Eu não sabia que era impossível

Como levei seis anos para encontrar o título de uma música obscura na internet


“Agora eu sei exatamente o que fazer / Bom recomeçar, poder contar com você, / Pois eu me lembro de tudo irmão, / Eu estava lá também / Eles dizem que é impossível encontrar o amor / Sem perder a razão, / Mas pra quem tem pensamento forte, / O impossível é só questão de opinião” — Alexandre Magno Abrão

1. Buscas impossíveis

Às vezes não é possível encontrar algo no Google. Quando você procura alguma coisa no buscador e não o encontra, há três fatores que podem explicar esse fracasso:

  1. A culpa é do Google (você está procurando de forma correta, mas os resultados apresentados não correspondem ao que você deseja encontrar)
  2. A culpa é sua (você não possui informações suficientes ou não sabe procurar)
  3. A culpa é sua e do Google (você não sabe como procurar e o Google, por consequência, não sabe o que lhe mostrar como resultado)

Eu fico especialmente fascinado com esse terceiro tipo de busca — uma busca muito genérica, onde você quer encontrar algo que um dia habitou sua memória de curto prazo mas que ainda mora em sua memória afetiva. Você deseja encontrar um negócio que você sabe que existe, que você já viu, mas que você não sabe descrever em palavras ou que não é possível de ser descrito de forma que o robô do Google lhe retorne um resultado correto.
Tão logo digo isso, um exemplo muito claro me vem à mente. À época em que o MSN era o mensageiro instantâneo padrão na internet o programa permitia que você montasse um acervo particular de emoticons e gifs animados para usar em suas conversas. Você podia, então, atribuir um atalho de teclado para exibir o seu emoticon, como /die para um bonequinho que rodopiava em torno de si e caia morto no chão. Dentre os gifs mais populares havia um em que um garotinho vestido de uniforme azul e com um boné para trás dançava, enquanto a sigla AIDS piscava sobre a imagem.
Um dia meu amigo quis saber quem era o tal bonequinho que dançava a dança da síndrome de imunodeficiência adquirida e resolveu buscar por: “little blue kid dancing aids”. Nada na primeira página de resultados, nem na segunda ou terceira. Tentou, novamente: “little child wearing blue uniform” — e encontrou fotos de crianças vestindo uniformes azuis. Mas, quem sabe se ele tentasse algo como: “kid blue uniform with a cap dancing”? — Não, também não.

Lembro-me de seu desconsolo quando cheguei em sua casa e a sua busca já durava mais de quarenta minutos. Ele não tinha chegado nem perto de encontrar o resultado.

— Você sabe quem é esse bonequinho que dança a dancinha da AIDS AIDS AIDS?
— Hum, não.
— Estou procurando há uma hora e não consigo encontrar.

— ele dizia, enquanto batia a cabeça contra o monitor, repetidamente.


2. Estatísticas impossíveis

“Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer” — Aristóteles. Metafísica, Livro I, Capítulo I

Mudando de assunto, mas sem deixar o terreno das impossibilidades, lembro-me do único superpoder que gostaria de ter, caso fosse um super-herói: o dom de conhecer estatísticas não rastreáveis, as estatísticas impossíveis.

Gosto de gastar meu tempo tentando chegar a um número razoável acerca de situações nada razoáveis. Por exemplo: uma gostosa bem vulgar que trabalha em uma empresa com muitos operários. Pergunto-me: “Quantas vezes e quantos homens já se masturbaram pensando nesta mulher?” — Não sei. Queria o número exato, mas me detenho em contas para obter uma aproximação razoável.

Todo o pó mágico inalado nesta vida

Uma ferida que nunca vai se fechar. Uma estrela que nunca irá se apagar.

Ainda não superei a tragédia ocorrida em 6 de março de 2013, quando o país perdeu um de seus maiores ícones. Nessa data, Alexandre Magno Abrão, o Chorão, foi encontrado morto em seu apartamento. Um mês mais tarde, a causa da morte fora revelada: intoxicação exógena devido a cocainemia. Mas uma coisa me incomodou muito na notícia veiculada pela imprensa de todo o País: o laudo com o resultado do exame necroscópico revelava que haviam sido encontradas 4,714 microgramas de cocaína por mililitro de sangue no corpo de Chorão, enquanto eu queria saber quantas gramas de cocaína o vocalista havia ingerido para que se consumasse a fatalidade de sua overdose. Interessava-me ver a quantidade do pó mágico distribuída sobre uma mesa de vidro.

São muitas as perguntas que me faço para as quais nunca encontrarei respostas exatas. Nunca saberei a verdade sobre elas, mas, ainda assim, me perco em um devaneio: se me aparecesse um gênio e me concedesse a resposta exata a uma pergunta, a uma, apenas, qual eu escolheria?

Não tenho dúvida: — Meu deus, eu adoraria saber (e ver) a quantidade exata de pó que o ator e diretor Jorge Fernando já cheirou durante os seus cinquenta e quatro anos de vida.


3. Uma música impossível de ser descoberta

Enfim, chegamos onde eu queria chegar, onde explico como passei seis anos da minha vida procurando pelo título de uma música obscura compilada num disco de um DJ japonês.

O disco Library, lançado em 2008, é uma compilação de vários achados do DJ Mitsu The Beats no gênero da library music — nome dado às coleções de músicas gravadas que podem ser licenciadas a clientes para uso em filmes, televisão, rádio etc. Ao todo, são vinte e sete faixas e a nenhuma delas fora atribuído o artista ou título da música.

