Criando um Personagem Memorável em 20 Passos

Olá, nobres aventureiros! Para inaugurar minhas escritas, vou falar de um problema que vivenciei muito ao longo desses 20 anos de experiência de RPG: o que é necessário para se criar um personagem memorável?

O maior erro que vejo muitos jogadores — iniciantes e veteranos — cometerem é deixar para o narrador o trabalho de tornar seu personagem interessante. Amigo, o personagem é seu! Claro, não passe por cima do que o narrador passou de background, do que ele limitou sobre raça, classe, etc., mas o trabalho de transformar seu personagem em um personagem interessante cabe a você! E isso não será feito somente estando presente às sessões e interagindo com o narrador e com os outros jogadores. Para tornar seu personagem memorável, você precisará entregar ao narrador insumos para que isso seja possível. Mas como fazer isso?

Tive contato com a segunda edição do 7th Sea, e nele, me deparei com um questionário muito interessante, que o sistema sugere ser respondido antes mesmo de começar a se pensar na criação “mecânica” do personagem, na ficha propriamente dita. Lendo esse questionário, percebi que ele pode facilmente ser adaptado para outros sistemas. Responda esse questionário com o maior número de detalhes possível, e tenho certeza que estará dentro do caminho para criar — ou transformar um já criado, mas que está meio sem perspectivas — num personagem que você se lembrará durante toda sua vida RPGista.

1) De que lugar vem seu personagem? Quais são os principais pontos da cultura desse lugar?

Essa pergunta lhe dá a base na qual você irá construir seu personagem. Quando você entender a cultura de seu personagem, você irá começar a entendê-lo. Imagine como o ambiente em que ele cresceu ajudou a modelar sua personalidade. Sua terra natal fica dentro de você, não importa aonde você esteja.

2) Como você descreveria fisicamente o seu personagem? Que detalhes dele você acredita que chamam a atenção dos outros?

Primeiramente, seu personagem é homem ou mulher? Como é a aparência física? Comece descrevendo o cabelo de seu personagem e vá descendo até a ponta dos pés. Foque em coisas que refletem sua personalidade e que possa levar outras pessoas a tratar ele de uma forma específica. Por exemplo, o que é mais interessante — o fato do seu personagem ser loiro, ou usar seus longos cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo, que ele trata usando um bálsamo contrabandeado de Thay, que cheira à campânulas?

Altura e peso também possuem importância na forma com que outras pessoas percebam seu personagem. Ele é alto e gordo, de sorriso fácil? É baixo, mirrado e com um ar sombrio em seu rosto?

3) Seu personagem possui algum cacoete?

Um sotaque, um tique que aparece toda vez que ele fica nervoso? Uma expressão peculiar que aparece em situações específicas? Pode parecer um detalhe bobo, mas isso auxilia em muito a construir um personagem marcante. Mas cuidado: detalhar muitos cacoetes podem transformar seu personagem em um palhaço. Escolha um ou dois, e pronto.

4) Qual é a principal motivação de seu personagem?

Essa é talvez a pergunta mais negligenciada na criação de um personagem, e é a mais importante de todas. O que faz com que seu personagem levante todas as manhãs e coloque seu pescoço a prêmio, explorando masmorras, florestas sombrias, a vastidão do universo, etc? Será ganância? Amor? Vingança? Talvez seu personagem sonhe em libertar seu país, que está ocupado por forças estrangeiras. Ou talvez resgatar um irmão que foi sequestrado por saqueadores.

5) Qual é a maior força de seu personagem? E qual sua maior fraqueza?

Seu personagem é realmente bom em algo? O que seria? Talvez ele seja um exímio navegador que pode manobrar uma nau entre um canal rochoso na mais escura das noites, confiando somente em seu instinto. E qual sua pior fraqueza? Talvez animais tornam-se agressivos próximo dele, ou talvez ele se sinta desconfortável perto de mulheres, fazendo automaticamente comentários idiotas quando está próximo de uma bela dama.

Um personagem sem pontos fortes dificilmente se encaixará de alguma forma num grupo, e um personagem sem pontos fracos é difícil de se criar empatia. Um personagem com pontos fortes e pontos fracos irá se desenvolver em uma experiência riquíssima de “roleplay”.

6) Qual é a coisa favorita de seu personagem? E o que ele mais odeia? Como essas coisas o afetam?

