Chocolate

I. Onda Negra — Boogarins
Na quarta feira, 22 de agosto, fui tomado pelo pensamento de sair sozinho no sábado, dia 25. Talvez eu tenha sido tomado aos poucos, ao longo dos dias, minutos. Ou foi muita publicidade sobre o evento de música que eu sentia vontade de ir que acabou me influenciando, ou despertando o desejo de estar lá. Há algum tempo eu não saia sozinho. E durante a formação da minha personalidade eu tive de aprender a sair só. Desde muito cedo. Na adolescência, uma das coisas que mais fiz foi ir ao cinema desacompanhado. Posso dizer que 90% das vezes que fui ao cinema não havia niguém comigo. E depois, quando passei a ir a shows de música, em muitas vezes fui só. Nisso eu aprendi várias coisas. Desde que eu sou tímido pra caralho, até mesmo de que é possível interagir com pessoas que sejam desconhecidas. O que aconteceu comigo duas vezes talvez (?). Descobri a vantagem de se fazer o próprio horário. De ver o que se quer. Ficar até a hora que quiser. Mas em algum momento eu fui perdendo isso. Deixei de ir sozinho a shows. Deixei até mesmo de ir sozinho ao cinema. Até fui ao cinema de forma solitária ano passado. Mas era cada vez mais raro nos últimos meses. Não que não houvesse vontade. Havia muita. Mas em algum momento ela se perdia e eu acabava ficando onde estava. E vinha o arrependimento. A raiva por não ter ido. Porque poderia ser bom pra mim. Poderia ser divertido. E eu que sempre tive vontade de adquirir experiência sobre coisas, lugares, acontecimentos, estava ausente disso. Em algum ponto eu suspeito de onde veio essa ausência de vontade de fazer coisas que antes eu gostava de fazer. E eu sabia que seria bom fazer isso novamente. Ou ao menos tentar. O ingresso do evento não era tão barato. Até mesmo por ter atrações internacionais. Mais de uma até. Mas considerando o preço de outros festivais de música que acontecem no país até que o valor não era tão absurdo. Na quarta fiquei falando com quem surgisse no meu caminho sobre essa vontade ir. O ato de falar com o outro era uma maneira de me convencer a ir. E, em algum ponto, eu enrolei pra comprar o ingresso, que eu só fiz na quinta à noite. Depois de comprado o ingresso eu caí no que tinha feito: agora tenho que ir nisso. Existia uma possiblidade de encontrar lá alguém que eu conhecia, Baroninho (vulgo Bruno Chagas), e até mesmo mostrei o ingresso a ele. Que reagiu dizendo que iríamos “pular muito”. O que depois se mostrou sendo algo que acabou não acontecendo. Mas ali, com o ingresso comprado, eu já comecei a me imaginar no evento, e mais, comecei a já criar na minha cabeça todo o trajeto que faria, o horário que sairia de casa para não me atrasar, já que eu queria ver todos os shows. Teria dj também, mas eu estava pouco me importando com isso. Queria mesmo era ver os shows. Não conhecia todos os artistas que iriam tocar lá. Comecei então a procurar as músicas para ouvir. Alguns eu já tinha escutado uma coisa aqui ou lá. Mas acho que só dois mesmo eu tinha escutado muito: Father Johhn Misty e Boogarins. Mas em algum lugar eu temia desistir no meio do caminho. No dia podia surgir um desânimo grande e não ir. E nem era sábado ainda. Fiquei pensando nisso entre quinta e sexta. Mas aí chegou o sábado.
II. Flerte Revival — Letrux
Acordei até cedo no sábado. Era um ritmo de sono que estava me acompanhando nos últimos dias. Criei toda uma programação do que deveria fazer durante o dia. Daria tempo de limpar o quarto, ainda ouvir um pouco das músicas dos artistas que ainda não conhecia muito. E precisava almoçar. Comida mesmo: arroz, feijão. Mesmo que fosse só isso. Eu ficaria um tempo considerável no transporte público, precisava estar bem alimentado. Até mesmo pra ter energia para o tempo que eu ficaria lá. Com isso eu teria que almoçar fora do horário que costumo comer, mais cedo. E o meu relógio da fome já é meio programado pra um determinado horário. Mas nesse dia como eu tinha gastado energia limpando o quarto foi até fácil ter vontade de comer fora do horário habitual. As coisas até que estavam caminhando. Mas como acontece sempre acabei me atrasando. E eu ainda passaria na Americanas pra comprar guloseima pra comer lá. A parte da Americanas foi até rápido. O que me fez demorar mesmo foi em casa. Nem eu sei o motivo direito do meu atraso. Enquanto isso eu falava com o Baroninho, e não tinha muita certeza sobre a ida dele. Na sexta ele tinha dito que tava muito bêbado. Eu já imaginava ele acordando no dia seguinte e com ressaca ou algo do tipo e desistindo de ir. E ele tem um histórico de desistir de ir já um pouco em cima da hora pra algum lugar. Pelo menos é o que lembro.
