Correspondência
São Paulo, 8 de Agosto de 2015
Prezado Senhor Argélio,
Recebi sua carta com imenso desagrado. Primeiro porque não se mandam mais cartas no dias de hoje, portanto todo o trabalho de abrir e ler a carta, assim como a expectativa de saber quem me havia escrito e, principalmente, de ter de responde-lo, causaram-me grande aborrecimento e perda de tempo. Segundo porque não me interesso por você, sua família ou qualquer outro aspecto de sua vida. Nos mais de três anos que fomos vizinhos de porta, nunca lhe dirigi a palavra justamente com o intuito de não ser incomodado e agora me vem você com essa maldita carta perguntando-me como anda a vida por aqui e enfiando-me goela a dentro como vai a vida por aí. Caso você não tenha percebido, possivelmente devido a alguma severa limitação, toda a antipatia que eu demonstrava em nossos intermináveis encontros no elevador tinha por objetivo exprimir o nojo que tenho por você e seu estilo de vida. Nunca bati a porta de seu chiqueiro — pois uma casa com mais bichos que gente só pode ser um chiqueiro — nem nunca lhe olhei nos olhos o que significa que não lhe dei nem lhe dou a liberdade de me enviar qualquer tipo de correspondência. Espero que estas poucas palavras sejam o suficiente para você entender que não quero receber carta ou qualquer outro sinal de sua existência.
Atenciosamente,
César V. Furtado
São Paulo, 12 de Agosto de 2015
Senhor Argélio,
Eu gostaria de saber apenas qual diabos é seu problema. Constato que além de ter cara de um verdadeiro imbecil, o Senhor não passa de um imenso Filho da Puta. O que te leva a gastar o precioso tempo de sua imunda e nojenta vida para me mandar longas e cansativas cartas? Por que ao invés de me importunar o Senhor não vai ruminar no quintal de seu novo vizinho ou encher o cu de seus filhos de pizza barata e coca-cola? Por fim, suplico que me explique o que se passa na cabeça de um sujeito pobre, corno e fudido que teima em tentar travar contanto com alguém que nunca sequer lhe dirigiu a palavra? Se todo esse assédio tem algo a ver com os jornais que eu peguei de sua caixa postal ou com as duas vezes que eu tentei pegar o telefone de sua filha mais velha, diga-me logo e resolveremos isso de outra forma. Caso você seja convarde ao ponto de não conseguir expor seus problemas cara a cara, pelo menos tenha a dignidade de falar logo o que quer por carta e não ficar me importunando.
Atenciosamente,
César V. Furtado
São Paulo, 19 de Agosto de 2015
Prezado,
Eu já compreendi sua estratégia, Senhor Argélio. Admito que fui burro a princípio, mas agora percebo claramente que seu objetivo é me encher a porra do saco até me tirar do sério. Isso fica ainda mais claro considerando que o Senhor não passa de um velho covarde, que enquanto morou aqui nunca teve a coragem de demonstrar seu ódio contra mim, mas agora que está protegido pela distância se acha no direito de tentar me atingir com suas cartas recheadas de cinismo e ironias. Admiro sua filha da putagem, Senhor Argélio, e admito que o subestimei neste aspecto. Meu pai uma vez me alertou para nunca subestimar a capacidade humana de encher o saco de quem está quieto. Achei que isso servia apenas para indivíduos expansivos e arrogantes, aqueles que necessitam estar no centro de algum palco, mesmo que este palco seja criado por eles próprios. Engraçado como encontrei no exato oposto, um homem que tem vergonha até de olhar sua própria cara no espelho do elevador, a exceção para minha regra. Errei por considerar o Senhor apenas um cachorro sujo e medroso, Argélio, um vira-lata que não reage nem às mordidas dos ratos. Errei por menosprezar sua capacidade de ter qualquer reação ou sentimento humano, por achar que mesmo parando o carro em sua vaga de garagem ou largando o lixo na porta de sua casa você sofreria calado, choraria em silêncio junto a sua ninhada. E quantas foram as vezes que você parou seu carro na rua porque o meu estava atravessado, ocupando parte de sua vaga, Argélio. Quantas foram as vezes que você levou meu lixo para fora como se não fizesse mais que sua obrigação de um serviçal por vocação. Quantas foram as vezes que ignorei o seu bom dia e respondi com desprezo ao seu boa noite, Argélio, seu filho da puta. Compreendo seu ódio, meu prezado Argélio, e parabenizo sua tentativa de causar em mim algum sofrimento, por menor que seja quando comparado às humilhações que eu lhe fiz passar nos últimos anos. Sorte a minha que minha carreira e meus clientes não permitem gastar meu tempo pensando em um fracassado como o Senhor. Se meu reconhecimento e sucesso lhe causam inveja, vá trabalhar ou estudar para ser alguma coisa, seu merda, e me deixe em paz. Por fim, deixo aqui o meu adeus e um sincero boa sorte em suas próximas empreitadas. Espero que continue sendo o bom filha da puta que é.
