Bob Dylan: a construção de um ídolo

Mesmo com a aproximação do seu aniversário de 75 anos, Bob Dylan não diminui o ritmo. Com data marcada para o lançamento de seu novo álbum — intitulado Fallen Angels — , para hoje, 20 de maio, o cantor e compositor sairá em turnê pelos Estados Unidos e pelo Japão. Este será o 37º disco do músico norte-americano. Seu último trabalho foi em 2015, no qual apresentou versões para canções consagradas na voz de Frank Sinatra, outro grande nome da música.

Como Bob Dylan mantém uma carreira tão longa? Como se tornou essa figura tão emblemática? A resposta não pode ser outra: talento.

Nascido em 24 de maio de 1941, em Duluth, Minnesota, Estados Unidos, Robert Allen Zimmerman aprendeu a tocar harmônica e violão desde cedo, inspirado por Woody Guthrie — famoso cantor folk. Adota o nome artístico Bob Dylan por conta do poeta Dylan Thomas e passa a realizar pequenos shows no começo dos anos 60. Em 1962 lançou seu primeiro álbum. Mas foi a partir do segundo — The freewheelin’ Bob Dylan — , de 1963, que ganha notoriedade no cenário folk americano, com canções como: Blowin’ in the wind, Masters of war, A hard rain’s A gonna fall, entre outras. Nessa época, suas músicas atingiram a alcunha de “músicas de protesto”, por evocar assuntos como racismo, a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria.

Um pouco da fase atual de Dylan em comparação com o início da carreira:

Terceira faixa do seu último disco
Sétima faixa do seu disco The Freeweelin’ Bob Bylan

A transição para a guitarra elétrica

Depois de ‘The Freewheelin’ Bob Dylan, o músico lançou dois discos no ano de 1964: The times they are a-changin e Another side of Bob Dylan. Ambos muito bem recebidos pela crítica e pelo público. Porém, foi no ano seguinte que sua carreira tomou um rumo diferente. Dylan adicionou ao seu som o timbre mais utilizado na época: o da guitarra elétrica. No ano de 1965, o músico lançou mais dois discos. Afastando-se um pouco da cena folk, Bob começou a tocar com uma banda de blues-rock como apoio. Consequentemente, as músicas de protesto cedem lugar para canções mais pessoais, com temáticas sobre amor e liberdade na era Beat. O primeiro disco desse ano é ‘Bringing it all back home’, uma grande mistura de folk, blues e rock, trazendo faixas eletrizantes como Subterranean Homesick Blues e Maggie’s Farm, mas não deixando totalmente de lado músicas mais calmas, Mr. Tamborine man e It’s all over now, baby blue são exemplos.

Ainda no ano de 1965, Dylan lança ‘Highway 61 Revisited’ que, para alguns, é o seu melhor disco. Este álbum tem em sua composição, faixas do calibre de Ballad of a thin man, Tombstone blues e, logo de cara, começa com uma pedrada: Like a Rolling Stone, música mais conhecida do artista e, ainda hoje, uma das mais tocadas nas rádios do mundo inteiro. O curioso é que a música mais famosa de Dylan não teve vídeo clipe na época de lançamento. Só foi lançado clipe da faixa no ano de 2013, 48 anos após o surgimento da música. O clipe ganhou contornos de inovação, sendo lançado como um vídeo interativo. Clique no link abaixo para conferir:

Blonde on blonde, disco de 1966, mostrou canções com ares mais românticos, destacando-se I Want You e Just Like A Woman. Já em 1967, Bob lançou dois discos pelo selo Sony Music: uma coletânea, intitulada Bob Dylan’s Greatest Hits; depois lançou o disco de inéditas John Wesley Harding, LP que contém a faixa All Along The Watchtower, música regravada por Jimi Hendrix, em 1968, presente no clássico, Electric Ladyland, último disco que Hendrix apresentou em vida.

Com o passar dos anos, no começo dos anos 70, o músico teve alguns discos criticados pelos fãs mais ortodoxos, como: Self Portrait e New Morning. Pat Garret & Billy the Kid, de 1973, foi um disco feito para um filme de estilo velho oeste no qual Bob também atua. Em 1976, ele volta a ser aclamado pela crítica e pelo público com o lançamento de Desire. Nesse álbum contém a faixa Hurricane, canção sobre a prisão do boxeador Rubin “Hurricane” Carter, atleta que foi injustiçado e vítima de racismo.

