Entrevista com Moisés Mendes

“Pluralidade, diversidade e livre circulação de ideias, no jornalismo e em todas as áreas que contribuem para a propagação de informações e de opiniões, não podem ser meros recursos mercadológicos. Somente serão efetivas se estiverem a serviço do debate, dos avanços civilizatórios e da democracia.”

Moisés Mendes, gaúcho de Rosário do Sul, é um experiente jornalista. Já foi repórter, redator, editor e colunista. Ele me recebeu em sua casa para uma conversa. Simpático e cordial, respondeu a todas as minhas perguntas sem pestanejar. Comunicação e política foram os temas centrais desse diálogo que rendeu uma aula de jornalismo com um profissional qualificado e inteligente.

Muito otimista, deu-me conselhos sobre a profissão. Fez uma análise crítica em relação à atual situação do jornalismo. Durante nosso papo, notei o vislumbre e a paixão de um menino ao falar de comunicação. Além de ser um exímio jornalista, é um grande entusiasta sobre o futuro da profissão e do mercado.

Segue abaixo alguns trechos da nossa conversa.


Na tua visão, o que é preciso para exercer bem o jornalismo?

Moisés. É ser crítico em relação a tudo. E ter em sua essência uma formação humanista. O jornalista tem que ser humanista. Tu pode estudar filosofia e ser jornalista, pode contribuir. Eu acho que o curso de jornalismo tem que continuar existindo pra dar um bom lastro, uma boa formação. O curso é um avanço. Eu não fiz o curso, mas eu gostaria, na minha época, de ter feito, porque eu não cometeria muita barbeiragem que eu cometi. Então eu sou um defensor do curso. Acho que o jornalista precisa ser um progressista. Aí tu pode me dizer ‘’bueno, mas há os que são conservadores, tem o Reinaldo Azevedo, tem o Augusto Nunes, tem todos os que são reacionários’’, faz parte da vida. Mas eu acho que o jornalista que vai contribuir com algo para a humanidade, pra melhorar o mundo, pra fazer as coisas avançarem, é o jornalista progressista. Nas redações, 90% são progressistas. Tem que ser um humanista, um crítico de tudo, de economia, dos costumes, da política, tem que ser um observador de tudo, sempre do ponto de vista humanista, não pode ser um conservador, um reacionário, porque o jornalista reacionário não vai progredir no mundo. Vai progredir como reacionário, mas não como jornalista.

Quais são as principais dificuldades de opinar sobre política?

Moisés. Alguém pode vir falar da censura dentro da imprensa, dos jornais, enfim. Mas isso aí sempre existiu. Uma espécie de controle dentro dos jornais. Eu vou te dizer, sinceramente, nunca enfrentei censura ou restrições ao meu trabalho de uma forma explicitada. Então, alguém pode dizer a respeito de uma censura da grande mídia, mas eu acho que um cara que se acha censurado, insatisfeito ou até mesmo desconfortável que vá criar algo novo. Eu, por exemplo, saí da Zero Hora por desconforto. Isso não é problema algum. Tem que se produzir alguma coisa alternativa para desafiar o que está dado. Acho que não tem desculpa dizer: “Ah! Enfrento restrições, essa é minha dificuldade”, que vá fazer um blog, vá fazer um site ou escrever em outro lugar. Isso é uma desculpa.

Como é trabalhar em um jornal de grande circulação? E como é publicar argumentos divergentes da maioria dos jornalistas do mesmo veículo?

Moisés. A imprensa sempre lidou com isso. As pessoas pensam que um jornal é conservador, reacionário; ou que o dono é um conservador. Mas não. Os jornais sempre lidaram com a diversidade, uns mais outros menos. Tem uns que têm um mínimo de discordância da linha do jornal. Eu sempre convivi com isso, até na própria Zero Hora; então, isso é da natureza do jornal. Agora, chega uma hora em que esse espaço se restringe, pode se restringir, pode ser da política da empresa. A diversidade é o que faz o jornal sobreviver. Se não tiver, vira um boletim de algum partido político ou linha ideológica. Se não tiver diversidade, não tem sentido. Eu agora estou escrevendo para o Extra Classe, por exemplo, que é um jornal dos Sindicato dos Professores do Ensino Privado. É um jornal que abre espaço para a diversidade, mas tem uma linha, que é: a defesa do ponto de vista dos movimentos sociais. Isso não quer dizer que o jornal não vai permitir outros tipos de abordagens. É um jornal crítico, extremamente bem feito, estou escrevendo ali com muita honra. Ele tem uma linha, assim como a maioria dos jornais têm uma linha que chamam de liberal-conservador, ele tem o dele. Outro bom exemplo de jornal com diversidade é a Folha de São Paulo.

Quais são as tuas principais dicas para quem está começando no jornalismo?

Moisés. Seja humanista, seja crítico. Desconfie das verdades que são dadas em qualquer circunstância, em qualquer ambiente, nas mais variadas situações. E trabalhe sempre no sentido de ser defensor dos pontos de vista progressistas. Não pode cair na tentação de ser um conservador. Conservador tem que ter mais de 60 anos. O cara pode ser conservador quando ficar maduro, quando se desencantar com algumas coisas da vida, mas o jornalista jovem não tem esse direito. Jornalista tem que ser progressista, trabalhar em defesa da democracia, em defesa de avanços em relação aos costumes; combater homofobia, xenofobia, racismo. Fazer a defesa de coisas que representem evolução. A questão das cotas, por exemplo, que a direita adora bater. Avanços sociais são projetos de afirmação, de alguma compensação de tudo que se fez contra pobre e negro no Brasil. Então, o jornalista tem que trabalhar pelo avanço do mundo, pelas coisas que ajudem a humanidade no sentido de tornar tudo mais tolerável. O jornalista reacionário existe como nicho de mercado, alguém que vai sobreviver porque fala pra determinado público, mas ele não contribui para nada. Tu não vai te lembrar de ninguém reacionário. Falam bastante do Carlos Lacerda, que foi o cara que derrubou o Getúlio, que conspirou depois contra o Jango. O Carlos Lacerda é dado como grande jornalista de direita. Primeiro, ele era extremamente talentoso, era um gênio da direita, como jornalista e como político, e não tem nenhum Lacerda hoje. Então, esses de direita que estão aí hoje a falar, ninguém vai se lembrar deles, eles são completamente insignificantes, figuras desqualificadas. O jornalista conservador tem aos montes, inclusive na Zero Hora, na Folha, tem em tudo que é lugar, isso é uma coisa. Mas o jornalista reacionário, o cara que propaga ódio, esse aí não contribui com nada, esse aí não vai ficar na história, ninguém vai se lembrar dele. Então, se eu fosse dar conselho para jornalista que está se formando, a frase é essa, não tem novidade nenhuma: seja humanista e respeite a diversidade.


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