O ônibus que peguei em Bangu para ir ao Centro foi até que relativamente rápido. Mas nem senti tanto a viagem já que fiquei lendo o livro de contos da Alice Munro, “Fugitiva”. E cada vez mais eu me via envolvido com aquelas histórias e de como Munro contava aquilo, deixando o final suspenso de tal forma que em alguns momentos parecia ser também um tipo de tapa. Por falar em tapa, dentro do 369, o ônibus em que eu estava, entraram dois policiais, no ponto da rodoviária Novo Rio. Eles revistaram alguns caras. E claro que foi aquela seleção típica de policial: os negros foram revistados, ou indagados para onde iriam. Eu, o cara branco, nem olhado na cara fui. E eu estava como os outros caras de mochila também. Tinha até certo volume nela por ter o pacote de biscoito fandangos, um casaco, um lenço que acabou parando comigo. Mas pra polícia não há suspeita sobre o homem branco. Chegando ao Centro fui até o ponto final de outro ônibus, até comemorei dentro de mim que havia um ônibus lá que parecia que iria sair, que não teria que esperar outro chegar, nesse momento provavelmente o show da Letrux estava prestes a começar. Mas a minha expectativa ainda era pegar a metade. Mas essa expectativa se esvaiu diante da demora do ônibus sair do ponto final. E pra piorar o ônibus não estava com a cordinha que faz sinal para o motorista indicando que o passageiro vai descer funcionado. Então acabei descendo em outro ponto, bem mais distante de onde devia ter descido. Nesse tempo eu já estava mais do que puto comigo mesmo, me xingando de todos os nomes possíveis. E claro, a sensação que eu tinha é de que quanto mais eu andava mais longe ficava o lugar. Lugar esse que eu já tinha ido em 2016, em um show da Céu. E lá acabei falando com umas pessoas pois como era noite e eu não sabia como ir embora, então precisava me juntar a alguém para ao menos saber sair dali.
Chegando ao festival eu fiquei meio confuso com a entrada, mas fui seguindo, e enquanto isso ouvia Letrux cantando “Que estrago” minha música preferida do álbum. E eu não estava lá! Ou seja, eu sou um desgraçado mesmo que tem mais é que se fuder por se atrasar. Baroninho que mora em Petrópolis já estava lá. Mas não demora tanto também o trajeto Petrópolis x Rio. É que eu realmente moro em outra cidade dentro da cidade do Rio. Não só o bairro onde eu moro, mas todos os outros bairros dessa parte extrema da zona oeste do Rio que Senador Camará, onde moro, faz parte. Ainda queria ver ao menos o fim do show. Enquanto isso falando com Baroninho. Ele disse estar do lado esquerdo do palco, fui até lá e não o vi, mas fiquei parado ali mesmo pois o que me restava era o fim do show. Até que como se tivesse surgido do chão aparece ele. O rosto vermelho. Do sol talvez. Mesmo que no dia não estivesse tão forte o sol. Estava mais era nublado boa parte do dia. Algo a se dizer sobre eu e Baroninho: nós somos o exemplo de amizades que se fazem através da internet e não se veem tanto. Ou em alguns casos não se viram nunca. Eu o conheci em um grupo no Facebook. Da forma mais aleatória possível. E aí um dia comecei a conversar com ele e percebemos afinidades e isso continuou até hoje. E naquele dia era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. O que foi interessante perceber foi que não houve um constrangimento, um silêncio, no conhecíamos (e nos conhecemos) de tal forma que era como se eu estivesse vendo alguém que eu vejo toda semana talvez. Ao vê-lo logo lamentei que perdi a música que eu mais gosto da Letrux e que ouvi enquanto estava entrando. Eu literalmente vi só a última música e um trecho da penúltima, mas só esse trecho eu já achei bem bom, e pude ver que Leticia Novaes tem uma presença no palco muito forte. E chama muito o público pra si. Terminado o show da Letrux eu e Baroninho caminhamos para o outro palco onde teria o próximo. E nisso falávamos sobre a nossa chegada ao lugar. Eu atrasado. Ele cedo que deu tempo até de se alimentar como queria (e como adora fazer).
