Vai tomar banho antigamente era o último dos xingamentos, aquele que exalava a última das raivas e que era capaz de levar uma discussão pro contato físico. Hoje é quase um pedido, do tipo “quero tomar banho logo cara, vai lá tomar o seu”, “posso tomar primeiro?”, e a resposta costuma vir: “não, espera aí, tô só terminando um negócio aqui”, e segue martelando a tela do celular como quem nada, até que escuta a água do chuveiro tocando o chão.
Pouco importa que se perca a vez, pois a vez em si já perdeu certo valor, junto com o lugar marcado e a caixa postal. Dessa, me lembro das gravações personalizadas, que não raramente, contemplavam famílias inteiras na mensagem. Na de um amigo, chegava a latir o cachorro ao fundo, pois se podia haver quem quisesse lhe deixar recado, talvez a cadela da vizinha, que uivava sua solidão noturna, talvez ela quisesse lhe falar.
Também na sozinhês da noite, aos que lhes faltam a si mesmo, servem os ruídos dos televisores lhes prestar companhia. E nem se olham, mas convivem, como se a presença de barulho lhes bastasse para presença, e não lhes dá medo como o barulho do silêncio, que por oras parece algum intruso na cozinha, que se invadiu o apartamento enquanto se despercebia. Geralmente é vento a debater as janelas, que se soltam os vidros e derrubam os vasos de planta, que se fingem de intrusos encapados, como gatos se fingem de bobos.
E a muitos que estão acompanhados, já lhes esfriou a chama da vida a dois, se comportam cada vez mais solitários, a dar risos sozinhos para a tela, e quando se pergunta “oque houve?”, a resposta vem como um rio prestes a secar: “nada”.
Até as comidas, que antes eram preparadas na cozinha, agora vêm em caixas, trazidas por moços em motocicletas, e não tem o mesmo gosto das que se comiam nas casas de antes, com suas mesas fartas e taças de vinho cheias até o talo. Os brindes eram feitos com o olho, que olho no olho não se quebra como as taças, e não se tem que recolher os cacos depois no chão.
Hoje, alguns xingamentos servem como vírgulas, como a dar pausa nas falas, quase que um gesto de agrado, a descansar o tímpano de quem escuta, a pupila de quem lê. Que aprazível, a pessoa que xinga, amante do afeto, e no banheiro, já não se escuta mais a água do chuveiro tocar o chão; “terminei”, finalmente, chegou minha vez de tomar banho.
