Sorte no jogo

Tenho caminhado por aí mais devagar que o normal, e nessas caminhadas tenho reparado melhor no que me é entregue. Pra contemplação, reflexão, confirmação. Desde a senhora prestes a atravessar a rua segurando sua bolsa de compras que arrebenta e faz as frutas rolarem por cima da faixa de pedestre, atravessando rumo à liberdade, virando poesia pra algum espectador, passando pela melhor hora da praia, até ao golzinho da garotada na rua fechada aos domingos, brincando, se divertindo, em certo grau até ávidos pela vitória, mas sem que essa seja a principal intenção da brincadeira, ou pelo menos o que as move. 
Da janela do busão tenho reparado nas enormes filas das loterias. Algumas contas a pagar, sei bem, mas as filas parecem maiores quando os prêmios acumulam. Ninguém quer ganhar 100, 200, 500 mil. As filas quilométricas ocorrem quase sempre após o anúncio de prêmio acumulado em 10 milhões. Isso mexe com muita gente. Talvez pela possibilidade de comprar um monte de coisa. Que continuarão a ser coisa após a compra. Isso me balança um pouco pois todas essas coisas não são acesas por dentro.

Dia desses inventei de apostar quem ficava mais tempo sem falar com o outro. Um misto de alegria por compartilhar de tamanha bobeira ao topar a brincadeira, com uma dor elegante. Esqueci o quanto você carrega de orgulho. Saudade. Pensei até que quisesse desapaixonar. Lembrei das purpurinas adquiridas enquanto nos roçávamos e que cada uma era uma estrela das que a gente consegue pegar, tocar e lamber. Peito-constelação. Então, me balançando no trapézio, fechei os olhos bem fechados, com força, e de maneira bem leve, senti a gente rolando na cama pra lá e pra cá, abraçados, parando embaixo da janela com aquela luz bem fraquinha e a brisa acariciando nossos corpos. Lembro de você falar que parecia até um filme do mascaro, que eu bem achei na hora que fosse ventos de agosto, mas não quis confabular nada. Seus beijos em meu coração-iracema, atravessando minhas costas até chegar em meu coração-coração é caso de apaixonite aguda. É mais que a marina cantando sobre relacionamento.

Já, já vou à lotérica. Pagar uma conta.

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