III. Partilhar — Rubel
Assim que começou o show do Rubel, que Baroninho logo fez um trocadilho que ele tanta gosta de fazer: Rubéola, perguntei a ele se gostava do cantor. A expressão que ele fez só me fez rir. Ele não precisou dizer nada. Toda a banda que acompanhava Rubel estava com roupas brancas. Baroninho disse que aquilo lembrava a ele a maneira como a Faith No More se apresentava. Inclusive procurou na internet fotos pra me mostrar a semelhança. E em uma delas tinha umas flores no palco o que acabou me lembrando um velório. Baroninho associou ao céu. Ele disse que falou velório também. Mas se eu não ouvi e não lembro, e como estou escrevendo é essa a versão que vale. Cheguei a perguntar a Baroninho se essa era banda do “clipe do olho”, ele disse não saber. Mas é essa mesmo. É o clipe da música “Epic” que vi algumas vezes na televisão de madrugada entre 2010 e 2012 na mixtv. Comecei a conversar com Baroninho mas o som estava muito alto, e minha voz é baixa, então acabamos nos afastando do palco pra conversarmos melhor. Não que fosse algo muito importante. Na verdade não era nada importante. Pra mim não foi um problema já que não estava achando o show tão bom, e Baroninho foi o que mais falou mal do show. Eu só conhecia duas músicas do Rubel. E fiquei com a sensação que ele não queria muito estar ali. Ele pareceu desconfortável no show em alguns momentos. Tanto que quando o show acabou tive a impressão que durou menos do que deveria. Ali no público, Baroninho me mostrou uma moça que ele tinha dado match no tinder, e ela havia dito a ele que cálculo não serve pra nada. Ele como um matemático que é claramente ficou ofendido. Mas certamente nada disse e imagino que a partir disso deve ter parado de falar com ela. Não sei se foi só isso. Me parece que mesmo falando mal de cálculo Baroninho se tivesse um interesse muito forte continuaria insistindo com a tal moça, parece que não foi o caso.
Eu queria saber onde seria um tal mirante que vi no mapa do festival. Baroninho ganhou um papel que vinha com o mapa do festival e a programação. Um pôster na verdade. Não ganhei nada. A partir desse pôster fomos lá. Mas havia uma fila e desistimos. Na verdade eu desisti. Baroninho não esboçou a mínima vontade de subir. Ficamos então no que seria a base do tal mirante. E balançava. Era uma estrutura em que o chão era feito de um material que me lembrava cortiça, mas eu não tenho certeza. Esse balançar ao andar me levou as passarelas da Av. Brasil, que sendo as improvisadas, ou as de concreto, ou as de ferro, balançam pra caralho. Falei disso pra Baroninho, mas a sua expressão mostrou que ele não fazia muito ideia do que eu estava falando. Ainda estando nessa base, Rubel tocou umas das músicas que eu conhecia: Partilhar. Comecei a fazer uma coreografia qualquer a partir do que era dito na música. Baroninho ficou olhando pra mim como se não entendesse o que estava acontecendo. Disse que eu devia ser contratado pra ser a pessoa que faz a coreografia nos shows. No refrão da música ele fez mais uma versão que fazia sentido pra ele com a letra que era cantada: “Eu quero partilhar. Eu quero partilhar. Um prato de lanche com você.” Conhecendo Baroninho ao ele dizer isso a alguém significa que ele gosta muito da pessoa e isso é um tipo de declaração. Até o momento não sei se ele já fez isso.
IV. Pra Que Me Chamas? Xênia França
Xênia França só tinha um álbum lançado. Foi em 2017, e eu não escutei, mesmo ele tendo aparecido pra mim de diversas formas na internet. Acho que de certa forma eu ouvi o álbum enquanto arrumava o quarto. Inclusive no momento em que ela cantava “Reach the stars” disse a Baroninho que ouvi a música enquanto molhava um pano pra passar no chão no quarto, naquele mesmo dia. A primeira coisa que disse a Baroninho quando eu a vi surgir no palco foi o quanto ela era bonita. E ela começou lá em cima. Com uma música animada. E eu dancei. Estava ali pra aproveitar. Baroninho não se mexia. No show do Rubel ele falou em “concerto de música”. É uma baboseira qualquer isso que ele disse. E tendo dito isso comparou o público do Rio com o de São Paulo. E disse que até a maneira de se vestir é diferente. No caso eu seria o público do Rio já que estava me mexendo e estava de bermuda. Enquanto ele era o público de SP, parado e vestido com calça. Eu não posso comprovar isso ou não já que nunca fui a SP para ver algum show. Ele disse ter visto o show do Sigur Rós em SP e falou de como todo mundo ficou parado, mas fez questão de lembrar o tipo de música que eles tocam, então… O show da Xênia é algo bem da galera de humanas mesmo. Ela costuma fazer umas falas sobre acreditar em si mesmo, o que é até bom, mas também diz coisas como dimensões: quinta e sétima e pede até pro público fechar os olhos em determinado momento. Eu não fechei o meu. Mas fui até ao olho de Baroninho pra ele fechar o dele, mas ele não fechou, só riu mesmo. E ele esteve de certa forma em alguma dimensão que a Xênia tinha dito, pois não parava de olhar pro céu intrigado com o que, a meu ver, parecia ser um balão ou algo assim. Não sei o que o fez ficar tão absorto naquilo. E também olhava para o céu dizendo que iria chover. O que era um temor meu já que não podia levar guarda chuva e apenas capa de chuva e eu não tinha levado uma capa, e descobri depois que há uma em casa. Uma coisa que achei engraçada, e que depois iria se repetir em outro show, era ver Xênia cantando “Respeitem meus cabelos, brancos”, uma versão de uma música do Chico César de um álbum dele de 2002, e eu ouvi falar dessa música em uma aula do curso de Letras que eu fiz. A professora dava ênfase de como a vírgula fazia uma diferença ali. E para quem na letra Chico César estava se referindo. E a maior parte do público ali era composta de brancos. E a música é claramente um recado. Que por sinal é uma música que funciona muito melhor ao vivo. E enquanto ouvia, pensei que de algum jeito essa música faz um diálogo com “Don’t touch my hair” da Solange. E isso é bonito.
