Sangue

thiago calago
Sep 9, 2018 · 8 min read

O tipo sanguíneo dos meus pais é O+. O meu é O-. No ensino médio uma professora de biologia me explicou como se deu esse processo em que sendo o tipo sanguíneo dos meus pais ser de um tipo e o meu ser de outro. Ainda há algo do tipo sanguíneo deles em mim. Assim como os traços no rosto em que muitos dizem que eu sou a cara da minha mãe, mas tem algo do meu pai (os olhos e a testa são bem semelhantes ao do meu pai). A minha barba é uma clara herança do meu avô materno. Mas isso são coisas visíveis. O que popularmente é conhecido como “tá no sangue”. Mas popularmente também é conhecido o como “tá no sangue” algumas atitudes a partir da origem que viemos. Em “Hereditário”, filme de Ari Aster, há essa pergunta: o que de fato vem através do sangue e o que não vem?

O filme começa com a morte da mãe da protagonista, Annie, que após o velório da mãe se questiona se devia sentir mais dor, ela pergunta ao marido sobre isso. Vai a um grupo de apoio sobre perder pessoas amadas. Lá ela começa a contar sobre vários problemas mentais sofridos pelo pai e pelo irmão, e até a própria mãe também sofreu esse problema. Lá ela questiona se deveria sentir algum tipo de culpa, pois ela sente, e não sabe o motivo. É possível que Annie tenha sentido é um alívio com a morte da mãe, e com isso a culpa por isso, que está ligada de algum modo ao prazer. Ao prazer de aquele que de algum modo causou sofrimento se foi. Annie diz no grupo de apoio que no fim da vida de sua mãe sua relação também não era tão boa com ela. Em casa, ela precisa lidar com a falta que a filha, Charile, sente da avó, essa até diz: “Quem vai cuidar de mim agora?” Annie responde que ela é a mãe e ela vai cuidar. Charlie diz: “Quando você morrer”. Annie fala que ela tem um pai e um irmão que podem cuidar dela. Mas Charlie não parece muito convencida disso. E por isso não hesita em ir atrás de uma aparição da avó no meio da floresta, mesmo que descalça, a falta que ela sente da matriarca da família a impede de ver até onde ela pode ir fisicamente. Se Annie diz no grupo de ajuda que sua mãe não soube criar tão bem assim os filhos, ela acaba cometendo o mesmo erro. E nesse primeiro erro que o filme mostra já é perceptível que o que é “hereditário” no caso dessa família é o psicológico.

Annie insiste para que Charlie acompanhe o irmão mais velho Peter em uma festa para qual esse foi convidado. Annie ignora o fato de que na festa não haverá pessoas da mesma idade que Charlie. Annie ignora também o fato de que sua filha tem uma clara inabilidade social. Ela simplesmente força a garota ir contra a sua vontade e a do filho. Na festa, Peter decide ir fumar maconha com uma garota que ele tem interesse, deixando Charlie sozinha, e a incentiva a comer um bolo de chocolate que havia por ali. O que Peter e nem Charlie sabiam é que havia nozes no bolo, e ela tem reação alérgica a isso. Peter corre com Charlie até o hospital, mas dentro do carro ela se sente cada vez mais sufocada devido a reação alérgica que faz com que sua garganta comece a fechar, abre o vidro do carro e coloca a cabeça pra fora procurando ar puro, no volante Peter tenta desviar de um animal caído na estrada, nesse momento o carro sai da estrada e Charlie bate com a cabeça em um poste e morre. Peter volta pra casa sem dizer nada a mãe, nem ao meu pai, o corpo da irmã fica no carro, ele ouve do quarto o momento exato em que mãe acha o corpo da filha, sem a cabeça. A partir daquele momento Annie se fecha cada vez mais na sua dor e o silêncio entre ela, o marido e o filho se tornam cada vez maior. Ninguém ali tem coragem de falar sobre o acidente. Ninguém tem coragem de falar sobre o que sente. O que já tinha acontecido quando Annie decide ir ao grupo de apoio, ela mostra que não consegue falar muito bem sobre o que é dolorido a ela na relação com a mãe. Ela até volta ao grupo após a morte da filha, mas não consegue entrar, e no momento em que está saindo surge a figura de Joanie, que diz ter visto Annie quando foi ao grupo. Joanie diz que perdeu um filho e um neto. E diz a Annie que pode procurar ela quando quiser. Annie demora uma pouco, mas procura por Joanie. Desabafa. Mas em sua casa cada vez mais o espaço entre ela o filho e o marido aumenta.

