Não, Neymar não precisa aprender isso.

Quarta-feira durante o jogo do Grêmio, pela final da Libertadores, me vejo preso ao entrar em uma discussão com meu pai. Ele pede se Neymar jogou bem à tarde, e aí comento da facilidade com que o 10 da seleção está jogando em Paris, fazendo os adversários parecerem crianças, passa por quem quiser, quando quer… Ele, meio alto, carrega a voz e fala “é o Neymar é aquilo… tem que aprender a […]”. Você também já ouviu isso, são os mais diversos comentários, “Neymar tem que aprender a não driblar”, “Neymar tem que aprender a passar”, “Neymar tem que aprender a se controlar”…

Claro, boa parte desse arsenal de expressões é fruto das transmissões esquizofrênicas da Rede Globo e seu suprassumo de um terror quase lovecratiano. O fato é amigos: Neymar não precisa aprender nada. E aqui me coloco a explicar o porquê.

Essa prudência de tamanhos colossais é o velho hábito do típico brasileiro agorento querendo apontar desgraça onde não há, o brasileiro é um marrento vendo atlas segurar o mundo nas costas e bradando “cuidado ein, uma hora essa merda cai”. Se tem um povo que presa pelo direito de falar “eu avisei” esse povo é o que reside no brasil e se auto intitula brasileiro. Até aí passa por cautela, vem o problema quando o brasileiro avisa avião caindo em canário mancando, o brasileiro aumenta qualquer dano, uma biribinha vira bomba atômica nas palavras do brasileiro agorento. E o maior deles sem dúvida é Galvão Bueno.

Já fiz uma crônica especial só focando nas maluquices que rolam em uma transmissão normal de um jogo da seleção, mas a cada dia está mais gritante. Galvão distorce o jogo a sua visão, seus papagaios dão trela, e vez ou outra um Juninho ou Caio tentam salvar a catástrofe, mas a história que é contada pela Rede Globo, se Neymar não fez uma epopeia em campo, é de tragédia.
 Não vem de agora, a mídia nacional é historicamente agorenta, quem é otimista é maluco e fica taxado pelos seus erros por toda a vida, enquanto os agorentos quando erram apenas não acertaram o dia, pois a desgraça aos olhos brasileiros é sempre eminente.

Em uma hora de zapeada pelos canais esportivos da TV a cabo, você vê uns 6 agorentos genéricos, uns 3 comentaristas de bom senso, e geralmente 1 que não faz idéia do que está falando. O problema é que nas trasmissões da Globo a trupe é comandada por um maluco agorento de um ego do tamanho dos novos arranha-céis de Dubai, Galvão estraga até o melhor comentarista com sua loucura. Galvão é a trombeta de um apocalipse que nunca chega, mas sempre acontece.

Claro, ser tão medroso e agorento tem uma outra raiz, velha conhecida, apedrejada por Nelson Rodrigues: o viralatismo. O brasileiro torce pra outro brasileiro se dar mal só pra ter o direito de falar “eu avisei”. O brasileiro não pode ver um brasileiro brilhar tanto e ter orgulho, não! Ele tem que criticar os pormenores de qualquer ação.

O que Neymar tem a aprender? Se supõem que o menino gênio algo não sabe, ou estão a chama-lo de burro ou de ruim. Logo respondo, não é nenhum dos dois. Neymar não tem que aprender como uma criança, Neymar nao tem mais 17 anos, é homem, Neymar sabe, erra, acerta mais do que erra, mas Neymar acima de tudo sabe.

“Humildade!” berram 
 “Neymar tem que ser humilde”

Para o caralho com a humildade. A humildade como pregam é a virtude dos fracassados, e o sucesso de Neymar grita, como eles incrédulos ao ver o menino pobre preto vestindo roupa de grife em Paris, saindo com os amigos famosos, e no final de semana ainda dando show no campo… A conta não fecha na cabeça do brasileiro médio: o sucesso de Neymar não pode acontecer. Aonde está o erro que todo mundo apontou? Como ele pode ser bem sucedido e feliz? Como não tem nenhum europeu de bochechas rosadas melhor que ele?

O gênio não é humilde, tome por exemplo a arte, a arte parte da presunção do próprio que a faz se achar artista, e Neymar sabe que é gênio, joga como gênio, e se sente gênio da cabeça aos pés. Aos que nunca tiveram ímpeto pra se acharem gênios, e se recolhem na sua falta de genialidade, Neymar incomoda mais que meia molhada. O brasileiro exige do brasileiro notável um nível de excelência maior do que em qualquer outro lugar no planeta, pra aí sim falar: é, talvez ele é bom mesmo… O brasileiro para ver a genialidade Neymar, primeiro tem que se achar gênio, tem que saber que é capaz de ser genial, aí vão reconhecer: esse moleque é foda.

-Chivo. (23 de novembro de 2017)

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