V. Benzin — Boogarins
Um tempo atrás conversando com Baroninho ele me disse que não gostava muito de Boogarins. Fez até uma comparação que eu achei bem nada a ver com Tame Impala. E eu disse que prefiro bem mais Boogarins a Tame Impala. Até por achar esses caras da Austrália meio pomposos. E o Boogarins era claramente um daqueles que estava no festival que eu conhecia bem a música que tocam e estava muito disposto a me entregar ao show. Nesse eu fiquei bem lá na frente. Baroninho também. Até houve um momento em que ele saiu. Mas eu estava tão entregue que nem percebi muito quando foi e principalmente quando voltou. Na volta tinha um copo de bebida na mão. Era gin tônica. O que me faz pensar que isso é o tipo de coisa extremamente baronesca de beber. Digo considerando o que já conversei com Baroninho sobre bebida. E essa escolha dele pra beber isso é algo baronesco por essência. Se no show Xênia falava sobre estar em outra dimensão, na quinta, na sétima, ali eu estava na décima primeira. Baroninho falava em vigésima terceira. Ele diz isso por ter nascido no dia 23. Eu digo por ter nascido no dia onze do mês onze. Ambos gostamos de números ímpares. Ele por ser matemático tem motivo diferente do meu. Minha motivação é quase mística talvez. Não sei se é bem isso. Mas eu estava entregue mesmo. Fechei os olhos várias vezes. Dancei o que pude. E o Boogarins cria outra coisa tocando ao vivo. Eles começam tocando a música tal como está no álbum, mas em determinado parece que estão tocando outra música, só que ainda é a mesma. Eles vão criando umas variações dentro da música e aparece outra coisa ali. Um som dentro de um som. Diferente do que o Rubel fez que foi fazer uma versão mais animada da música mais conhecida dele. E esse show foi a surpresa: Baroninho estava dançando! Baroninho estava de olhos fechados balançando o corpo e até mesmo batendo o pé no chão (dias depois eu veria o mesmo tênis que Baroninho estava no festival com o protagonista do filme “Projeto Almanaque”)! Que momento! Logo fui até ele e mais de uma vez e o perguntei como ele achava o Boogarins ruim. Justificou dizendo que eles não eram bons nos álbuns, mas eram bons ao vivo. Não levei muito em consideração essa justificativa, mas ok. Mas estavam os dois lá, entregues, eu é claro, mais que ele. Uma oportunidade perdida era não ter filmado Baroninho nesse momento. E fiquei muito apaixonado pelo vocalista da banda. Em determinado momento ele começou a dançar lá de um jeito que eu achei, claro que dentro do que entendo como sedutor, algo que me seduziu por completo. A única coisa que senti falta mesmo foi que eles não tocaram “Lucifernandis”. Até pensei que seria a última música que eles iriam tocar. Mas não foi isso que aconteceu. Mas tocaram outras que gosto muito, e eu pude dançar, e comprovar que é possível dançar bastante com uma mochila nas costas, e isso se confirmou mais a frente ainda em outros shows. Foi tão ótimo que pareceu que foi muito rápido. E talvez tenha sido mesmo. Ou só pode ter sido a intensidade da minha entrega ao momento do show. E ainda teve a influência da gin tônica que agiu sobre Baroninho o fazendo ir pra dimensão de número 23 dele. Não chegamos a falar depois se esse foi o melhor show do dia. Mas certamente chegaríamos à conclusão de que seria um dos melhores. “Vou tomar um doce amor. Por que não vem?”.
