Catamênio

Acontecia-lhe todo mês, ao que precede o catamênio. Antes do sangue lhe escorrer, guardava um dia cíclico e, então, chorava. Era infeliz porque não contava sequer com uma data surpresa, uma vez que sua menstruação sempre fora regular, como operação aritmética. Deixava, pois, ao acaso o momento de pranto, que marcava no calendário, com um xis tristonho. Já à noite do vigésimo sétimo dia ficava mais irritadiça do que o normal. Depois do fim do expediente, já em casa, sempre às sete e meia da noite, esperava por um detalhe que faria seu mundo escorrer em lágrimas. Um móvel meio torto, a sombra do cabideiro projetada na parede, uma música que pudesse ser ouvida ao fundo, a briga de um casal no apartamento ao lado. O dia era sempre o mesmo; o motivo não importava.

Veio a ter com o médico ginecologista depois de meses de choro. Examinou-a, tudo normal. Tinha sorte de ter o ciclo regular, sempre de vinte e oito em vinte e oito dias. O médico abriu um sorriso de profissão no rosto, pois não era comum um caso como esse no consultório. A moça devolveu um sorriso triste. Ao fechar as pernas, disse meio baixo: — É assim desde os meus nove anos. E então o médico sorriu mais largo.

Queixou-se mais do choro do que dos inconvenientes da tensão pré-menstrual. Sentia fortes cólicas que duravam por quartos de hora, carência e um desejo inexplicável de matar alguns colegas de escritório, mas, o que lhe incomodava mais era o choro.

O médico lavava as mãos. Ao secá-las, de costas à paciente, disse em alto tom: — São os hormônios.

Não viu motivo algum para receitar-lhe medicamento, já que sua regular periodicidade cíclica era muito incomum. Sentou-se frente a ela e começou a falar sobre o fenômeno fisiológico do período fértil da mulher.

Vendo que a explicação chegava ao fim, a moça, meio em desespero, interrompeu o doutor: — E então, não tem cura? – o médico encarou-a com estranheza, e ficou em silêncio.

A moço desviou os olhos e mirou seus sapatos, tentou pensar objetivamente no problema, e o problema era-lhe o choro, então perguntou: — E o pranto, doutor, como fica?

Como não podia se esquivar da pergunta, foi direto: — Se não são os hormônios, trata dos nervos. Mas, já desconsiderando qualquer hipótese que incluísse a ciência da psiquiatria, a mulher levantou-se, deu as costas ao médico e foi embora. Era o vigésimo sétimo dia.

Chegou em casa às oito e meia da noite e estranhou porque o choro não lhe veio. Procurou-o por todo o canto, desde o teto, até a quina dos rodapés. Resolveu lavar a louça e se pegou cantarolando boitatá; mas, ao se dar conta, franziu o semblante e censurou-se. Era nove e quarenta. Recostada a um canto da cozinha, passando o pano nos pratos, vieram-lhe as lembranças daquela noite. Já não recordava nem mesmo do rosto dele, mas lembrava-se do toque de sua pele, do desenho de suas costas e de um redemoinho no seu cabelo, perto de sua nuca.

Já tarde, na sala, começou a sentir sono, embalada pela televisão. Não assistia à tela, mas prestava atenção nas sombras que a luz fazia na parede atrás do sofá. Sentiu, por dentro, um calor e, como um gato que viesse lhe pedir um afago, acarinhou o ventre, as mãos correndo do umbigo ao esôfago, em movimento vertical. Assim adormeceu.

Acordou na manhã seguinte limpa. Conferiu entre as pernas a mancha, mas estava seca. Os lençóis brancos. O rosto agora lhe aparecia claro como numa fotografia. Como não podia se recordar ontem? Encolheu-se num canto da cama e tentou desvanecer o que na noite anterior tinha feito força para lembrar. São os hormônios, pensou. Eis que aí o mesmo gato bobo veio lhe pedir carinho e ela se pôs, de repente, a chorar.


Esse conto foi originalmente escrito no ano de 2005 e reeditado em 2014.


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