Em 1977, o músico e Sara Lownds — sua esposa desde 1965 — , se separam. Essa separação afetou de forma substancial as músicas de Dylan. Após uma turnê no Japão — série de shows que redeu um disco ao vivo — , Bob entrou em uma fase gospel após se converter ao cristianismo. Lançou três discos explorando essa temática, ‘Slow Train Coming’, ‘Saved’ e ‘Shot of love’ dão conta dessa fase. Muitos fãs detestaram essa experimentação. Mas para a alegria desses fãs, em 1983, Bob destaca-se, mais uma vez, com o disco Infidels, com uma baita faixa logo no começo, Jokerman.

A exploração de novas possibilidades, o garimpo de instrumentos diferentes, a incorporação de outras culturas, tudo isso sempre foi características marcantes na figura emblemática de Bob Dylan. E foi assim, entre altos e baixos, que o artista seguiu lançando discos nos anos 80, 90 e 00. Sempre disposto a experimentar caminhos distintos, gravou um CD acústico pela MTV em 1995, com arranjos marcados pela discrepância dos originais de estúdio.

Algumas passagens pelo Brasil

A sua primeira aparição, em terras brasileiras, foi em 1990. O Hollywood Rock, evento patrocinado pelos cigarros Hollywood estava em sua segunda edição. O festival contou com a participação de grandes nomes da música, por exemplo: Bon Jovi, Tears for Fears, Barão Vermelho, Capital Inicial, Lobão, Engenheiros do Hawaii, entre outros. Mas a grande atração, pelo menos para os que sabiam da sua importância para o rock, foi Bob Dylan. Tocou durante uma hora e meia no primeiro dia do evento. Os arranjos diferentes para suas principais canções fez com que o público fosse reconhecê-las lá pela metade de cada execução. Interagiu pouco com o público, sussurrou um ou outro “thank you” entre as músicas.

Bob veio a Porto Alegre no ano seguinte. O show, no Gigantinho, foi uma decepção para a maioria dos fãs. As músicas mais conhecidas foram apresentadas muito diferentes das originais, além de Dylan tocar algumas canções esquecidas de discos pouco badalados.

Em 1998, foi diferente. Voltou à capital gaúcha em um show mais intimista. O palco dessa vez foi o famoso Opinião, um local de menor porte, apto para proporcionar shows de maior aproximação entre artista e público. O set list dessa vez não deixou a desejar, empolgando o público em muitos momentos. Alguns dias depois, Dylan se apresentou no Rio de Janeiro e em São Paulo, abrindo os trabalhos para a turnê dos Rolling Stones, Brigdes to Babylon. Essa turnê rendeu o encontro histórico entre os Stones e Dylan cantando juntos a música Like a Rolling Stone. Sorte de quem viu ao vivo.

Os shows do Rio e de São Paulo, em 2008, contou com músicas do disco de trabalho da época, Modern Times, e foi de poucos hits clássicos. Os fãs reclamaram do Trovador pela falta de presença de palco e de interação com o público.

Na turnê de 2012, pelo Brasil, Bob fez uma série de shows em várias cidades. Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre. Para os fãs, esse show agradou bem mais que os anteriores. Ele tocou muitas canções do começo da carreira, mas sua voz já não era mais a mesma do passado, o que faz jus à sua fama de estar sempre se renovando… Pode ser.

Homenagem

O artista plástico brasileiro Eduardo Kobra pintou, em 2015, um mural em homenagem a Bob Dylan em Minneapolis, Minnesota, nos Estados Unidos. A obra foi realizada em um prédio no centro da cidade. A dimensão é de 50 metros de largura por 28 de altura, cuja pintura corresponde a três fases da carreira de Dylan, enfeitada com muitas cores que dão vida e alegria a obra.

Kobra, acompanhado dos artistas Agnaldo Brito, Silvio Cesar e Marcos Rafael — todos do ‘Studio Kobra’ — disse que foi o maior painel que já pintaram fora do Brasil. Esse trabalho faz parte de um projeto de revitalização do centro da cidade, sendo inaugurado com uma homenagem a Bob Dylan, antigo morador da cidade, e grande ídolo musical.

Nota-se que ao lado do mural está escrito “The times they are a-changin’” — título de uma letra famosa de Dylan.

Bem que essa letra poderia ser mais uma profecia do eterno Trovador, e os tempos mudarem de verdade as coisas do mundo como mudaram na vida dele.

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