VI. SAMARITAN — ionnalee
Depois de ter gastado energia no show do Boogarins senti vontade de comer algo. Então recorri ao chocolate que tinha comprado na Americanas. Uma das três barras. Até aquele momento eu não tinha sentido vontade de comer nem o chocolate nem o fandangos. Baroninho me perguntou se eu conhecia algo sobre a ionnalee e eu disse que ouvi umas duas músicas e só. Ele disse que não estava tão interessado em ver o show dela em pé. Eu também não estava. Então sentamos em um gramado próximo. Não cheguei a comer muito o chocolate porque logo me veio um enjoo e não entendi muito bem o motivo. Baroninho ficou me zuando dizendo que era um “filho marrom”. Enquanto isso vi uma comoção grande de homens gays indo para o show da ionnalee. Comoção que já tinha visto na internet, mas eu como fazendo parte desse grupo não fazia ideia de quem era essa mulher, e olhando o show dela através do telão não me comovi muito. Basicamente ela cantava de frente para um ventilador com uma roupa preta, mas sem banda, só tinha um cara lá trás mexendo no computador, claro que é um som eletrônico, é até compreensível ter muito computador, mas… Até disse para Baroninho que o show que os gays mais esperavam e eu não esperava, e ainda estava sentado. Disse que o fato de ter muito contato com ele, um hétero, estava me afetando. E que logo eu iria perder minha carteirinha gay. Ele disse que era um “hétero preguiçoso”. Não sei muito bem o que ele quis dizer com isso já que depois dali ele iria ter um encontro com uma mulher. Seria o curioso caso do “hétero preguiçoso” com uma grande disposição para encontros. Inclusive com mais encontros do que eu só nesse ano. Se eu for analisar, sendo eu o gay disposto, só tive um encontro esse ano. E vai piorar a situação pois um facilitador de conhecer gente que poderia ser o tinder já não está mais no meu telefone por ser um aplicativo muito merda pra funcionar. Não entendo como esse pessoal tem dinheiro pra desenvolver algo tão ruim. De qualquer forma eu estava cada vez menos acessando o tinder. Então seria algo natural. Acho que o preguiçoso sou eu e não o Baroninho. E ao ver a dança de ionnalee Baroninho disse que o que ela fazia era igual a um tal meme que eu não conhecia, e assim me acusou de “ser muito ruim com meme”. E assim me mostrou o vídeo, que era um homem que fazia uma dança um tanto robótica. De certa forma parecia mesmo com o que ela estava fazendo. Prestamos pouca atenção no show. Conversamos mais. Apesar de Baroninho parecer ter aprovado o som que ionnalee fazia. Eu não embarquei. Nem depois ouvindo sozinho. Me soou como performance vazia. Não entendi o figurino. E a parte em que ficou só o homem lá mexendo no computador achei bem ruim pra ficar vendo. Ela sumiu pra tocar figurino parece. E eu estava incomodado com o meu enjoo pois eu queria mais chocolate. E tinha um pessoal fumando perto e o cheiro da fumaça piorava o enjoo. Baroninho disse que aquilo não era cigarro, mas era de qualquer forma, só que de maconha. Tudo a mesma merda de fumaça com cheiro que pode ser enjoatvo. O que me lembrou que durante o curso de Letras uma moça que fazia o curso junto comigo ficou grávida, e toda vez que eu estava próximo a ela eu sentia um enjoo. Houve uma vez que ela me chamou pra ir a casa dela pra ajudar em um texto que ela iria apresentar, em determinado momento a mãe dela apareceu e começou a fazer comida pra ela, o cheiro da comida começou a me enjoar forte. Tive que ir embora. Baroninho parecia mais falante. Bebeu mais bebida alcoólica depois da gin tônica. Falou que estava cansado da noite anterior. Que tinha bebido muito. Mostrou até um aplicativo que avaliava o sono dele. Contava até o quanto ele roncava. Teve uma vez que ele roncou por uma hora e quarenta minutos. Felizmente não ronco. Infelizmente já dormi com homens que roncam. Mas como gay preguiçoso que sou daqui a pouco nem vou mais saber o que é isso.