Com grande admiração,
César Valente Furtado
São Paulo, 24 de Agosto de 2015
Argélio,
Quem é você para falar de meus problemas? Quem te deu esse direito, velho safado! Quem bebe demais é você seu cachorro de boteco! Quem precisa de amigos é você seu porco imundo! Vá para puta que te pariu com suas recomendações e preocupações! Minha vida não lhe diz respeito e o meus problemas resolvo ou não resolvo eu! Se eu vivo sozinho ou bebo muito é porque diferente de você, seu vagabundo, eu trabalho o dia inteiro e tenho um nome e reputação a zelar. Quem não tem nada é você, Argélio. Você é quem vive em um vazio, com essa família nojenta que finge que se ama. Seus filhos são todos um maconheiros sem vergonha. Sua mulher já deu para metade do prédio. E você não passa de um pobre coitado do qual todos tem pena. Você acha que eu tenho que te agradecer pela vez que você entrou aqui em casa para desligar o fogão que eu havia esquecido ligado vazando gás? É isso, Argélio? Todas essas cartas são para tentar me humilhar porque me encontrou sem roupa e embriagado no chão da sala enquanto o gás da cozinha se espalhava pelo prédio? Saiba, filha da puta, que não esqueci a porra do gás ligado. Eu queria me matar, Argélio sua anta, e junto explodir todas as aberrações que moram neste prédio, especialmente você e sua família que merecem mais é morrer queimados em uma fogueira. Você está começando a torrar minha paciência, Argélio, e saiba que eu não tenho muito a perder.
César V. Furtado
São Paulo, 31 de Agosto de 2015
Olha aqui seu bunda, esta é a última carta que eu te mando. Respondo apenas para dizer que eu, e leia com toda a atenção possível, não preciso da ajuda de um jumento lesado como você, Argélio seu filho de uma cadela abandonada. Se por algum motivo eu quiser me matar eu me mato e pronto. Até onde eu sei Argélio, a vida é minha e eu não devo satisfação a ninguém, muito menos a você. Eu sou professor universitário e não preciso de conselhos de um analfabeto imundo. Por último, Argélio, não me venha você falar de minha ex-mulher e de meus filhos! Saiba que quem ficou de saco cheio daqueles imbecis fui eu e por isso os enxotei de minha casa. Vá para puta que pariu você, eles e esses seus conselhos de boteco, Argélio. Pela última vez, me deixe em paz e não toque mais nesse assunto.
César V. Furtado
São Paulo, 6 de Setembro de 2015.
Sinceramente eu nunca acreditei que você teria a capacidade de me tirar do sério. Eu lhe falei para não tocar naquele assunto novamente. Por sua culpa, Argélio, eu enfiei a mão na parede e quebrei dois dedos e um quadro que me custou uma pequena fortuna. Por sorte os dedos são da mão esquerda, o que me deixa com a mão direita livre para responder sua carta e lhe fazer este anúncio. Dentro de 7 dias eu estarei em frente a sua casa e lhe darei um tiro para cada carta que me foi enviada. Aproveitarei também para tacar fogo em seu chiqueiro, e assim acabar com os vestígios dessas malditas cartas.
Atenciosamente,
César V. Furtado
Sete dias após a última carta enviada pelo Senhor César Valente Furtado, renomado Cirurgião Dentista e Professor Titular na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, foi encontrado morto no município de Guanamby, localizado no centro sul do Estado da Bahia, o Senhor Argélio Assis de Freitas, proprietário de uma recém aberta funerária na cidade. O morto foi encontrado estirado sobre a calçada de frente a sua casa com 6 tiros no rosto. Relatos de testemunhas informam que um homem branco e alto, segurando com uma das mãos enfaixadas um galão de cor laranja, proferiu os disparos após gritar com uma voz rouca e colérica: “Argélio, seu filho da puta”. Após consumado o assassinato, o suspeito teria jogado o conteúdo do galão no interior da casa de Argélio e incendiado o imóvel. Os bombeiros e a polícia chegaram a tempo de evitar uma catástrofe ainda pior, salvado a mulher e os três filhos de Argélio, além de prender o suspeito que, após o ocorrido, dirigiu- se ao Bar do Araújo, na esquina das ruas Conselheiro Lafayette e Visconde de Piracanjuba, e tomava uma cerveja calmamente. O suspeito permanece sob custódia na delegacia da cidade. O Senhor Alvares Ferreira Pontes, Delegado Interino, informou que trata-se do Senhor César Valente Furtado, procedente da cidade de São Paulo. Ainda segundo o Delegado Interino, o Senhor César não proferiu nenhuma palavra e apresenta fortes sinais de insanidade mental. Os familiares de Argélio foram encaminhados para o posto de saúde e segundo relatos de enfermeiros, permanecem em estado de choque. O Jornal de Guanamby publicou a seguinte manchete no dia posterior ao ocorrido:
“ MORTE E FOGO EM GUANAMBY “
“HOMEM É ASSASSINATO E TEM SUA CASA INCEDIADA POR DENTISTA PAULISTA NO BAIRRO DA GARÇAS.
Ontem, dia 26 de agosto, um crime brutal chocou os habitantes da pacata cidade de Guanamby. Um dentista, identificado pelo nome de César Valente Furtado, recém chegado do município de São Paulo, assassinou com 6 tiros e pôs fogo na casa de Argélio Assis de Freitas, morador do Bairro das Garças. O Senhor Argélio havia se mudado recentemente para a cidade, junto a sua esposa e três filhos, e aberto uma pequena funerária no centro de Guanamby. A polícia ainda não sabe os motivos de crime tão brutal, mas afirma que o suspeito apresenta fortes sinais de insanidade mental. A casa da família Freitas foi completamente destruída pelo fogo. Já os familiares permanecem em observação no posto de saúde da cidade, todos com sinais de intoxicação e em grave estado de choque. Procurados, apenas um dos vizinhos da vítima aceitou comentar o caso. Perguntado se conhecia a vítima e seus familiares, Carleu de Souza Aguiar, contador, respondeu com as seguintes palavras: “Rapaz, esse Argélio ai era um sujeito bem do filha da puta, viu? Sorte a nossa que mandaram o cabra para puta que o pariu.”