Dia 1

Não me lembro de estar apaixonado e ter vontade de escrever, escrever, escrever e escrever até a tinta acabar. Já me apaixonei outras vezes, mas sentir essa vontade desenfreada de passar pro papel, assim, livre, tipo um diário mesmo, nunca fiz.
Engraçado: nunca em minha vida toda tive um diário. Desde a primeira gozada, até o primeiro beijo na boca, passando por situações de quase-morte, nunca tive vontade de escrever sobre minha intimidade. Sempre pensei que seria uma exposição um tanto quanto desnecessária. Por mais que vez ou outra escreva um poema ou uma crônica, um diário é bem diferente, e pela experiência não vivida até então, resolvi arriscar.

As memórias atuais giram muito em torno das imagens, então, decidi que com a palavra, cada uma veria a imagem que imaginasse. Quando digo cada uma, refiro-me ao Carlin, ao Chocolate e à Karina, que são as pessoas que leem essas palavras ao vento que sopro. Às vezes nem elas.
Também não lembro de sentir o que sinto no momento e não poder sentir a pessoa fisicamente. Nunca passei por situação semelhante, e isso talvez tenha feito com que eu optasse por fazer diferente dessa vez.

Pensei no email que ia escrever sobre o que sentia e ficava postergando e resolvi juntar tudo nesse diário de 15 dias até ela voltar [Só nesses dois parágrafos já deu uma aliviada].

Já que já tava tudo na cabeça e era só passar pro papel, resolvi desaguar no mar de vez, de cabeça e corpo inteiro. Assim como costumo fazer quando amo. Penso que vai aliviar um pouco a distância até que ela volte.

Dia 1.

Dia da partida. Nunca é como a gente imagina que será, e realmente não foi. Ela precisava ir na PUC pela manhã com vôo marcado pra 13h, sendo que depois de muito chamego e trepação, saímos de casa 10h e tal quase 11h. Sem contar que ainda era preciso tirar xerox dos textos. Eu já tinha marcado uma reunião com um amigo, e ele tava passando pela Lapa, então, tive que encontrá-lo. Saí da xerox com o coração apertado e sem saber se ela ia conseguir cumprir a missão. Sexta no Rio o trânsito é caos em qualquer lugar, mais do que já é, mas ela disse que ia dar um jeito.

Após a reunião, passei o dia regado a churrasco com amigos. Fiquei pensando o tempo todo se ela havia conseguido viajar sem problemas, se já tinha chegado e se tinha chegado bem. Mandei sms e telegram e fiquei aguardando resposta, que depois de muito tempo, veio e foi bem seca. Sei como é viagem, então imaginei que fosse falar com calma depois. Fui ver o show do Rubel no Circo. O coração apertou em diversas músicas. O moleque é bom. As linhas são sinceras e fizeram a todo tempo lembrar da danada. Fora o tempo que fiquei olhando pra cima, imaginando que a qualquer momento ela voaria nos meus braços direto do trapézio. Ela mermo não ia gostar nem um pouco. Ia dizer que tava paradão e que saindo dali taria precisada da Casa Nem.

Bell tinha que cuidar do gato do Gus, que viajou, então, pra não voltarmos tardão na madruga, dormimos na casa dele no Rio Comprido. Ap maneiro, com uma vista irada. Fizemos quatro cheese presunto de almôndegas e caímos pra dentro. Fui dormir meio bolado porque quando tirei a meia, caíram minhas duas bolinhas de haxa, sendo que uma nem era minha, e sumiu. O Quico, gato que fomos lá pra cuidar, tava brincando com a que o Bell me mostrou perguntando se era minha. Pensei: fodeu! Esse gato comeu a outra e vai morrer. Ou vai ficar numa lombra que só vai passar ano que vem.
Típico de filme de comédia: vamos pra cuidar do gato e acabamos matando o coitado de overdose. 
Dormi no sofá, bem aconchegante por sinal, mesmo com Bell insistindo pra que eu dormisse na cama. Ao acordar, pedi pra São Longuinho me ajudar a achar o outro haxa. Levantei o sofá e ele tava lá. O Quico havia jogado lá pra baixo brincando com a bolinha. Gato maluco. Dei três ou mais pulinhos, fumamos um de cadeia e partimos.