VII. Winters Love — Animal Collective
Já sabia como seria o show do Animal Collective. A banda que faz música perfeita para se ouvir chapado de maconha. Eles tinham sido convidados pela Pitchfork no final de 2017 para tocar um álbum inteiro que eles quisessem. Optaram por “Sung Tongs” que segundo eles não teria a necessidade de ter muitas pessoas no palco. No caso eram apenas dois integrantes da banda. Usando violões e alguns outros poucos instrumentos. E teria alguns efeitos. O show que vi completo no YouTube, era, a meu ver, bem foda. Só não sei se funcionaria muito ali no festival. Parece ser o tipo de coisa que só quem já é fã da banda algum tempo já espera por aquilo ou até mesmo não conhece mas procura algo que seja de algum modo introspectivo mas com um tom experimental forte. Vi muita gente reclamando do show. Saindo. Uma moça disse que queria dançar. Onde tava a música pra dançar? E pior que eles tem isso. “Floridada” é a música que funcionaria muito pro público que estava ali. Mas era essa a turnê deles naquele momento, e provavelmente o pessoal da organização do festival sabia disso. Uns dois caras disseram que esse álbum é da fase bizarra deles. Que depois disso eles fizeram coisas mais “pop”. De fato eles realmente com o tempo foram tornado o som deles mais “acessível”. Se tocassem as músicas mais conhecidas deles ali certamente teria uma galera que iria virar fã. Procurar depois pra ouvir mais. Em um momento do show que bateram palmas um rapaz disse que provavelmente apenas uns três fãs da banda que estavam ali fizeram isso. Baroninho também não quis ficar em pé pra ver o show. Preferiu sentar. Mas nem prestar atenção no show ele prestou já que em todo tempo ele só ficou conversando no celular. Também não fiquei em pé o tempo todo. Pra mim esse é um show pra se ver sentado. Em um ambiente menor. E isso não é algo ruim. Achei o som bem bom e o show também. Atípico para o festival. Que é bom lembrar tinha ali a sua primeira edição. E os caras realmente vieram pra tocar. Introspectivos totalmente. Não interagiram com o público, mas nem sei se era o caso. Eu recomendaria tanto o show no YouTube como o álbum que eles tocaram. No vídeo do show na internet tem uma galera entregue a apresentação deles. Pulam, cantam junto, são fãs antigos da banda mesmo. Sabiam mesmo o que esperar ali. Dessa vez o gramado estava mais cheio que o normal. Baroninho não ficou nem até o final do show mais uma vez a fome o atacou, que segundo ele, se não comesse iria passar mal. Fiquei só vendo o show até o fim. Que no fim teve aplauso. Se foram dos três fãs ou não, eu não tenho como saber, mas algumas pessoas imergiram ali. Acho que de certa forma eu também. Já que de alguma forma aquilo lá tinha uma beleza pra mim. Meio torta mas tinha. Foi uma apresentação que eu vou lembrar.
VIII. Meu Bloco — Rincon Sapiência
Depois do fim do show do Animal me levantei do gramado. Não sabia onde Baroninho estava. Até por não saber onde ficava a parte que vendia comida. Queria ir novamente onde tinha a tal torre do mirante. Achei que era uma boa hora pra ir lá e até tirar uma foto. Mas ao contrário do outro momento, que foi durante o dia, e agora já era noite, havia uma fila até mesmo para subir na base da tal torre. Então desisti, nisso começou o show do Rincon Sapiência. Foi o único show que fiquei mais distante do palco. Ele já entrou cheio de energia. Foi até tirando peças de roupas e disse que não sabia onde aquilo iria parar. O show dele pra mim foi uma surpresa pois eu não sabia nada e tinha escutado poucas músicas, mas foi uma surpresa boa pra caralho. Demorou um tempo até Baroninho me enviar uma mensagem perguntando onde eu estava. Disse minha localização, mas ninguém foi até ninguém. Mas parecia estar perto. Consigo imaginar Baroninho parado comendo alguma coisa enquanto o show acontece. E claro mantendo o contato com o próximo encontro dele a todo momento. Depois ele me mandou uma mensagem dizendo que o Rincon é foda. A temperatura tinha baixado e eu tinha colocado outra blusa. Mas mesmo com duas blusas não suei tanto. De fato estava agradável a temperatura durante todo o dia. O que achei mais curioso no show do Rincon foi a galera dançando mesmo. Teve um momento perto do fim do show em que rolou um funk e o pessoal dançava qualquer coisa menos funk. E assim como no show da Xênia, achei muito curioso quando Rincon cantando “Crime Bárbaro” e os brancos cantando e dançando. Assim como na música da Xênia há um recado ali. “Pois o senhor do engenho foi eu que matei”. É sobre como agora, ele negro, mata esse branco opressor, e assim ele se torna um “nego fujão”. Ainda hoje o negro é visto como um escravo que foge e que deve obediência ao seu senhor branco. Rincon ao matar o senhor de engenho subverte isso. Mata através das palavras. Mas mesmo nessa fuga a letra de Rincon diz que há um poder ali dentro do negro. Ele sente uma força. Fala também de uma mulher branca de classe média que cria um fetiche sobre a relação com um homem negro: “O sonho dela era ter filho mulato”. A falsa democracia racial. Pra mulher branca de classe média o filho mulato é quase uma excentricidade. E ali Rincon, na zona sul do Rio, lugar cheio de brancos com dinheiro, e muitos deles racistas, inverte ao cantar sobre o racismo que eles propagam, de forma direta ou não. Isso no mesmo dia em que vi negros sendo revistados dentro do ônibus em que eu estava. E eu o branco ileso. “Esse nego é o cão”.