O segredo da sopa está SEMPRE em seus pequenos detalhes. Seu personagem odeia ovos? Talvez a consistência mole e pegajosa da gema de um ovo enoja ele. Talvez ele tenha um café da manhã preferido que toma sempre que tem a oportunidade, como por exemplo chá e torradas frescas com manteiga. Talvez não seja comida que seu personagem ame ou odeie, mas sim um cheiro, uma visão. Muitas pessoas encontram uma enorme paz interior ao simplesmente observar as estrelas durante a noite, enquanto outras não ficam felizes enquanto não sentirem o cheiro característico do mar. Essa é uma enorme oportunidade de acrescentar um pouco de poesia à alma de seu personagem!

7) Como é a personalidade de seu personagem?

É difícil para ele conter sua raiva? Suas paixões sempre fazem com que ele perca o bom senso? Talvez ele ame a adrenalina da batalha, regojizando com ela, e solta gargalhadas durante um combate. Talvez uma canção em particular faz com que ele levante-se imediatamente e comece a cantar e dançar. Ou talvez uma lembrança em particular traz lágrimas a seus olhos.

8) Qual é o grande medo de seu personagem? Como este o afeta?

É raríssimo encontrar uma pessoa no mundo que não teme absolutamente nada. Até mesmo nas profissões e hobbies que exigem muita bravura, como bombeiros, policiais, soldados, paraquedistas, etc., pouquíssimos são aqueles que não possuem um grande medo. Não precisa ser diferente em mundos de fantasia. Seu bravo guerreiro pode ter um incontrolável medo de altura, ou morrer de velho, agonizando em uma cama, ao invés de morrer no calor da batalha. Se o seu personagem tem medo de morrer de velhice, e ouve rumores sobre uma fonte que traz juventude eterna à quem bebe de sua água, o que ele faria? Não são raras as vezes que o grande medo de um homem levou este a conquistar o maior de todos os seus feitos!

Claro, muitas pessoas temem coisas muito mais simples e paupáveis do que morrer de velhice. Algumas pessoas possuem um medo paralisante de cobras ou aranhas, outros ficam apavorados quando próximos de vermes ou criaturas pegajosas. Outras pessoas sofrem de ataques de pânico quando envoltas de escuridão total.

9) Qual é a grande ambição de seu personagem? E sua maior paixão? O quanto ele se deixaria levar por essas coisas?

Quando seu personagem morrer, o que ele deseja que as pessoas falem sobre ele? Ele deseja ser lembrado para todo sempre pela sua maestria com a espada? Pelo seu dom de fazer as mais belas canções já ouvidas pelo homem? Talvez ele deseja algo mais simples, como uma pequena casa e uma esposa amorosa, mas o destino ridiculamente o obriga a continuar se aventurando, missão após missão. Talvez ele sonhe com a glória e um reino só dele, ou uma nação unida por seus feitos.

Se ele pudesse viver para sempre, o que ele gostaria de fazer para gastar a eternidade? Navegar? Cantar belas canções? Conquistar belas mulheres? Catalogar artefatos mágicos? Qualquer seja sua maior paixão, seu personagem consideraria abraçar qualquer oportunidade para alcançá-la.

10) Qual é a opinião de seu personagem sobre sua nação?

Seu personagem é um patriota fanático, cego para as falhas de seus conterrâneos e seus líderes, ou ele é um homem sem uma nação, que cansou-se das imbecilidades que aconteciam em seu reino anos atrás? A grande maioria das pessoas seguem no meio desses dois exemplos, sem odiar sua nação e sem acreditar que nada de errado acontece por lá.

11) Seu personagem carrega consigo algum preconceito?

Existe algum grupo de pessoas que seu personagem não gosta? Se ele for um nobre medieval, talvez ele não suporte “o cheiro desses aldeões imundos”. Ou talvez um meio-elfo tenha matado sua mãe quando ele ainda era criança, fazendo com que ele passe a odiar todos os híbridos de humanos e elfos, acreditando que não passem de aberrações. Talvez não exista nenhum motivo para que seu personagem odeie um grupo específico de pessoas, mas ele pode acreditar que existe. Situações traumáticas de infância podem fazer com que seu personagem passe a vida odiando um grupo.

Para o bem de seu grupo de RPG, se você escolher odiar algum grupo, busque um que nenhum personagem de sua mesa faça parte. Nota: parto aqui do pressuposto que não é necessário dizer que “eu odeio negros! eu odeio judeus!” é um caminho extremamente perigoso para escolher para seu personagem, muito desnecessário (salvo raríssimas exceções de cenário/contexto escolhido pelo grupo), e que isso é dez vezes mais desnecessário quando alguém de seu grupo, na vida real, faça parte dessa etnia. Não seja um imbecil.

12) Aonde estão as lealdades de seu personagem?

Seu personagem jurou lealdade a um nobre? Talvez sua lealdade está somente em sua família, clã ou causa. Talvez sua lealdade esteja somente nele mesmo e em mais ninguém, colocando suas ambições, anseios e necessidades sempre em primeiro lugar.