Em determinado momento o filme adere de vez ao sobrenatural. Mas o que se vê é Annie cada vez mais tomando as mesmas atitudes que sua mãe tomou. Ao começar acreditar piamente em espíritos, ela reproduz o mesmo que sua mãe fez com o irmão, que segundo ela se enforcou porque dizia que a mãe estava colocando demônios no corpo dele. O pai de Annie também se matou, por inanição, o que faz pensar o que levou esse homem a ficar tanto tempo sem comer que acabou morrendo, ou em como essa ausência gigante de fome o levou a isso. Annie também está colocando demônios em Peter. Na verdade ela sempre esteve colando desde quando ele era criança. Ela não queria engravidar dele e fez o que pode para que sofresse um aborto espontâneo. Ao contrário de Charlie, que ela realmente queria, mas sua mãe não achou que ela fosse capaz de cuidar da criança, inclusive a amamentou, como aparece em uma cena do filme em que mostra umas das mini esculturas feitas por Annie que ela faz sobre o que acontece a ela. A mãe de Annie não acredita na capacidade dela de cuidar de um filho. E Annie pega isso pra si. Ela conta a Joanie que em uma noite de sonambulismo estava prestes a queimar os filhos. Mas o que Annie passa é o que sua mãe lhe transmitiu. A mãe de Annie foi incapaz de cuidar dos filhos também. Criou traumas fortes que se perpetuaram em Annie ao ponto dela não desejar ter o filho que teve temendo tomar a mesma atitude da mãe. E Annie não conseguindo falar disso abertamente só o faz no espaço onírico pois é em um sonho que ela tem a coragem de dizer ao filho Peter que não queria ser mãe dele, mesmo sonho em que o filho dela acorda acusando-a de querer arrancar a cabeça dele fora. Annie sabe que o pior é o que está dentro da mente, e como ela acredita que assim como ela o filho já está mostrando sua incapacidade de falar sobre a dor que sente sobre o que fez, o único jeito seria arrancar a cabeça fora, já que essa não para e nunca vai parar. Charlie teve sua cabeça arrancada também. Uma outra maneira de dizer que o que está dentro da mente é tão insuportável que não é possível aguentar. Não de uma forma que se encare a realidade. Pois ninguém da família está disposto a isso. E por conta disso recorrem ao sobrenatural. É ao sobrenatural que Annie recorre para ter contato com a filha morta, já que a ausência é tão insuportável e a dor de ter falhado como mãe e protetora já que a enviou para uma festa que a menina não queria. E tudo se mistura de tal forma que ela já não sabe como sair disso e leva junto o marido e o filho por esse labirinto de loucura. Ao encontrar o corpo da mãe morta no sótão, que já havia sido enterrada, Annie também a encontra sem cabeça. Corpo esse que em nenhum momento ninguém misteriosamente sentiu o cheiro de podre. Mas estava ali o tempo todo. Assim como a relação desastrosa de Annie com a mãe. Está ali o tempo todo e ela não tem coragem de falar sobre. Não consegue ir até esse lugar da dor. Finge que não existe. É melhor arrancar a cabeça fora.

Se o irmão de Annie se enforcou dizendo que a mãe estava colocando demônios no corpo dele, o filho dela Peter faz o mesmo. Também se enforca. Peter não só se enforca. Em um momento do filme ele começa a ter o mesmo sintoma da irmã morte: a garganta se fechando. E esse momento ocorre justamente quando ele fuma maconha, que foi o que ele foi fazer ao deixar Charlie sozinha. Peter não está aguentando mais e agride a si mesmo. Annie não aguenta mais e agride a si e aos outros, no fim ela corta sua própria cabeça e mata o marido. Só Peter fica vivo. Fazendo parte de uma seita demoníaca em que ele é um tipo de rei do inferno. Inferno que é uma palavra que tem em sua origem o significado de mundo inferior. O mundo inferior desses personagens, o que está dentro precisa ser explorado, há muitos demônios lá. Demônios colocados por outros inclusive. Esses outros que deveriam, de certa forma, amar, proteger. Mas que também são capazes de rejeitar. Rejeitar até mesmo antes do nascimento. Na cena final do filme, quando Peter é coroado o rei da seita, na parede há uma foto de sua avó. Na legenda da foto há a palavra rainha. Claramente remetendo a origem daquilo tudo. De onde Annie herdou, bem mais do que qualquer coisa que venha em seu sangue, um comportamento que não é tão fácil de se desfazer. Talvez nem se desfaça. Mas existe uma forma de lidar com aquilo sem que seja preciso arrancar a cabeça. Sem que seja necessário ter vontade de matar os filhos. De se matar.

O perturbador nesse filme é pensar que não estamos livres de um comportamento destrutivo do outro. Que herdamos dos nossos pais, em certa medida, suas inseguranças, suas angústias, a postura diante de determinadas situações. E isso, como mostra de forma exagerada no filme, mas um exagero bem vindo, já que é natural da arte exagerar para falar de algo, pode levar a loucura. Nem sempre é uma loucura aparente. E em alguns momentos é sim, em alguns momentos isso grita. Quando Peter tenta se matar estando possuído por um demônio é a loucura gritando. O desespero de que ele precisa falar do que sente. Do que sente pela mãe. Da indiferença. De como a mãe levou para ele todos os medos dela, colocando um tipo de expectativa nele que ele não soube resolver, pois é algo dela. Assim como a mãe de Annie fez com ela. Jogou frustrações em cima de Annie e do irmão. E até mesmo do marido. Sendo incapaz de olhar para o seu inferno. Deixando que o seu inferno seja a única herança que aqueles que também têm o seu sangue podem ter. É horrível olhar pra si e ver que há coisas que foram criadas não por você, mas pelo outro, outro esse que diz te amar, se importar, mas que também pode te anular. Que também faz de você, assim como a mãe de Annie fez com o neto Peter, o Rei do Inferno.

thiago calago

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