IX. Playsom — BaianaSystem
Mando uma mensagem pra Baroninho dando a minha localização no show do Baiana, ele diz que está sentado. Disse que está cansado e fala mais uma vez do encontro que teria. Respondo que “entendi”. Logo o pessoal da produção do show começa a distribuir umas máscaras que tem a ver com a identidade visual da banda. Pego uma. Quero tirar uma foto pra colocar na internet porque existe uma parte em mim que é efêmera e superficial e precisa exibir em redes sociais um pouco do que consumo ou vejo. Mas nesse momento os créditos do telefone acabam. Tento recarregar e não consigo. Enquanto isso vejo que ali há algumas pessoas que trabalham em novelas da Globo, mas acho engraçado porque olho pra eles como se fossem só pessoas. Talvez até nem reconheça direito mesmo. Pensando que talvez Baroninho pudesse me mandar alguma mensagem dizendo que iria embora fui atrás dele avisando que os créditos no celular acabaram e que não conseguia recarregar. Nesse momento, enquanto o procuro, uma mulher me para perguntando da máscara que estava comigo, que estava na minha cabeça na verdade. Um homem diz pra ela não me incomodar. Ela pede a máscara. Explico onde ganhei e acabo entregando a máscara a ela. Ela me fala que está chapada de Michael Douglas. E ao mesmo tempo pede desculpas. Continuo andando porque preciso encontrar Baroninho para falar com ele, mas pelo que vejo ele não parece estar ali. Não era um espaço grande então se ele estivesse na primeira olhada eu já o veria. E dessa vez o gramado não estava tão cheio como no show do Animal. Seria fácil achar ele ali. Mas ele não estava mesmo. Nisso a mulher disse que se um dia eu fosse usar MD que eu usasse pouco que não fizesse como ela que usou uma quantidade maior do que deveria. Eu mais ouvia ela dizer do que falava alguma coisa. E ela era mais baixa que eu, que já sou bem baixo, então era estranho ficar olhando pra ela. Eu disse que tudo bem eu já fiquei chapado também, não de MD (e nem pretendo), então entendia ela. Na verdade as vezes em que fiquei chapado não interagi com estranhos na rua. Só chapado de álcool já aconteceu isso comigo. Mas sem isso, só cannabis mesmo, nada feito de falar com pessoas que não conheço. Por algum motivo que não entendi totalmente ela fez questão de dizer que era dona de casa e mãe de família. E isso de algum modo acrescentava ao fato dela estar chapada de MD. Ao que parece mães de família e donas de casa causam uma estranheza ao estarem chapadas de drogas ilícitas. Pra mim não fazia a menor diferença. E inclusive era esperado que naquele ambiente eu visse aquilo. E eu vi muita gente chapada. Muita. E não era só de bebia alcoólica. Mas de certa forma eu estava acostumado. Sem ver Baroninho só me restou aproveitar o show do Baiana , o penúltimo da noite. E eu já demonstrava um cansaço. Mas de algum lugar eu tirei energia para pular e dançar músicas que eu não conhecia. Apesar de conhecer o trabalho do vocalista Russo Pasapusso que lançou um álbum muito bom chamado “Paraíso da Miragem”, o do Baiana é bem desconhecido pra mim. Ali já se aproximava do fim. Era muita gente bêbada com energia lá embaixo mas se entregando a qualquer coisa. E o som do Baiana de fato levanta de algum modo. Houve “rodinha”, semelhante a que tem em shows de rock, de alguns, e tinha uma bem próximo a onde eu estava, mas eu apenas vi, não participei. Meu enjoo até que havia passado, mas eu não tinha fome, tinha sede, mas tive preguiça de ir comprar água. Ainda havia mais um show e feito a bateria do celular que eu tenho cuja energia já estava indo embora a minha também já se localizava em outro lugar, mas não nos meus pés.