13) Seu personagem está apaixonado? Ele é casado ou está prometido?

Existe alguém no mundo que faz com que o coração de seu personagem bata mais rápido num simples vislumbre? Talvez ele já seja casado com o amor de sua vida, ou casado por obrigação com uma pessoa, mas seu coração ama outra. Ele possui filhos? Se sim, que idade possuem? Talvez ele esteja somente prometido para alguém e feliz — ou muito infeliz — com o casamento que acontecerá em algumas semanas.

14) Seu personagem possui família? Como ele enxerga seus parentes?

Decida um sobrenome. Depois, pense na infância de seu personagem. Liste eventos que possam ter ocorrido antes mesmo de seu personagem poder lembrar deles. Alguns desses eventos podem influenciar a vida dele sem que ele saiba disso. Além disso, considere também a posição social da família dele. Um personagem vindo de uma família riquíssima pode ter uma visão de mundo muito diferente de um personagem vindo de uma família humilde.

15) Como os pais de seu personagem descreveriam ele?

Essa pergunta revela muito de seu personagem e sobre seu relacionamento com seus pais. Responda essa pergunta na voz da mãe dele, depois responda a mesma coisa na voz de seu pai. Você perceberá que terá duas respostas muito distintas, ambas extremamente ricas na montagem da personalidade de seu personagem.

16) Seu personagem é um cavalheiro?

Ser um cavalheiro vai muito além do modo que ele trata as damas, ou os mais velhos. Para verdadeiros cavalheiros, sua palavra vale ouro, e seu código de conduta é seguido à risca a todo momento. Claro, haverão aqueles que se aproveitarão disso, ou aqueles que acharão tudo isso uma bobagem, mas isso sempre poderá dar insumos para as canções de um bardo, ou para conquistar o coração de uma donzela.

17) Seu personagem segue alguma divindade? Possui alguma religião? Como ele se deixa afetar por ela — ou pela falta dela?

Para muitas pessoas, sua religião é sua maior paixão. Muitas religiões nutrem até mesmo a forma com que as pessoas são educadas, a forma com que se sentem em relação aos menos favorecidos, o que consideram certo e errado. É claro, não raramente cenários de RPG trazem religiões, seitas e divindades malignas, ou até mesmo atos malignos de religiões consideradas boas, como por exemplo a Inquisição da Igreja Católica.

Como a religião de seu personagem (se é que ele possui alguma) afeta seus atos, seu jeito de pensar? Como ele vê praticantes de outras religiões? Como ele vê pessoas sem religião? Seu personagem pode ter uma religião, mas não ligar muito para ela, rezando em momentos de necessidade, mas nunca “perdendo tempo indo para a igreja”

18) Seu personagem faz parte de alguma organização? Qual seu papel nela?

Contatos são importantes, até mesmo para aqueles que são meros fazendeiros. E algumas pessoas, para facilitar esses contatos, se organizam em grupos que reunem pessoas com objetivos em comum. Guildas, organizações militares ou paramilitares, Ordens, etc.. Se ele faz parte de alguma organização, que papel ocupa dentro desta? Que tipo de atitudes se esperam de alguém dentro da posição que ele ocupa?

19) O que seu personagem pensa sobre magia? O que pensa sobre seus usuários?

Magia é algo que varia muito de cenário para cenário, sistema para sistema. Em Forgotten Realms, em sua versão para D&D 3.5, se dizia que magia era algo tão banal e comum, que os personagens não deveriam se espantar se vissem um fazendeiro saber um truque ou dois, ou pelo menos carregando um arado mágico que exige menos esforço físico para ser usado. Em 7th Sea a magia é presente, mas não tão difundida e não tão bem vista. Como o seu personagem encara a magia? O que ele pensa sobre os usuários de magia, tanto divina quanto arcana? Ele próprio possui algum poder arcano? Qual é o limite que ele considera tolerável do uso de poderes dessa natureza?

20) Se você pudesse, que conselho daria ao seu personagem?

Leia mais uma vez, com calma, todas as respostas das questões anteriores. Imagine-se então conversando com o seu personagem, como se ele estivesse sentado em sua frente. Que conselho você daria a ele?

Responder esses 20 passos não transformará seu personagem em um Gandalf o Branco, cujo nome ecoará em todas as mesas de RPG do mundo, mas é o primeiro passo para fazer um personagem que, com certeza, ficará em suas memórias por muitos anos, além de tornar seu jogo mais divertido. Quanto mais aprofundado é o background do seu personagem, mais um narrador pode trabalhar nele com maestria.

Um grande abraço, e que os deuses rolem bons dados para vocês!