Por favor,

parem

de desenhar

pinto, buceta

e cu

Ilustração: Bruno Maron


Em março deste ano marquei presença em uma “feira de publicações independentes, fictícias, guerrilheiras e zines” conhecida como Feira Plana, que ocorre todos os anos na capital de São Paulo, no Museu da Imagem e do Som.

Era tanta gente reunida que ficava difícil caminhar e visitar os estandes para prestigiar o material editorial da cena independente paulistana. Limitei-me, portanto, a observar os materiais à distância e, desde logo, comecei a notar um padrão escatológico nos impressos: tudo tinha uma piroca desenhada. Em dado momento — depois de ver uma terceira pica — achei que estava delirando. Seria possível? Aquilo era uma feira de impressos com desenhos de caralhinhos para uma juventude de 22–35 anos? Cocei os olhos, segui viagem pelos corredores, sendo empurrado pela multidão e, não importasse para onde meus olhos mirassem, lá estava: um pinto, uma buceta, um cu, um homem peladinho, uma mulher peladinha, um casalzinho trepando, um carinha mijando, cagando, uma piroquinha, um pintão, um cu, uma buceta e assim, indefinidamente. Só então resolvi parar de olhar para os materiais e comecei a notar as pessoas que me cercavam e, então pude notar: eu estava cercado por babacas. Ou por outra: — não sei se eram babacas, mas se vestiam com o uniforme deles.

Sou um pouco claustrofóbico e comecei a sentir falta de ar. Estava preso entre uma fila que andava muito devagar, num corredor estreito, sem possibilidade de me separar da multidão, marchando e fazendo parte daquele exército, vibrando junto com eles, misturando o meu cheiro ao deles. Parecia um pesadelo. Fui me engalfinhando entre os minúsculos espaços vazios e consegui chegar à área externa. Feliz surpresa! Dou de cara com um velho conhecido, amigo de longuíssima data. Cumprimento-o:

— Quanto filho da puta!!!

Ele abre um sorriso ao me ver. Olha para os lados, como que procurando algum filho da puta entre o público, mas não parece identificar nenhum.

— Tudo bem? — pergunto.

— Tudo. E você, velho? Quanto tempo!

— Tudo certo, rapaz!

Tive vontade de abraçá-lo durante mais alguns segundos. Eu parecia ter recuperado a minha identidade depois de ver aquele rosto familiar. Estava me sentindo bem novamente. Então ele me crispa o braço e diz:

— Velho, você tá afim de fumar unzinho?

Eu não fumo maconha. Odeio maconha. Fiquei encarando-o durante um tempo, sem resposta. Ele permaneceu com os olhos fixos em mim, a expressão do rosto congelada. Resolvo mudar de assunto:

— Você tá vendo esse monte de filho da puta reunido aqui?

Ele olha para os lados.

— Onde?

Começo a duvidar da minha própria sanidade. Talvez o filho da puta fosse eu — coisa da qual, aliás, nunca duvidei, mas, naquele ambiente, misturado àquela fauna, sentia-me como Ronnie Von vestido de meio-fraque. Gaguejo alguma coisa. Ele parece ansioso, parece querer ir embora, parece estar atrasado para fumar maconha. Pergunta-me:

— Você viu a revista?

Meu amigo é quadrinista, um dos melhores do país, e lançava seu trabalho pela primeira vez em uma revista, junto a outros três ou quatro gênios do traço. A idade média dos astros que compunha o coletivo era de uns trinta e seis anos.

— Não! Não vi! Não encontrei o estande. Onde está?

Ele me aponta a barraquinha da revista, que ficava logo ao lado. Dou quatro passos até lá e, quando olho para trás, ele já sumiu. Estou, novamente, cercado por babacas, por todos os lados. Sinto-me frágil. Embrenho-me até apoiar minha barriga na barraquinha, pego uma edição da revista e efetuo o pagamento. É com certa vergonha que confesso que senti um arrebatamento de santidade depois de comprar a revistinha. “Estou ajudando a cena” — pensei.

Procurei um pouco de ar livre para folhear a revista com calma. A céu aberto, tiro o revista da sacola e dou uma olhada na capa — estampada nela está a figura de um cocôzinho, uma bostinha simpática, sorrindo. Já no índice encontro a primeira pica desenhada. Depois um cu. Uma buceta. Um cu. Um pinto. Um cu. Uma buceta. Um pinto. Uma buceta. Alguém vomitando. Uma… o que é isso? Ah! É uma bucetinha. Um cu, um pinto, pinto, pinto, pinto, cu, buceta, pinto, pau, pinto, caralho, pinto, pau, buceta, cu — e eu ainda estava na página 30.

Os zines sempre foram o suporte por excelência de mensagens revolucionárias e escatológicas. Antes da internet, eles eram produzidos e impressos de forma caseira, por adolescentes e jovens de até 23 anos. Para os moleques até essa idade não parece haver nada de mais revolucionário do que imprimir ou desenhar a imagem de uma piroca. Mas convenhamos que desenhar pintos depois dos quinze anos de idade configura uma obsessão ou atraso mental grave. O que não compreendo é o que pode ter acontecido com essa massa de jovens caquéticos para continuarem obcecados em espalhar os seus desenhos pornográficos impressos em papel de soja e acabamento prime, a preços altíssimos. Mas eles têm público! — e isso me fascina ainda mais.

O que essa classe — que se entende como a classe revolucionária por excelência — não entende é que os seus pintinhos não podem mais chocar a nossa sociedade. Nós temos internet. Nós vemos pinto e escatologia o tempo todo, em alta definição. E eis que isso abriu um enorme espaço para a verdadeira loucura: a loucura de crer em Deus, por exemplo. A loucura de rezar um terço — e não a de retirar um rosário de dentro do cu em uma performance artística: isso não nos choca. Dedilhar um rosário em silêncio é muito mais louco do que retirar as contas de dentro de um ânus.

Essa juventude revolucionária senil precisa tomar uma decisão urgente antes que ela fique fisiologicamente senil como Zé Celsos e Gerald Thomas tentando chocar a sociedade com a sua arte que já não choca a ninguém, que não constrange mais ninguém.

Não há nudez ou pornografia que choque mais do que uma obra madura do espírito e da consciência. Os seus caralhinhos não vão nos chocar. Nós não vamos nos chocar diante de pintos, cus e bucetas. Nós não vamos nos constranger.


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