Tomei conhecimento desse mix no ano de seu lançamento e o disco se tornou um dos meus preferidos. No entanto, dentre todas as músicas, eu tinha a minha favorita: a faixa 8. Eu queria saber, portanto, quem tinha composto e que artista tinha gravado essa faixa que, em três minutos, é capaz de resumir todo o espírito do triunfo amoroso e financeiro, capaz de transmitir tão inequivocamente a sensação de ter o corpo limpo depois de uma trepada — um gênero a que, mais tarde, dediquei-me a conhecer e garimpar.

Entre 2008 e 2012 eu tentei o Shazam e o SoundHound, mas nenhum deles foi capaz de identificar a música. Atuando em frentes diferentes, eu e um amigo tentamos identificar a música através do Google, de fóruns especializados, pela audição de diversos discos de Library Music, no Orkut, no Facebook etc. etc., mas não chegamos a nenhum resultado. Em determinado momento, cada um a sua hora, nos demos por derrotados. Mas a música nunca me saiu da cabeça e, em 2013, eu tive uma idéia.

Encontrei o perfil do DJ Mitsu the Beats no twitter e, todos os dias, passei a assediá-lo com replies perguntando qual era a faixa 8 de seu disco. Todas as minhas mensagens foram ignoradas, até que, em 5 de março de 2013, comovido por meus incessantes apelos, ele me respondeu:

DJ Mitsu, mandando a dica errada

Ele me mandou dar uma olhada em um disco de 1983 do selo inglês Amphonic Music, o Sound Stage 14: Peak Power, gravado pelo compositor e arranjador Steve Gray. Procurei se havia onde baixá-lo, mas, qual o quê? Resolvi encomendar uma cópia do vinil de um vendedor da França. Não tenho uma vitrola, mas precisava tirar a prova. Antes, porém, resolvi perguntar na página do álbum no discogs se a tal faixa estava mesmo incluída dentre as doze gravadas por Steve Gray. Seis dias depois recebi a resposta de um usuário:

“It’s not on this record, that 8th track in the DJ Mitsu-mix, even though the sound & production is very similar.”

E entreguei-me, novamente, ao desconsolo. De 2013 até o segundo semestre de 2014 eu desisti completamente de encontrar essa música.

Não sei que gatilho moveu-me novamente a seguir adiante. O fato é que a mistura de ócio e desgraçamento da cabeça me levou a tentar caminhos que ainda não tinham sido tentados. Procurei por perfis de usuários no YouTube e no Soulseek com uploads e coleções portentosas de library music e perguntei a eles se conseguiam identificar a faixa 8. Devo ter perguntado a trinta usuários, mas só obtive umas cinco respostas, todas negativas: “Eu não consigo identificar essa faixa”.

Recorrendo a Ed Motta

Tinha ficado amigo do músico Ed Motta no Facebook, e resolvi perguntar ao grande connoisseur de vinhos e chás, ao homem com uma das maiores coleções de vinis do país, àquele que disse ter comprado mais de três mil LPs em uma única viagem para o Japão, ao homem que anda sempre com quatro iPods de 160GB de mp3 na sua mochila se ele conseguia identificar qual era aquela música. Ed respondeu-me: Não conheço. Parece fusion japonês.

Lojas online de library music

Em seguida procurei por lojas online de library music e utilizei o formulário de contato dos sites para perguntar a quem estivesse do outro lado da linha se algum funcionário seria capaz de identificar o meu santo graal. Até hoje, não tive nenhum retorno.

Um serviço de identificação de músicas que utilizasse como base todo o acervo do YouTube: por que isso não existe?

Em certo momento eu soube que essa música devia estar publicada no YouTube, exibindo o artista e o nome da faixa. Eu só precisava encontrá-la. Procurei saber se havia um serviço como o Shazam que utilizasse todo o acervo de músicas publicadas no YouTube para identificar músicas desconhecidas, mas é claro que tal serviço não existe. Era mais uma hipótese descartada.

A salvação: o fórum librarymusicthemes

Entre indas e vindas encontrei um fórum especializado em Library Music, o librarymusicthemes. Fiz o meu cadastro e abri um tópico na seção Tracks da página. A moderadora do fórum apontou-me para um tópico já existente, em que os usuários tentavam identificar todas as faixas dessa mix do DJ Mitsu. Faltava a identificação de somente seis faixas — e é claro que a faixa 8 era uma delas. Deixei ali o meu apelo, tentando comover mais algumas almas.

Até que, no dia da graça de 14 de setembro do ano de 2014, às seis horas e três minutos da noite, o usuário umiliani publicou uma mensagem no fórum:

“Uploading track 8… I saw all the capanema’s messages on the board, I think he will be happy.”

E lá estava ela, em toda a sua glória:


The ORF Orchestra - Little Prince

The ORF Orchestra — Little Prince
https://www.youtube.com/watch?v=n1_U6b5i2fA

A faixa 8 é uma produção alemã e chama-se Little Prince. Foi composta por Hans Salomon e interpretada pela The ORF Orchestra (conduzida por Karel Krautgartner), com arranjos de Hans Salomon e Lee Harper no flugelhorn. Faz parte do disco Sonoton 219 “Music in the Air, Volume 4”, de 1984, do selo alemão Sonoton, fundado em 1960.

Passado o estado de euforia com a tão procurada informação, de repente senti-me sem mais nenhum propósito ou objetivo na vida. Foi como se eu tivesse renascido e pudesse, agora, morrer em paz.


Show your support

Clapping shows how much you appreciated Thiago Capanema’s story.