Era só mais uma dura…

Foto: Gê Vasconcelos

Quem cresceu durante os anos 90 na Zona Norte do Rio, provavelmente leu o título cantando mentalmente Tribunal de Rua, d’o Rappa.

Hino de multidões [as mesmas, pretas, periféricas, faveladas, suburbanas], a música narra de forma única uma abordagem policial nos moldes como vemos ainda hoje, 2017, nos subúrbios e periferias do brasil.

Quem é preto, morador de periferia, já cresce tendo que aprender os códigos da rua que lhe são impostos. Tanto pra resguardar a vida, no caso da violência policial, quanto pra que seja possível viver de uma maneira mais leve, já que a sociedade impõe sobre esses corpos o esteriótipo de marginal. O que também é uma violência. Em ambos os casos, trata-se puramente de racismo genuíno. É um processo tão natural que na maioria das vezes, só refletimos sobre na fase adulta.

Perceber o cano de descarga solto da D-20 se aproximando na esquina, fez com que muita gente voltasse pra casa mais cedo, livre de tapas na cara ou de algum achaque. Assim como o aviso dos mais velhos pra não correr em nenhuma hipótese de dura, pois naquela época [agora também], a polícia atirava pelas costas pra depois perguntar.

A gente se acostuma a não andar de boné dependendo de onde vamos. A gente se acostuma a não andar em grupo com mais de dois amigos. A gente se acostuma a ver o ônibus lotado e o lugar ao seu lado vago, sempre sendo o último a ser ocupado. A gente se acostuma a ter um segurança do Extra ou das Lojas Americanas nos seguindo pelos corredores. Se for na seção de eletrônicos então, ele quase pergunta se queremos ajuda pra escolher o que comprar. Mesmo que esse segurança também seja negro.

Dia desses, junto com um amigo também preto, numa das corridas que costumamos dar, voltávamos do Maracanã pela São Francisco Xavier, conversando sobre diversos assuntos. Ao atravessarmos para o outro lado da rua, próximo ao colégio militar, percebemos que uma mulher no ponto de ônibus nos olhou rapidamente, pressionando a bolsa junto ao corpo, e desviou o olhar em seguida. Continuamos conversando e caminhando e o gesto dela se repetiu mais umas três vezes enquanto passávamos por ela. 
Mais a frente, o indaguei se ele havia percebido o que ocorreu. Na mesma hora ele começou a rir e disse que sim. Começamos a conversar sobre o quanto isso é corriqueiro, o quanto isso dói, mesmo que já tenhamos ultrapassado a barreira do sentimento de inferioridade, de se sentir mal no “eu”. Dói muito mais como um todo, no coletivo.

Ninguém que não seja negro sabe/pode exprimir esse sentimento. O tempo todo percebemos o racismo, desde a forma mais sutil até a forma mais exacerbada.

Mais a frente, próximo ao Monte Sinai, percebemos aquela luz vermelha do giroflex refletindo nas paredes e nos carros próximos. Esse é um daqueles códigos que a gente desenvolve desde criança pra perceber a presença da polícia sem ter que olhar pra trás. Quando essa luz vem atrelada ao soar único da sirene, é como na infância, quando sua mãe te espera em casa já sabendo que fez alguma besteira, e, entre o caminho da rua até em casa, você passa pelos amigos e eles vão dizendo: Tá fodido! Vai morrer! Tu vai apanhar até amanhã! Multiplicando essa sensação pela enésima potência, talvez seja isso, já que o perigo de morte é real.

Mesmo já acostumados, num primeiro momento estranhamos, pois ao nosso ver, estávamos explicitamente dentro dos padrões de quem saiu de casa para praticar alguma atividade física. Camiseta, short, tênis apropriado. Ao mesmo tempo, martelava em nossas cabeças o ensinamento dos antigos de que não é preciso estar “devendo” para ser abordado pela polícia. Basta ser negro para ser suspeito.

Nos viramos quando percebemos o carro já bem próximo e, para nossa surpresa, a mulher que estava no ponto de ônibus e nos olhou enviesado, estava no banco de trás, dessa vez com uma cara de quem não sabia o que estava acontecendo.

Então, o policial desceu, deu poucos passos até nós e disse: Boa noite, meus amigos.
Aquela fração de milésimos em que o cérebro processa uma informação e você deduz: tem alguma coisa errada aí…

Toda pessoa em sã consciência sabe que ao ser abordada por um policial, a única forma de tratamento que ele consegue utilizar é “cidadão”. “Boa noite, cidadão”. “Bom dia, cidadão”. “Boa tarde, cidadão”.

Após o estranhamento inicial devido a abordagem, seguiu-se um diálogo digno de Chuck Palahniuk, onde o policial nos informou que ao passar pelo ponto de ônibus, a mulher fez sinal para que parassem. Assim que o carro parou, ela disse que haviam passado dois negros suspeitos por ela e que caminharam “naquela” direção. Ao perguntar pra ela o porquê da suspeição, ela informou que eram pretos, a essa hora da noite, andando pelas ruas. Ele então a convenceu a entrar na viatura, com o argumento de que facilitaria a identificação dos “meliantes”.
Dito isto, nos perguntou se gostaríamos de prestar queixa contra a mulher e que ele serviria de testemunha.

Nos entreolhamos sem entender nada, achando que poderia ser algum tipo de armadilha ou algo assim, pois lembrávamos do rosto da mulher e da atitude dela ao nos ver passar, logo, era totalmente plausível nossa desconfiança.
Optamos por deixar pra lá, e o policial ainda perguntou se realmente não queríamos ir até à delegacia pra prestar queixa contra a cidadã.

Ele se despediu, deu boa noite pra nós, nos desejou paz na volta pra casa e se virou pra entrar na viatura.

Olhamos pra igreja de São Francisco Xavier e depois, conversando, chegamos a conclusão que ali, naquela situação, nada mais poderia ter ocorrido a não ser um milagre.

Atônitos com o acontecido, continuamos caminhando rumo a nossas casas, sem entender direito o que ocorrera, e antes de atravessarmos a rua, havia em nossa frente algumas pessoas que acabaram de sair do metrô, que também aguardavam pra atravessar fora da faixa de pedestres. Uma delas, ao se virar e perceber nossa aproximação, se destacou rapidamente, caminhando na direção oposta ao fluxo dos carros e comentando com a amiga: “ai, hoje tá difícil atravessar aqui. Esses carros não param nunca…” Deixando a amiga e as outras pessoas que não nos perceberam chegar, para trás.