Instante

Assim como nós, as dunas são apenas o retrato de todo tempo que passou, diz um homem à sua filha.

Um casal de pássaros descansa sob a estreita sombra deixada pela marquise de concreto. O sol carrega as horas para o início da tarde, onde a gota de suor que escorre pela testa da menina denuncia o calor sufocante.

Pai, diz a menina, voltando seus olhos arregalados pela curiosidade para o homem que a segura pela mão com grande delicadeza e segurança, o que são dunas?

O pai, dividindo sua atenção entre o rosto ainda não desfigurado pelo cansaço da rotina e a rua de onde deve surgir o ônibus pelo qual esperam, pensa brevemente em uma resposta satisfatória para a pergunta que a filha lhe oferece.

Dunas são espaços ocupados por imensos amontoados de areia, areia esta tão fina, que se locomove de um lugar para o outro, seguindo a rajada dos mais ínfimos ventos. Você já deve ter visto alguma foto em um de seus livros da escola.

A resposta parece agradar a filha, que imediatamente associa as palavras do pai ao mar marrom-alaranjado por onde homens trajados com fartas roupas coloridas caminham ao lado de sua cáfila. Ela então vira o rosto e parece perder-se no casal de pássaros que continua a repousar na sombra ao lado.

Pai, como os pássaros contam o tempo?

Surpreendido pela pergunta, o pai olha para os pássaros em busca de uma resposta. Após alguns instantes de silêncio, consegue observar apenas a impassibilidade do casal de pombos, aparentemente alheios a qualquer noção sobre o assunto.

Acho que eles não se preocupam com isso, diz o pai.

Foi apenas isso que o homem conseguiu responder. Contudo, logo após a frustração pela resposta que havia deixado à sua filha, notou que, diferentemente de nós, os pássaros conseguem ficar parados, pois para isto basta não se moverem. Já nós, mesmo parados no espaço, estamos sendo constantemente arrastados pelo caminhar dos minutos. A felicidade, talvez, consista nos breves momentos em que consigamos abstrair a passagem do tempo e, desta forma, sentir-nos em absoluto em um só lugar.

A filha continuava ali, ao seu lado, assim como os pombos e a sombra deixada pela marquise. O ônibus, acompanhado por seu barulho indissociável de ônibus, apontou do fim da rua. Neste instante, o homem levantou-se, os pássaros voaram abruptamente da calçada e a menina acompanhou com os olhos o trajeto que seguiam em direção ao céu. Parecia estar ainda decifrando a resposta para a pergunta feita ao pai.

Perdida nessa busca, a menina não se deu conta de que o ônibus estava parado à sua frente. Agarrou ainda mais firmemente as mãos do homem que a chamava silenciosamente com um tenro sorriso e, ao colocar os pês sobre a escada que se estendia a sua frente, já não se lembrava mais das dunas ou dos pombos ou do tempo que deixara para trás.

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