X. Lights & Music — Cut Copy
Dessa vez eu estava bem perto do palco, e por algum motivo, eu achei que as pessoas que estavam muito perto lá também, algumas bem na frente mesmo, era bem fãs da banda, mas logo percebi que essa leitura que fiz não se aplicava. Algumas das pessoas que estavam ali começaram a ir embora. Desconhecia o som do Cut Copy, cheguei a ouvir um pouco só pra conhecer mesmo antes de ir ao festival, mas só ouvi uma vez. E foram as músicas mais conhecidas. E é uma banda que já existe há quase vinte anos. Nesse momento eu já não tinha dúvida alguma de que Baroninho já tinha ido embora (depois ele me disse que estava no show do Baiana e viu um pouco do Cut). Muitas pessoas estavam indo embora durante o show. Já passava da meia noite. Já era domingo. A temperatura estava abaixando cada vez mais. Os caras entraram bem animados. Na verdade o show inteiro deles foi com uma energia que parte do público já não tinha. Ou de embriaguez ou o cansaço mesmo. As músicas dos caras são feitas pra dançar. Mas onde arranjar essa força? Ainda mais pra mim que estava ali desde cedo. Mas consegui. De onde não sei. Mas vi que muitos não conseguiram. Havia uma mulher do meu lado que estava tão bêbada, que nos momentos em que o público pulava com a música ela apenas erguia o braço e balançava quase como um tipo de aceno bem fraco. Outra mulher, que estava do meu lado direito alternava momentos de euforia, e em um deles até esbarrou em mim e pediu desculpas, com outro em que ficava na pose típica do bêbado que parece que vai vomitar a qualquer momento ou simplesmente cair e ficar ali, com a cabeça baixa, apoiando-se na grade, e o corpo cambaleante. Havia um cara que parecia querer se mexer mas realmente não havia nada ali nele com algum tipo de energia. Um outro homem tinha o abrir e fechar dos olhos como a parte mais agitada do corpo. Já a banda pulava, interagia com o público, e tocava com vontade. Muita. Um integrante várias vezes deixou microfone cair, ele mesmo quase caiu. Em alguns momentos tive vontade de sentar ali. A minha mentalidade era apenas de fazer valer o dinheiro que paguei no ingresso. Precisava ir até o fim. E essas duas últimas apresentações me levaram exatamente ao tempo em que ia a shows sozinho e pulava lá, com todo mundo, mas sem conhecer ninguém, e não tinha problema nenhum. Sem Baroninho por perto eu poderia fazer o meu horário. Ficar em pé ou não. Não que com ele eu ficasse inibido de algo. Não havia isso. E de qualquer forma ele não iria ficar até o fim, sendo um “hétero preguiçoso”, ele tinha um encontro. Tinha algo de voltar a um tempo e ao mesmo não voltar, de ser um outro momento. Naquela semana eu tinha dito na terapia a psicóloga que ir a esse festival de música era quase um tipo de carinho em mim. Era fazer algo bom pra mim. De alguma forma eu merecia isso. Mesmo que na maior parte do tempo eu ache que não mereço nada. Mas cansa achar sempre isso. Logo depois descobri onde era a parte que vendia comida onde Baroninho foi. E logo ao lado havia um redário. Será que depois de comer ele se deitou ali?
XI. I love you, Honeybear — Father John Misty
Era o show mais esperado por Baroninho, e de certa forma por mim. Acho que mal acabou o show da ionnalee ele já se levantou de onde estava sentado pra ir para o outro palco pra ficar bem na frente. Inclusive durante o show da ionnalee eu contei a ele que haveria o show do Father em São Paulo também, e ele disse que se soubesse teria ido pra lá. Nesse momento eu me levantei e me afastei dele. Mas era apenas uma brincadeira. Mas como disse antes ele é um admirador de como o público em SP se comporta em shows. Não seria uma surpresa total ele falar isso e preferir isso. Até durante o show da ionnalee ele falou alguma vezes em como queria estar no outro palco já esperando o Father em um bom lugar, que nesse caso seria na grade. Chegando lá de fato estava cheio. Perguntei se ele queria chegar mais a frente. Ele disse que sim e conseguiu um lugar lá na frente. Baroninho queria tanto esse show que até mesmo no status do Whatsapp ele colocou uma foto do que viu. Depois do show do Boogarins esse foi o único show que o vi balançando ou dançando do jeito dele. E cantou, cantou muito, e mais de uma música. E empolgado. Mas não só ele. O público fazia coro ao que o Father entoava. E mais uma vez, depois do show do Boogarins esse foi o único em que vi as pessoas cantarem as músicas. E quando não havia música rolava um silêncio, mas era de concentração, as pessoas estavam imersas ali. Claro que não era todo mundo. Mas boa parte das pessoas que ali estavam sabiam quem era o Father e o que ele iria cantar. Eu aguardava o momento em que ele cantaria “Please don’t die” que tem uma letra linda pra caralho, e a música também. Ela fala sobre amar alguém e não desistir da pessoa, mesmo quando a pessoa está desistindo dela porque está mentalmente instável ou perturbada. Em vários outros momentos eu me entreguei. Quando Father cantou “Mr. Tillman” eu disse para Baroninho fazer uma versão chamada “Sr. Barone”, e antes que eu começasse a dizer algo ele mesmo já começou a cantar a versão que eu falaria. Quando houve “Please don’t die” foi o momento em que tive vontade de registrar, e fiz um vídeo pro Instagram. Bem efêmero mesmo. “Pure comedy” foi um momento forte porque muitas pessoas cantaram, e claro Baroninho. Tentei filmar ele cantando algumas das músicas, mas ele colocou a mão na câmera do celular ao perceber isso. Então desisti. Em algum momento eu disse a ele que eu sentiria saudade daquele momento que estava acontecendo. Ele apenas me olhou em silêncio. O chocolate que eu comprei sobrou e eu comi quando cheguei em casa. Comi enquanto ouvia músicas que tocaram no festival. O gosto do chocolate e a música do Father, do Boogarins. O sabor doce que no momento em que eu voltar a ter contato vai me remeter a esse momento em que no instante em que vivi eu sabia que é um tipo de coisa que fica. E ficou.
