Tessitura

Rascunhos a respeito do Amor


O amor é de mentira — e raramente como os contos de fadas o desenham, se muito. Romantismo? Este sim, é, afinal, ficção — elaboração, fumaça e espelhos que não só entretem, mas que ensinam a viver, a esperar. Como acreditar, portanto, que nosso destino é nosso, quando a escolha em sofrer esperando o alheio — sim, porque é sempre o outro — ou Outro, pouco importa — está naquilo que nos é ensinado, imposto, impresso, socializado?

Não, nosso destino não é nosso, e há pouco que possamos fazer para controlá-lo, quando o que vem de fora é tão… arrebatador. A palavra, ainda assim, se enseja como eufemismo, reitera a ideia de que uma força externa nos toma — nos assume — quando a verdade é completamente outra: essa força — esse conjunto de forças — é quem somos. Quanto mais influências, referências, guias, nós temos, mais e mais forças nos puxando em transformando em padrões hamos de conviver com.

Como ignorar o papel, precisamente, destes, dos contos de fada? Não é o suficiente, nunca. As comédias românticas, as expressões do amor não servem apenas para nos entreter, como disse algum francês, elas também ensinam como encenar este amor que — e aí reside a grande questão — raramente é nosso.

A hegemonia desta comunicação que está em toda parte se apossa não só daquilo que é óbvio, mas invade as alcovas mais afastadas deste mundo da vida. Tem sido necessário, graças a todo esse tempo de mudanças, reaprender a encenar esse amor, e não há grandes narrativas, nesse momento, que possam mostrar como fazê-lo. Daí o retorno às coisas do coração, ao brega, em todos os sentidos da palavra: desde o sem sofisticação ou trato até a estilização, regurgitação, ressignificação do que é sentimento e se torna categoria estética.

O amor é irreal, sim, porque não passa de tecelagem. Fabricação.

O amor, assim como tudo que ele constrói há séculos, é puro simulacro.

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