Sobre ser escritor

Jorge Luis Borges e Georges Gusdorf

“Um escritor, ou todo homem, deve pensar que tudo o que lhe ocorre é um instrumento; todas as coisas lhe foram dadas para determinado fim — e isso tem de ser mais forte no caso de um artista. Tudo o que acontece a ele, inclusive as humilhações, as vergonhas, as desventuras, todas essas coisas lhe foram dadas como argila, como matéria-prima para sua arte; ele tem de aproveitá-las. Por isso já falei num poema do antigo alimento dos heróis: a humilhação, a desgraça, a discórdia. Essas coisas nos foram dadas para que as transmutemos, para que façamos, da miserável circunstância de nossa vida, coisas eternas ou que aspirem a sê-lo.”

— Jorge Luis Borges in Borges Oral & Sete Noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 213


“Toda escrita do eu procede de uma intervenção decisória. Escrever quem eu sou é fazer ato de vontade, não somente vontade de escrever, mas previamente vontade de ser, de reunir os elementos esparsos daquilo que sou, de constituir a unidade e a identidade de meu ser temporal no devir de minha história. A escrita não vem figurar essa unidade já realizada; ela fornece, por assim dizer, a realização dessa identidade. A sinceridade intervém, não depois do fato para manifestar um resultado atingido, mas como um fator de realização, na implementação de uma intervenção de si sobre si. O autor de escrituras do eu é um modelador do sentido da sua vida; a vida que ele evoca não lhe é dada como um modelo a ser reproduzido, mas como uma matéria plástica à qual ele deve dar forma e coerência. Não se trata, para ele, de descrever o sentido previamente existente e, por assim dizer, colocá-lo em marcha, mas de dominar o seu sentido descontrolado, ou antes, dar-lhe forma.”

— Georges Gusdorf


One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.