Apenas seres humanos

Faz pouco mais de um ano que conheci de perto a realidade de um grupo de cerca de 200 refugiados de Angola e da República Democrática do Congo (RDC).

Africanos, homens, mulheres e crianças que atravessaram o Atlântico, mais uma vez forçados. Mas desta vez vieram fugidos. Sem garantias e certezas. Alguns com sonhos de viverem na cidade olímpica. Cartão Postal do mundo… Mas a realidade que os esperava era dura. A favela Cinco Bocas, em Brás de Pina, à beira da Avenida Brasil, subúrbio do Rio.

O primeiro e mais longo contato foi no primeiro final de semana de abril de 2016. A produção de uma reportagem me levou vielas adentro para a realidade do refúgio. Foram dois dias intensos de gravação em que mais uma vez o jornalismo me humanizou.

A cada família que conhecia um motivo de fuga era sabido. “Deixei pai, mãe, marido e vim com filhos para dar uma vida melhor a eles”, disse uma mulher de meia idade. “Fugi da guerra que tinha no meu país. Se ficasse morreria”, contou uma judoca que depois iria competir pelo time olímpico, na Rio 2016. Um jovem congolês desempregado, vinte e poucos anos, contou que perdera a esperança em seu país, assolado por uma ditadura de décadas. Estava à procura de trabalho no novo lar.

Na comunidade eles chamavam atenção. Formaram um gueto dentro do gueto. Mas eram bem vistos. Abriram um salão afro cujas bandeiras dos três países eram objetos decorativos e que representavam a síntese daquilo que viviam. Angola, Brasil e RD do Congo. Tudo no mesmo lugar, ali em Brás de Pina.

As crianças eram de uma alegria sem fim. Com brincadeiras que não tem fronteira, se metiam a correr pela rua. Subir e descer do sofá, bola na mão, cabeça cheia de imaginação. Podiam ser livres.

O ponto de encontro da comunidade era a igreja evangélica, cujo pastor também era fruto do refúgio. E acolhia aquela gente como um pai. Os que chegavam por último dormiam e se alimentavam no salão da igreja até conseguirem emprego e um lar para se fixarem. O local de culto era um altar de esperança. Para que surgissem as oportunidades, para que o preconceito cessasse. Para que aquela alegria típica africana nunca se acabasse.

Sinto saudades de voltar e ver os irmãos africanos. Eles me ensinaram a ser mais humano. Menos mesquinho e a evitar desnecessárias reclamações. Neste convívio percebi que somos eternos caminhantes nesta jornada pelo planeta. O Papa Francisco afirma que “o encontro pessoal com os refugiados dissipa medos e ideologias distorcidas e torna-se fator de crescimento em humanidade”. Pudera, um dia, não termos mais que usar estas palavras e possamos de fato ser apenas humanos, afinal como disse certa vez outro irmão africano: “Refúgio não é romance”.

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