Passatempo

É estranho pensar que tudo isso um dia vai passar. Eu não queria que passasse. Lembro o dia que te vi saindo do Mundial na tijuca segurando algumas bolsas e a chave do carro na boca, e desde esse dia, eu quis que esse sentimento fosse pra sempre, mesmo ouvindo de todos que o pra sempre sempre acaba. Lembranças assim servem pra fazer sorrir enquanto se está num engarrafamento na Presidente Vargas na hora do rush.

Quinta-feira, passando pelo Largo da Carioca, vi que estava em outra companhia e abaixei a cabeça para não me perceber, mas, com meu tamanho, não sei se consegui passar batido. Minha vontade foi correr e te abraçar bem forte, assim como fazíamos quando nos encontrávamos no ponto final do 474 e íamos pra minha casa pra te mostrar os quadros que havia pintado recentemente. Deveria ser proibido por lei ver quem se ama nos braços de outra pessoa. Ao menos que isso nos fizesse mais forte, mas não é o meu caso.

Quando saio e está no mesmo lugar, alguns amigos agem com certa solidariedade tentando me distrair para que eu não te veja, pois sabem que ainda sinto algo bem forte por você, e sei que isso transparece, seja no olhar, seja no gestual, não consigo esconder. Inclusive pra alguns já deixei bem clara a minha vontade de compartilhar do mesmo círculo de amizades novamente. Confesso que ainda é muito difícil esquecer os pedacinhos de coco caramelizados embalados em saquinho que deixava em cima da mesa da sala. O bilhete preso na geladeira dizendo sobre a comida do gato. A garrafa d’água ao lado da cama pra quando eu acordasse. Essas coisas que servem de sopro pra manter a chama acesa.

Talvez isso tudo um dia passe e eu acorde com vontade de renovar meu guarda-roupa, sair pra dançar até as pernas não aguentarem mais, beber pra dizer no outro dia que nunca mais vou beber, mas, sinceramente, eu não queria que passasse.