o sabor, quais e como são as moléculas, como se agrupam, como se dissolvem?, por que fazem assim e não de outro jeito?, que percurso fazem até o nosso cérebro?, como se deu a trajetória do primeiro sorvete até a atual proliferação de sorveterias?

Meu empenho mais recente, enquanto explorador daquilo que brota da fenda sobre a qual flutuamos ancorados em angústia e inquietação, tem sido a investigação do sorvete. Nas minhas pesquisas de campo (ainda em andamento), tenho enfrentado sabores diversos e genuínos, dentre os quais destaco os seguintes: seriguela, capim-santo com limão, jabuticaba, castanha-do-pará, lichia, tamarindo, pitanga e olho-de-sogra.

É verdade que dou preferência aos sabores de fruta ou de ingredientes diretamente naturais, mas não pretendo me fechar às delícias artificiais que atendem pelos nomes de doce de leite, pavê e, por que não?, ovomaltine. Ainda assim, justifico minha preferência pelos sabores de frutas pelo fato de que eles têm uma fronteira muito mais estreita entre aquilo que explode no mundo como acontecimento não humano (frutas) e o que nossa potência criativa é capaz de forjar (sorvete). Enquanto os sabores “não frutas” passam pelos conceitos da elaboração de sobremesas “artificiais” (tiramisù, musse, torta de limão), os sabores de frutas são mais despidos de conceitos e de processos manufatureiros, industriais e linguísticos. Os sorvetes de frutas são um retrato documental de nosso lugar no mundo e de como nos relacionamos com aquilo que nos é dado. Já os sorvetes de sobremesas muitas vezes passam por outros e longos processos mecânicos, distanciando-nos, enquanto tomadores de sorvete, de nosso próprio lugar inaugural. Não que isso seja um problema, não que sejamos menos humanos ao elaborarmos catedrais artificiais de experiências sorvetísticas, mas enfim. Há quem prefira esses sabores justamente porque se distanciam do mais natural (“Se eu quisesse algo muito parecido com uma fruta eu ia lá e comia a fruta.”). Talvez tudo isso seja mesmo um jogo de longe-perto de nós mesmos. Sei lá.

ainda o fator humor vinculado à experiência do sorvete. Não há ou não deve haver ou não é possível que haja um pessimista capaz de manter-se enquanto tal ao consumir um sorvete. Tomar um “gelado” paralisa nossa língua e descansa nosso corpo da habitual ênfase nos fracassos da civilização — o que abarca desde a tecnologia poluente até mesmo as experiências traumáticas de relacionamento, mortes na família, homofobia e a incapacidade imponderável de comunicação completa que nos separa uns dos outros em solidões incontestáveis. Com um sorvete à mão, ninguém pode ser predominantemente fatalista. Com um sorvete à mão, para-se de se questionar pela razão do que não presta e pela origem da depressão pós-nascimento.

Por isso, precisamos avançar em busca de novos e inesperados sorvetes. Precisamos pensar na invenção de sabores como um rumo belo e sem linha de chegada porque sem limite. Se fizermos esse percurso, estaremos finalmente exercitando uma vida mais vivível. Nesse sentido, devemos louvar até mesmo o sorvete de bacon, uma audácia curiosa já presente no mundo; e embora eu ache desnecessário o cruzamento de hambúrgueres com delícias doces, considero este um experimento válido porque lúdico e, por fim, honesto com o non sense gerado pelas infinitas combinações possíveis no mundo dos acontecimentos. Mas acho que podemos nos esforçar na invenção de sabores naturebas: podemos pensar em sorvetes de raízes, tubérculos, ervas, frutas sazonais e regionais.

Avancemos, avancemos.

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