Mirou na certa, acertou na errada


Nasceram gêmeas. Idênticas. Quer dizer, quase. A única diferença entre elas, vejam só, era o cabelo: uma era morena e a outra ruiva. A morena vivia na loucura.
Uma inconsequente. Já a ruiva era santa e velada. Uma muda.
Nunca souberam qual delas era responsável pelo que:

— Eu conquisto — dizia a morena. — E eu mantenho — completava a ruiva. — Sou gostosa — sorria a morena. — Mas eu sou ruiva — debochava a ruivinha.

Certa feita decidiram entre si: esse ano vamos ao carnaval. E foram. Bloquinho de rua, catuaba, fantasia, flerte. Tudo no pacote, tudo permitido. A morena mordia o lábio, não via a hora. Já a ruiva — essa ruiva — reclamava ainda em casa: vou obrigada, prefiro ficar.

Ali perto, algumas ruas de distância, tinha o Samuel. Filho único.
Mimado, como diziam seus primos. Samuel também ia ao carnaval aquele ano. O mesmo que as gêmeas. Ansioso e animado, só sabia falar nisso: é hoje. — Hoje o quê, Samuel? — perguntara o primo mais velho.

— Hoje me apaixono — respondia ele, faceiro. — No carnaval ninguém se apaixona, Samuel. No carnaval a gente beija, transa, bebe, mas não se apaixona.

Ele costumava ouvir o primo mais velho, que se dizia experiente. Mas Samuel era um romântico. E a despeito da experiência do primo, decidiu apostar no que acreditava, no que era correto. E correto, para ele, sempre seria o amor. Já no bloquinho, no meio da farra, avistou as gêmeas. Cutucou o primo mais novo. O mais velho já tinha sumido. Foi beijar, transar, beber. Disse ao mais novo que estava apaixonado.

— Mas assim, do nada? — duvidou o primo. — Não sei se quero uma ou as duas — disse ele, enquanto se aproximava da morena e da ruiva.

Observou, analisou, refletiu. Pensava demais o Samuel. Já imaginava-se namorando, casado, filhos, cachorro caso ela gostasse. As duas não dava, não tinha cabimento. Cada escolha, uma renúncia, pensou ele. Escolheu a ruiva. Pelo cabelo, pelo sorriso, pelas sardas. Só que mirou na certa, mas acertou à errada. Acabou ficando com a morena. Do bloquinho foram para o bar. Do bar para a casa dele. Da casa dele para a cama. E da cama, direto para o dia seguinte. No café da manhã, ambos refletiam. Cada um com seu pensamento. Que não é nem certo nem errado, simplesmente é. A morena orgulhava-se do feito: eu conquisto. E Samuel, coitado, só sabia pensar em uma coisa: mas eu mirei foi na ruiva…

Aprofundaram-se no relacionamento. Com as carícias vieram as brigas. Para cada música romântica, uma cobrança. Insatisfação. A morena estava sempre insatisfeita. Os primos, que acompanhavam tudo de perto, acalmavam-no:
— Calma, Samuel. Sei como é. Ela é assim mesmo, díficil. Mas a menina é perversa, vale a pena — recomendava o primo mais velho, sempre ele, experiente. Só que eu mirei foi na ruiva, pensou Samuel. Pensou, não falou. Nunca falava. Até escrevia, mas falar…

Um dia brigaram sério. Ela queria, como sempre, o que ele não queria. E é assim que toda briga começa, quando esquecemos que dois significa um mais um, adição, e não subtração. A briga foi homérica, trágica, feia, bonita, real. Rolou verdade, mentira, denúncia. E bem no meio do gosto-não-gosto de você, Samuel vituperou: eu mirei foi na ruiva. Ruiva — que mal queria ir no bloquinho, tímida, aversa a problemas, riscos e amores — Samuel era seu e você nunca soube. A morena perdeu o chão. Logo a irmã gêmea. Perdeu o bom senso também: pinto o cabelo de vermelho se for o caso. Não era o caso. Não era isso e sim aquilo. Aquilo que a ruiva tinha em demasia e a morena não: uma risada que preenchia Samuel, e se ela quisesse, e ele permitisse, o mundo inteiro.

E foi indo, depressa, igual aquele band-aid que a gente tira rápido para doer menos.

— Não vai dizer nada antes de sair? Deixar um consolo, um conselho, sei lá — pedia ela, histérica, aos prantos.

— Deixo esse: não se afobe que nada é pra já. O amor não tem pressa.

A frase era de Chico Buarque, mas podia facilmente ser dele se, lá no bloquinho, ele tivesse mirado na gêmea certa, na sua ruiva.

Email me when Thiago Delfino publishes or recommends stories